PUBLICIDADE
Brasil
neste sábado

Cantor e compositor Belchior morre no RS

10:45 | 30/04/2017

(Foto: Divulgação)

Atualizada às 22h30min

O cantor e compositor Belchior morreu neste sábado, 29, na cidade de Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, aos 70 anos. O POVO apurou que a morte foi causada por uma parada cardíaca.

A previsão é que o corpo do cantor chegue no Aeroporto Internacional Pinto Martins às 5h30min, onde o avião será reabastecido, e às 6h segue para Sobral. Lá, o corpo será velado no Teatro São João (7h às 10h). Por volta de meio dia, está marcado o velório em Fortaleza, que ocorrerá no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (12h da segunda às 7h da terça). Na manhã da terça-feira, por volta de 7h, terá a Missa de Corpo presente no Dragão e, em seguida, Belchior será sepultado no cemitério Parque da Paz, às 9h, no túmulo onde estão os pais dele.

Segundo a família, Belchior teria feito um pequeno show na noite de sexta-feira na cidade onde morava no Interior do Rio Grande do Sul e teria voltado pra casa reclamando de dor nas costas. Ele dormiu e não acordou mais.

>> Jornalista Henrique Araújo homenageia Belchior


Segundo O POVO apurou com Instituto Médico Legal (IML) de uma cidade do Rio Grande do Sul, o laudo da necrópsia aponta que a causa da morte foi por parada cardíaca. De acordo com o jornal Zero Hora, do Rio Grande do Sul, Belchior teve uma dissecção da aorta (rasgão na parede da aorta), principal artéria do corpo humano.


Blog do Jocélio Leal: Governo do Ceará fará traslado do corpo de Belchior

O POVO apurou também que corpo do artista continuava em casa, onde morreu, esperando liberação oficial, por volta das 14h. Os médicos legistas estavam no local. Até aquela hora, ainda não havia emissão do atestado de óbito. Só após esses procedimentos, o corpo poderia ser embalsamado e embarcado para o Ceará.

A Prefeitura de Fortaleza decretou luto oficial de três dias pelo falecimento de Belchior. Confira nota:

"O prefeito Roberto Claudio assinou decreto determinando luto oficial de três dias em razão do falecimento do cantor e compositor cearense Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, ocorrido na cidade de Santa Cruz, no Rio Grande do Sul.

A Prefeitura de Fortaleza também ofereceu, em contato com os familiares do músico, todo o apoio necessário para velório e sepultamento.

O prefeito Roberto Cláudio lamentou a morte de Belchior e ressaltou que "a cultura musical cearense e de todo o País, assim como outras expressões das nossas artes, perde uma das suas mais marcantes personalidades. Não há como aferir o tamanho dessa perda que, infelizmente, encerra um longo e grave período de ausência de Belchior entre nós", afirmou.

O Prefeito manifestou, ainda, "solidariedade aos parentes, amigos e fãs e a eterna gratidão por este cearense ter trazido ao mundo uma poesia transcendente em todos os seus aspectos" 

Em nota, o governador Camilo Santana decretou luto oficial de três dias no Estado e reconheceu a importância de Belchior para a música brasileira. Confira a nota na íntegra:

"Recebi com profundo pesar a notícia da morte do cantor e compositor cearense Belchior. Nascido em Sobral, foi um ícone da Música Popular Brasileira e um dos primeiros cantores nordestinos de MPB a se destacar no País, com mais de 20 discos gravados. O povo cearense enaltece sua história, agradece imensamente por tudo que fez e pelo legado que deixa para a arte do nosso Ceará. Que Deus conforte a família, amigos e fãs de Belchior. O Governo do Estado decretou luto oficial de três dias. 

Camilo Santana 

Governador do Ceará"

 

 

Relembre especial sobre os 70 anos do Belchior comemorado em 2016

O prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio também divulgou nota de pesar.

"A cultura musical cearense e de todo o País, assim como outras expressões das nossas artes, perde uma das suas mais marcantes personalidades. Não há como aferir o tamanho dessa perda que, infelizmente, encerra um longo e grave período de ausência de Belchior entre nós. É hora de nos solidarizarmos com os parentes, amigos e fãs, dentre os quais me incluo, alem de manifestarmos a nossa eterna gratidão por este cearense ter trazido ao mundo uma poesia transcendente em todos os seus aspectos.


Roberto Claudio Rodrigues Bezerra

Prefeito de Fortaleza"

Ivo Ferreira Gomes, prefeito da cidade de Sobral, terra natal de Belchior, decretou luto oficial de três dias no município. Confira nota:

"Foi com profundo pesar que recebi a notícia da morte do cantor e compositor sobralense Belchior. Desejo conforto aos seus familiares, amigos e fãs.

Acabei de decretar luto oficial de três dias no município de Sobral e informo que a Prefeitura está acompanhando todo o translado do corpo do cantor para a cidade. Em breve, informaremos os locais e horários do velório e do sepultamento.

Autor de mais de 20 discos, o sobralense  deixa seu legado artístico e cultural para o Brasil e para mundo, com composições que marcaram décadas nas vozes de grandes artistas brasileiros. O povo sobralense se orgulha do seu filho ilustre.

Ivo Ferreira Gomes "

O senador Tasso Jeireissati (PSDB-CE) foi outro que falou sobre a perda.

"Hoje, o Brasil e o Ceará amanhecem mais tristes, com a perda de um dos maiores nomes da música popular brasileira. Belchior percorreu o mundo com um violão e frases fortes para falar de realidades nunca perfeitas, trazendo, a todos nós, grandes emoções. Que Deus possa dar paz e serenidade a seus familiares e a todos aqueles que, de certa forma, tiveram suas vidas tocadas pelas palavras deste grande poeta".

Jornalista Heraldo Pereira também homenageou o artista:

"Belchior é o artista típico da minha geração. Não só pelo que eu vivi no Ceará. Ele é o artista da minha fase anterior ao Ceará. Tive meus primeiros contatos com ele ainda nos anos 70 e 80. Era um artista muito presente na minha cidade - Ribeirão Preto. Era muito presente lá. Foi por onde a musicalidade dele me chegou primeiro. Fiquei muito tocado pelas letras, pelas apresentações. Quantos show dele já vi. Jovem, tive muito contato com essa intelectualidade que o Belchior levou para a música, com letras da maior profundidade. Desde que soube da notícia da morte dele, fiquei muito tocado, porque o Belchior é um ídolo da minha geração. E mais que isso, é um ídolo ainda muito presente na minha vida. Lamento muito, muito mesmo, o falecimento dele. É uma perda muito grande pro País, para a Música Popular Brasileira, para a nossa cultura. Enfim, viva Belchior!

Heraldo Pereira, jornalista"

A Associação Cearense de Imprensa também se manifestou em nota.

"A Associação Cearense de Imprensa (ACI) expressa seu pesar pelo falecimento do cantor e compositor cearense Belchior. Suas canções constituem um legado representativo para a Música Popular Brasileira".

Secult divulga nota de pesar
" 'Talvez eu morra jovem, alguma pedra no caminho' (Belchior)
A manhã chuvosa de domingo em Fortaleza veio com a notícia da despedida de Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, nosso eternamente querido e admirado Belchior. Os cearenses, que assim como os cidadãos de todo o Brasil já enfrentavam a saudade da convivência com o grande cantor, compositor, artista visual, calígrafo, pensador, agitador cultural, bom-papo Belchior, agora se veem perplexos, consternados diante dessa triste notícia, que encerra o sonho de uma volta aos palcos do  autor de "Coração selvagem", "Como nossos pais", "Apenas um rapaz latinoamericano", "Conheço meu lugar", "Pequeno perfil de um cidadão comum", "Velha roupa colorida", "Na hora do almoço", "Não leve flores", "Brasileiramente linda", "Mucuripe" (com Raimundo Fagner), "Chão sagrado" (com Rodger Rogério) e de tantas, tão belas e contundentes canções.

Jovem que nos anos 60 trocou Sobral por Fortaleza e o cobiçado curso de Medicina por uma incerta carreira musical, Belchior integrou a geração que passaria à história como o "Pessoal do Ceará". Talvez nenhum deles  tenha encontrado tão cedo o grande objetivo do artista quanto Belchior: um discurso próprio, um projeto estético original, um encontro sem igual entre forma e conteúdo, um sotaque inconfundível, porque único, nas suas canções.

O mesmo Belchior que, contam seus parceiros de geração, não soltava o violão nas rodas em que a turma se reunia para mostrar suas novas canções desenvolveu bastante cedo sua própria forma de compor. Os acordes simples acompanhados de apurado senso melódico e lírico, as letras longas, as narrativas fortes, o olhar para os personagens do dia a dia e para as lutas que fazem a história e o mundo, o discurso direto ao coração e à mente do ouvinte, ainda que como um desafio. "Eu quero é que este canto torto feito faca corte a carne de vocês".

Com a coragem e as canções que já havia escrito na mesma Fortaleza cuja cena musical ajudava a revelar trabalhando como produtor na televisão local, Belchior seguiu o rumo do sul, da sorte, da estrada que seduz, assim como os companheiros de sonho e de som, e foi decisivo, ao vencer o Festival da TV Tupi em 1971 com "Na hora do almoço", para que muitos deles também se animassem à "diáspora". Em 1972, lançou "Mucuripe", na voz do parceiro Fagner, no disco de bolso do Pasquim, música que viria a ser gravada por Elis Regina. Por já ter gravadora, não participou diretamente do disco "Meu corpo, minha embalagem, todo gasto na viagem ", que reuniu Ednardo, Téti e Roger Rogério em 1973 e se tornou conhecido como "Pessoal do Ceará". O primeiro disco veio em 1974. Em 1975, Rodger e Téti lançam o LP "Chão Sagrado", tendo como faixa título a parceria entre Belchior e Rodger. Vem então o segundo disco próprio, em 1976, o clássico "Alucinação", que, junto a novas gravações de canções suas por Elis, consolidou-o no patamar dos grandes compositores brasileiros da então nova geração.

Além de se despedir da genialidade, do lirismo e da contundência de Belchior, de sua magistral reinvenção da canção popular brasileira, capaz de levar a todas as classes sociais temas densos e profundos, também embalados em espírito crítico, irônico, transformador, o Ceará diz adeus neste domingo a um sonho cultivado por seus cidadãos: o de ver Belchior, na hora que ele julgasse acertada, retornar a nosso Estado e, quem sabe, também aos palcos e estúdios. Com a certeza de muitas e maravilhosas coisas novas pra dizer. Além da importância de sua vasta obra musical, que merece ser cada vez mais estudada, conhecida e reconhecida para além dos grandes sucessos, ficam para sempre nos corações dos cearenses o sorriso, a verve e as canções do eterno Bel. Porque viver é melhor que sonhar.

Fabiano dos Santos Piúba
Secretário da Cultura do Estado do Ceará"

Na parede da lembrança dos advogados João Acioly, 70, e Francisco Mota Cambraia, 71, está uma fotografia, em preto e branco, com o amigo e ex-colega de seminario capuchinho Belchior, em Guaramiranga. Foi em 1964, quando o cantor atendia pela graça de frei Francisco Antônio Maria de Sobral. "No noviciado, mudavam os nossos nomes. Belchior entrou com 18 anos e já tinha feito 2 ou 3 anos de filosofia em Sobral. Depois, saiu e foi fazer medicina em Fortaleza", lembra Francisco Cambraia, na época frei Tertuliano de Senador Pompeu. Belchior, segundo Cambraia e Acioly, se destacava no coral pela voz "cheia" que estava acima do tom dos mais "meninos".

O ex-vereador João Alfredo também se pronunciou sobre a morte do cantor. Confira.

"Viver é melhor que sonhar...

A memória já claudica um pouco, mas, penso que era entre 1974 e 1976, quando eu tinha aí uns 14 a 16 anos. Havia um lugar que era meio magico pra mim: uma espécie de sótão na casa do meu tio materno Anajarino, na Dom Manuel. Lá meus primos mais velhos tinham livros, jornais e LPs (hoje chamados vinis) que me encantavam. Lá eu conheci o Pasquim, lá ouvi os primeiros discos do que já se chamava de Pessoal do Ceará, Ednardo, Tetti, Rodger, Fagner, Belchior. Ali, ouvi pela primeira vez "A Hora do Almoço", que desacomodava a família pequeno-burguesa, que "se desentendia na hora em que fala".

É dessa época também (se não me trai a memória), o Festival de Música da Tabuba (em um acampamento de praia ao lado do Icaraí), quando "Palo Seco" ("tenho 25 anos de sonho e de sangue...") me capturou definitivamente.
Ao longo desses mais de 40 anos, o "canto torto feito faca" de Belchior foi minha trilha sonora, de minha geração (de tantas gerações!), de nossos "bodes", de nossas lutas, esperanças e desesperanças.

Hoje, o Gabriel, filho de um amigo e compa de lutas socioambientais, me lembrava que eu citei "Não Leve Flores" para os que achavam que haviam nos derrotado quando expulsaram, à custa de violenta repressão, o acampamento do parque, o Ocupe o Cocó.

A geração do Gabriel é a de meu filho caçula Alex e de meus sobrinhos Zezinho e Iamê, que também fizeram, como minha filha primogênita Jana, belas e sensíveis homenagens ao grande poeta.

Hoje - disse ao Alex - todos morremos um pouco com ele, mas, não seus poemas musicados - cujos versos muitos de nós debulhamos em nossas postagens durante todo esse dia triste -, que seguem conosco, no cotidiano, nas lutas, na resistência desses tempos difíceis e estranhos.

O incrível da resistência (e resiliência) dos versos de Belchior é que eles se tornaram mais presentes ainda à medida que o poeta se recolhia cada vez mais. Belchior foi o ausente mais presente nesta última década para várias gerações de "corações selvagens".

Quantas vezes cantamos - e continuaremos a cantar - que "amar e mudar as coisas nos interessam mais"? Sempre! Porque "nossas lágrimas são fortes como um segredo" e "enquanto houver espaço, tempo e algum modo de dizer não", cantaremos!

Salve, Belchior!

Minha tristeza só não é maior que minha gratidão por esse acervo tão genial quanto atual que são suas canções.

"A voz resiste. A fala insiste: você me ouvirá. A voz resiste. A fala insiste: quem viver verá".

Resistiremos, Belchior!

Até sempre, poeta!

João Alfredo"

Clique na imagem para abrir a galeria (Foto: Arquivo)
Morre Belchior; veja fotos do cantor