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Os jovens e as buscas para acessar o ensino superior

Faltando poucos dias para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), O POVO Online conversou com seis jovens que compartilharam suas experiências sobre a busca pelo tão sonhado diploma. Confira!

19:30 | 03/11/2016
Sara lendo um livro
Sara lendo um livro

[FOTO1]Faltando poucos dias para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), milhares de jovens se inscreveram para o exame, visando ingressar em uma universidade pública. Muito desses candidatos abdicaram de lazer para se dedicar aos estudos a fim de obter uma nota suficiente para garantir o seu acesso ao Ensino Superior. E são várias razões que incentivam esses jovens a buscar cursos de graduação, dentre elas, a estabilidade financeira e atuar em uma área que se identifica.

A estudante de 21 anos, Amanda Cunha, está há mais de um ano em um cursinho pré-vestibular. Ela dedica cerca de 12 horas do seu dia para os estudos. Suas aulas têm início às 7h e termina às 13h. Após esse período, Amanda procura passar a tarde revisando ou aprofundando os seus conhecimentos nos conteúdos dados pelos professores. Todo esse investimento tem um objetivo: fazer medicina em uma universidade pública.


A sua escolha por uma instituição pública está relacionada a uma questão financeira. Em Fortaleza, a média de preço da mensalidade dos cursos de medicina gira em torno de R$ 6.000. “Eu reconheço que a universidade pública é muito boa, mas, hoje, as universidade particulares estão com um nível similar. É mais uma questão financeira”, disse em entrevista ao O POVO Online.


Além disso, com as dificuldades para conseguir uma bolsa pelo Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), cursar medicina em uma universidade particular tornou-se uma segunda opção. “Eu vou tentar, mas primeiro tenho que ter uma boa nota no Enem e depois ver se a universidade aceita o Fies para medicina. Há também outros tipos de financiamento, mas esses me disseram que a pessoa paga três vezes o valor da faculdade”, afirmou.


Mesmo com as dificuldades atuais em ingressar em uma universidade por meio do programa de financiamento estudantil, há no Brasil 1,5 milhão de pessoas fazendo cursos de graduação por meio do Fies, conforme os dados do Ministério da Educação (MEC). Só no estado do Ceará, são mais de 118 mil contratos ativos.


A estudante de Jornalismo, Camila Rodrigues, faz parte desse milhão. Ela ingressou na universidade no primeiro semestre de 2015 e conseguiu um financiamento de 100% pelo Fies no fim do semestre. Para Camila, essa oportunidade de se dedicar à academia sem se preocupar em trabalhar para pagar as mensalidades é essencial. “Eu me sinto privilegiada por ter esse tempo livre e consigo me dedicar aos estudos por não precisar trabalhar”, disse a estudante.


A futura jornalista enxerga esses programas como mais um meio para que as pessoas possam ter acesso ao nível superior já que as vagas nas universidades públicas não são suficientes para atender a todos. “Se eu fosse pagar, iria afetar muito o orçamento familiar e teria que trabalhar para pagar a faculdade”, comentou.


O Fies não é a única opção dada pelo Governo Federal para que os jovens tenham acesso ao Ensino Superior. Diferente do Fies que financia de 50% a 100% do curso para que o estudante possa pagar em várias parcelas após a formatura, o Programa Universidade Para Todos (Prouni) oferta bolsas de estudo para estudante de baixa renda e que estudaram em escolas da rede pública. Segundo o MEC, desde a sua criação em 2005, o programa tem beneficiado mais de 1,9 milhão de estudantes com bolsas de estudos integrais e parciais.

 
Bruno Renan é um exemplo. Cursa Publicidade e Propaganda e ganhou uma bolsa de 50% para estudar em uma faculdade particular. Por não ter conseguido entrar no curso em que se identifica por uma universidade pública, ele buscou outras alternativas para fazer o que gosta.

 

“Você ter essa assistência estudantil é uma maneira do governo incentivar os estudantes a ingressar na universidade e se tornar um bom profissional. Eu acho que tudo isso é proveitoso”, explicou o jovem que acredita que os programas são necessários para o desenvolvimento do País.


Independente de particular ou não, os universitários têm que arcar com gastos para se manter no curso. São apostilas, livros, refeições e passagens de ônibus que o estudante tem que desembolsar diariamente. Para quem vem do interior do Estado para estudar na Capital, esses pequenos custos pesam no fim mês já que precisam de renda para se manter também na cidade.


Sara Sousa, estudante do curso de enfermagem da Universidade Estadual do Ceará (Uece), conhece bem essa realidade. Natural do município de Russas, a 160 km de Fortaleza, veio morar na cidade em 2014 quando passou no vestibular. Ela é bolsista do Programa de Permanência Universitária (programa da Uece em que os alunos realizam atividades extracurriculares) e utiliza esse dinheiro para custear as despesas comuns de universitários.


“Essa bolsa me ajuda muito porque eu preciso me manter na universidade e o que a minha família me manda não é o suficiente. Eu vim para Fortaleza em 2014 e vim diretamente para estudar. Estudava em uma escola profissional e fazia técnica de enfermagem. Aí, decidi entrar na Uece para o curso de enfermagem”, disse ao O POVO Online.


Mas nem sempre Sara pôde contar com o dinheiro do programa. No seu primeiro ano de curso, não recebia a bolsa, tornando difícil arcar com as despesas de sua casa, que mora de aluguel, e da universidade. “Foi muito difícil porque era um gasto a mais que a minha família tinha que desembolsar”, relatou.


Apesar das dificuldades, ela enxerga a universidade como um meio de ascensão social em que poderá ter condições melhores do que a sua família pôde lhe ofertar. “Os meus pais apoiaram e desejam o meu sucesso. O meu foco é me formar e dar uma vida melhor para a minha família, principalmente para a minha mãe”, comentou.


O dia no trabalho e a noite na faculdade
[FOTO2]São diversas maneiras que os jovens buscam para ter acesso ao ensino superior. Os programas educacionais ofertados pelo Governo Federal contribuíram para facilitar o ingresso. Mas há aqueles que não conseguiram passar em uma universidade pública nem ser agraciados pelos programas por inúmeros motivos: falta de vaga, por não se enquadrarem no perfil, entre outros. O que restou a esses jovens: trabalhar.


Falando assim, parece até ser uma tarefa simples. Mas não é. São duas atividades que exigem muita dedicação. Cada uma com a sua respectiva demanda. Enquanto o trabalho requer disposição e produção, a universidade exige concentração e dedicação. Entretanto, há milhares de universitários no Brasil que se desdobram diariamente para conseguir o tão sonhado diploma.

 

Mônica Pinho, coordenadora de evento, está quase se formando em Administração de Empresa e contou ao O POVO Online que a falta de tempo para se dedicar aos estudos como deveria é o principal problema enfrentado. “Na semana, é bem complicado por conta do rendimento. Eu saio muito cedo e chego muito tarde. Então, o tempo que sobra para estudar é no fim de semana”, disse Mônica.


Ela tem uma rotina puxada. Sai de casa 7h da manhã para trabalhar em um agência de eventos e chega em casa às 23h. Para compensar a falta de tempo, Mônica procura investir em atividades que possa fazer durante o seu período na faculdade a fim de garantir maior experiência. “Eu acabei entrando na empresa júnior e essa experiência abriu mais o leque de pôr em prática do que a teoria vista em sala de aula. Lá, a gente faz consultoria para empresa e recebemos orientação dos professores”, explicou ao O POVO Online.


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O estudante de audiovisual, Elias Maia, também é exemplo dessa realidade. Diferente de Mônica que trabalha formalmente, ele vende água diariamente no sinal para pagar a mensalidade da universidade. Fazendo poucas cadeiras, Elias acredita que com muito esforço vai poder atuar na área que gosta. Nos primeiros meses, o universitário pagava a sua faculdade com o seu salário que ganhava em um posto de gasolina, mas o proprietário teve que vender o estabelecimento e demitiu todos os funcionários.

“Eu tinha entrado na faculdade por conta do trabalho no posto. Aí decidi entrar no curso porque ia me sustentar com o dinheiro que ganhava lá. Falei com a minha mãe sobre a decisão e ela concordou. Mas no fim do primeiro semestre desse ano, ele (proprietário) demitiu todos os funcionários. Aí tive que vender água”, relatou.

Filho de vendedores, Elias contou que só as suas vendas no sinal não são suficientes para arcar com todos os custos da universidade. Por esse motivo, conta com a ajuda dos seus pais. “Nesse semestre, eles chegaram para mim e disseram: 'Elias, se você não conseguir um trabalho não vamos poder ter mais condições de te ajudar mais'. Aí eu disse que mesmo se minha mãe não puder me ajudar mais, eu iria fazer pelo menos uma cadeira porque eu gosto de estar na universidade”, disse ao O POVO Online.

 

Elias já tentou ingressar em programas educacionais, mas, segundo ele, não há bolsas para o curso de audiovisual e nem conseguiu uma nota suficiente para ter o financiamento estudantil. Entretanto, a sua vontade de continuar na universidade supera qualquer dificuldade.

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