A epidemia silenciosa: o contexto de acidentes de motocicletas no Ceará
Apesar de redução de sinistros no último ano, Estado é o segundo do Brasil em mortes no trânsito envolvendo motocicletas
O crescimento acelerado da frota de motocicletas e a mudança na dinâmica da mobilidade urbana transformaram o trânsito do Ceará em um cenário de alto risco para quem depende das duas rodas.
Dados do Atlas da Violência 2025 colocam o Estado como o segundo do Brasil com mais mortes de motociclistas no trânsito (59,5%), ficando atrás apenas do Piauí (69,4%) e superando a média nacional (38,6%). No Ceará, seis a cada dez mortes em sinistros de trânsito envolvem motociclistas, um indicador que evidencia a gravidade do problema.
Sinistro de trânsito é o termo que substitui “acidente de trânsito”, adotado pela ABNT, e se refere a eventos em vias públicas ou áreas abertas ao público que causem danos materiais, lesões a pessoas ou animais, ou prejuízos ao trânsito, envolvendo ao menos um veículo em movimento.
Embora os números gerais apontem uma tendência de queda nas mortes no trânsito, a situação específica dos motociclistas segue na contramão. Entre 2013 e 2023, década analisada pelo Atlas da Violência, o total de óbitos em sinistros de trânsito no Estado caiu de 2.362 para 1.394, uma redução de quase 41%.
No mesmo período, porém, as mortes de motociclistas aumentaram: passaram de 757 para 830, o que representa um crescimento de 9,6%. O dado revela que, mesmo com avanços pontuais em segurança viária, as políticas e ações ainda não têm sido suficientes para proteger quem utiliza a motocicleta como meio de transporte, trabalho ou sustento.
Em Fortaleza, a dimensão do problema se torna ainda mais evidente. Estima-se que cerca de 380 mil motocicletas circulem diariamente na Capital, considerando condutores particulares, entregadores e trabalhadores por aplicativo, segundo o Ministério dos Transportes. A pandemia de Covid-19 intensificou esse cenário ao impulsionar serviços de entrega e ampliar o uso da moto como alternativa rápida e de baixo custo, aumentando a exposição ao risco em vias muitas vezes mal iluminadas, com sinalização precária ou infraestrutura inadequada.
Acesse o Guia do Motociclista Consciente, cartilha orientativa do Governo Federal.
Quando a estatística vira trauma
A realidade por trás dos números aparece na história de Jamilly Nogueira, 26 anos. O primeiro sinistro aconteceu em 2023, durante o Carnaval. “Eu vinha na minha mão, normalmente. Ia fazer uma conversão à esquerda e um cara em um carro foi me ultrapassar. Quando eu virei à esquerda, ele acabou batendo em cheio em mim”, relembra.
Com o impacto, Jamilly foi arremessada contra o veículo e caiu no chão. “Eu não consegui me levantar do chão porque acabei fraturando o ossinho que fica no final da coluna, que a gente chama sacro”. O motorista, segundo ela, estava bastante embriagado. Ela precisou de atendimento médico imediato e ficou em repouso por 30 dias devido à fratura.
Meses depois, já em 2025, um novo sinistro reforçou o trauma. “Eu vinha na BR 116 e um carro precisou parar, freou bruscamente e eu vinha na traseira dele, eu não consegui frear totalmente a moto”, quando bateu na traseira para a lateral direita do carro, relata. Apesar de ferimentos externos leves, Jamilly sofreu uma lesão no rim esquerdo e precisou ficar internada por três dias. A experiência foi decisiva: depois desse episódio, ela vendeu a moto e não anda mais, nem mesmo como passageira.
Fiscalização reduz mortes, mas não muda o cenário estrutural
Resultados pontuais mostram que a fiscalização tem efeito direto na redução da violência viária. Durante o feriado de Natal de 2025, o Batalhão de Polícia de Trânsito Urbano e Rodoviário Estadual (BPRE) registrou queda de 75% no número de mortes em relação ao mesmo período de 2024 (passou de 4 para uma morte em 2025), além da redução no total de sinistros (de 19 para 10) e de vítimas feridas (de 11 para 6).
O balanço aponta que os resultados foram alcançados após o reforço das ações preventivas e fiscalizatórias. Durante o Natal de 2025, foram realizadas 6.022 abordagens a veículos, contra 7.818 no mesmo período de 2024, além de queda de 24% no número de notificações de trânsito, que passaram de 1.857 para 1.412 registros.
No plano nacional, a redução de recursos destinados à segurança viária agrava o cenário. Cortes em investimentos, a queda no financiamento do Fundo Nacional de Segurança e Educação de Trânsito (Funset) e o fim do DPVAT enfraqueceram ações de prevenção e educação.
Além de indenizar vítimas, o seguro tinha papel fundamental no financiamento do SUS, que hoje absorve os custos do atendimento às vítimas de sinistros sem essa fonte complementar de recursos.
Especialistas alertam que operações concentradas não são suficientes para reverter um problema estrutural. O diretor de educação para o trânsito do Detran-CE, Jorge Trindade, explica que um dos maiores fatores para os sinistros é o excesso de velocidade. “A consequência do excesso de velocidade é a morte no trânsito ou lesões graves e sequelas”, afirma, destacando os efeitos em cadeia provocados pelos sinistros.
“As mortes no trânsito, por si só, já representam consequências trágicas para as famílias. Além disso, (os sinistros no trânsito causam) um impacto significativo no sistema de saúde. Um exemplo é o IJF, hospital de referência em traumatologia no Estado, cujos leitos acabam ficando sobrecarregados, atendendo quase que exclusivamente vítimas de sinistros de trânsito, sobretudo aqueles envolvendo motocicletas, causando um impacto muito grande na saúde pública e também no sistema previdenciário do País como um todo, não apenas no Ceará”, explica.
Número de óbitos envolvendo sinistros com motocicletas no Ceará
2013: 757
2014: 784
2015: 828
2016: 709
2017: 774
2018: 787
2019: 683
2020: 620
2021: 640
2022: 820
2023: 830
Variação percentual
2013 a 2023: +9,6%
2022 a 2023: +1,2%
2018 a 2023: +6,1%