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Juventus dá calotes e ex-diretor comprova autenticidade de gravações

Fundado em 1924, o tradicional clube do Juventus, da Mooca, está mergulhado em uma crise política ainda sem precedentes. Após a Gazeta Esportiva revelar com exclusividade áudios gravados de reuniões com a cúpula diretiva do clube que apontam uma tentativa do presidente Domingos Sanches e do vice Saulo Moisés Franciscon de mascarar prejuízos ao Conselho [?]

10:15 | 01/03/2018

Fundado em 1924, o tradicional clube do Juventus, da Mooca, está mergulhado em uma crise política ainda sem precedentes. Após a Gazeta Esportiva revelar com exclusividade áudios gravados de reuniões com a cúpula diretiva do clube que apontam uma tentativa do presidente Domingos Sanches e do vice Saulo Moisés Franciscon de mascarar prejuízos ao Conselho Deliberativo, os membros do órgão fiscalizador juventino resolveram dar início a um inédito processo de impeachment dos atuais gestores eleitos em maio de 2016 e com mandato previsto até 2019. No próximo dia 12 de março, uma reunião extraordinária votará, após ouvir acusação e defesa, se o impedimento prossegue ou não.

Em meio a toda essa turbulência, uma verdadeira guerra se instaurou entre os atuais gestores e o ex-diretor de marketing, Adriano Daré, responsável pelas gravações e exonerado do cargo em novembro do ano passado. Agora, Daré sequer pode pisar dentro do clube. Não bastasse a representação judicial registrada contra sua pessoa, no último dia 20, Domingos Sanches o suspendeu de forma preventiva por 90 dias com a justificativa de que nesse período a Comissão de Sindicância analisaria todo o caso.

O ex-diretor de marketing, que sócio do clube, é obrigado a respeitar a determinação. Entretanto, Daré buscou se defender da acusação de ter editado os áudios. Por meio de um laudo assinado pelo perito Adrian Ramos após análise das gravações, a conclusão técnica foi de que os arquivos não sofreram cortes, colagem, inserção ou alteração, eliminando assim a possibilidade de montagem.

A Gazeta Esportiva teve acesso ao laudo referido e a conteúdos de documentos e e-mails pertinentes aos eventos que causaram prejuízo e se tornaram foco das discussões reveladas pelos arquivos sonoros.

?Eu acho que a estratégia da atual diretoria executiva, por eu ter tantos documentos que provam que tudo que eles falaram é mentira e tudo que eu falei é verdade, talvez eles me proibiram de entrar (no clube) até para eu não fazer o corpo a corpo, o que eu jamais faria?, aponta Adriano Daré, em contato com a reportagem.

?Eles falam o que eles querem. Eles me acusaram sobre eu ter sumido com um computador, o que é a coisa mais insana do planeta. Eu ainda tenho propriedades lá dentro que valem muito mais que um computador usado. Eles não têm a menor noção. Falaram que fizeram um B.O (Boletim de Ocorrência) de furto, o que também foi mentira. Eles se enrolam na mentira?, completa.

Daré também aproveita para externar que vem sofrendo com acusações de ter sido o responsável pelo vazamento do áudio.

?Independente do vazamento do áudio, que não foi bom para nenhuma das partes, eu lhe garanto que é legítimo. E as pessoas se apegam no áudio em se ele é ou não legítimo. E nada verdade as pessoas deviam se atentar com o conteúdo de cada parte daqueles áudios?, avalia.

?Eu tenho esses áudios desde outubro, sempre ficaram comigo, guardado. Não era meu interesse esses áudios vazarem, até para não ferir o clube. O que eu fiz apenas foi pedir uma ajuda ao Conselho. Eu tive que passar esses áudios para o Conselho para eles poderem analisar. Só que a gente não tem o poder de saber quem fez isso (vazou), mas, enfim, agora que já aconteceu e com o laudo de perícia dando que ele é autêntico, a gente toma outras atitudes?, explica, antes de concluir.

?Eu pedi para se fazer a perícia criminal. Eu posso usar isso em juízo, assinado por um perito. Estou indo atrás da verdade, porque eu sofri acusações e diante das acusações eu estou me defendendo. Até agora eu estava quieto?.

Sergio Liberatore e Vagner Duenas Valenzuela, ex-diretores dos departamentos comercial e informática, respectivamente, pediram renúncia de vossas atribuições depois dos acontecimentos.

Calotes

Só em notas fiscais datadas entre agosto e outubro de 2017, o Juventus deve R$ 23.200,00 em comissões a Adriano Daré. E apesar do mandatário Domingos Sanches sustentar a tese de que os eventos Bacon Day e Uma Noite Perfeita, ambos realizados na sede social do Juventus em setembro de 2017, foram promovidos por Adriano Daré apenas em parceria com o clube, as notas fiscais de algumas das atrações das festividades confirmam que todas as tratativas foram constituídas diretamente com o Juventus, e não em particular com o diretor afastado.

A Banda São Paulo Show, por exemplo, contratada para se apresentar na Noite Italiana, evento este realizado em agosto, e também para abrir o show de Henrique e Diego no evento Uma Noite Perfeita, além de cuidar de iluminação e telões, sofreu um calote de R$ 17 mil.

?Não recebi o baile de agosto, a Noite Italiana. Dei nota fiscal, não recebi nada, nem um real. Depois fiz Dayane e Michell e também não me pagaram. Tudo ficou ruim depois que um tal de Fábio entrou no meio lá?, reclama João Luiz de Souza, dono da Banda São Paulo Show, se referindo a Fábio Esteves, amigo da família do presidente Domingos Sanches e que repentinamente foi inserido no clube para assumir as operações de bar dos tais eventos, além de receber aval para representar o Juventus em novas negociações.

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?Eu já fui no clube. Eles simplesmente falam que não têm dinheiro. Já falei com o Daré. Se o Daré estivesse lá eu tinha recebido. Entrou esse Fábio, que me cortou, e eu me ferrei?, explica João, claramente preocupado com a situação delicada em que se encontra nesse momento.

?Eu não posso brigar na justiça, porque dia 7 de abril faço formatura lá. O evento não é do Juventus, mas a festa vai ser no salão deles. Se eles falarem ?a São Paulo Show não entra?, eu perco o baile. Não posso brigar, não posso pôr na justiça, mas quebrou as minhas pernas?.

As reclamações de João não param por aí. ?Eles me prometeram que iriam me dar o Carnaval, mas contrataram uma banda amiga minha. Me deixaram de fora e ainda pagaram antecipado R$ 90 mil para a banda que fez o Carnaval lá. E para mim não pagam?.

Outro que se diz lesado e também acusa o Juventus de calote é Giuliano Guedes, detentor da marca Bacon Day no Brasil. Giuliano refuta ter feito acordos com Adriano Daré e garante que tudo foi acertado com o clube da Mooca.

?Tudo foi feito com o Juventus. Se o Daré trabalha lá, eu não sei, mas tudo foi acertado com Juventus?, diz. ?Falei com tanta gente lá, cheguei a conversar com o vice (Saulo Moisés Franciscon), alguns diretores. Mas eu não fechei nada com o Daré, fechei com o Juventus?, reitera.

Segundo Giuliano Guedes, o acordo previa que ele seria responsável por 60%, enquanto o clube ficaria com 40%, fosse de lucro ou prejuízo do evento Bacon Day. ?Eles não honraram com a parte deles no prejuízo. O que faltou nessa história toda foi o Juventus arcar com a parte dele do prejuízo?, explica, para em seguida revelar o problema que isso tem lhe causado.

?Eu recebi uma cobrança da Rádio 89 FM, seria de um anúncio. Nunca assinei nada, mas eu fui saber o valor quando já estava veiculado lá?, conta o empresário, que agora está com o nome protestado por causa de R$ 14 mil. ?Eu vou ter que gastar com advogado, esperar e meu nome fica protestado. Só depois disso eu posso acionar alguém?, esbraveja.

Há uma questão importante nesse imbróglio que é o fato de Giuliano Guedes não ter efetivamente assinado o contrato com o Juventus. Todas as tratativas foram lideradas por Alexandre William Leal, da Wap Produções, representante de Giuliano em São Paulo. ?Eu não assinei (o contrato). Se ele assinou, assinou sem a minha autorização?, afirma o detentor da marca Bacon Day no Brasil.

A reportagem entrou em contato com Alexandre, que preferiu não se manifestar. O fato, no entanto, é que realmente Alexandre foi o responsável pela concretização do acordo com o Juventus.

O outro lado

À época, quem costurava os contratos, fazia os contatos, solicitava dados para emissão das notas fiscais e negociava até permutas com as empresas era Silvia Cristina Nogueira, coordenadora de eventos do clube. Cerca de dois meses antes dos shows de setembro, Silvia chegou a trocar e-mails para tentar concluir uma planilha de custos e ganhos, com previsão de lucro. Apesar dos documentos colhidos pela reportagem apresentarem Silvia como representante do Juventus nas tratativas, a funcionária se defende.

?Eu sou responsável pelo departamento, mas acima de mim ficava o diretor. Eu sou coordenadora de eventos, o Daré fazia o marketing e coordenava eventos. Estávamos sem diretor de eventos?, conta, sustentando a tese de que os prejuízos de mais de R$ 200 mil foram causados em função de projeções equivocadas do ex-diretor de marketing.

?O Daré apresentou todo o projeto dos eventos, assim como todos os parceiros, quem iria tocar o evento, desde estrutura de som e luz, até bebida e alimentação. Ele trouxe a Jéssica (representante no caso pela empresa JS3 Assessoria), ela que fazia as planilhas, tanto de custos quanto de ganho. Como eu sou da área de eventos, eu tinha um pouco de noção e contestava ele sobre valores, mas ele fazia do jeito dele?.

Silvia não nega que esteve à frente de muitos acordos, entretanto, a coordenadora de eventos alega má fé de Adriano Daré.

?Existe uma diferença entre sair em nome do Juventus (as notas fiscais) e (a empresa) ser contratada pelo Juventus. Em todo momento, a responsabilidade era do Daré. Ele que fechava os acordos, ele que fazia a análise para proposta, isso sem comunicar tanto a mim quanto ao presidente?, revela, antes de admitir que mesmo diante desta versão dos fatos o Juventus é quem pode ter sérios problemas na justiça, caso não arque com os compromissos que estão documentados e assinados. Inclusive, o pagamento de R$ 100 mil à banda sertaneja Henrique e Diego foi feito pessoalmente pelo vice-presidente Saulo Moisés Franciscon, por meio de sua empresa, com a esperança de que o lucro no evento seria suficiente para lhe ressarcir.

?Infelizmente, ele (Daré) acabou fazendo todo mundo acreditar que daria certo. O que foi feito foi uma quebra da planilha, e foram pagos vários fornecedores. Os que eram do Daré, assim como a dívida que ele tem com o Saulo (vice-presidente), não foram pagos?, afirma Silvia, que se fazia presente na maior parte das reuniões entre os gestores e os departamentos de eventos e marketing.

?Você está falando com um advogado (presidente Domingos Sanches) e com um administrador (vice-presidente Saulo Moisés Franciscon). Eles não entendem de eventos, não sabem como funciona, não têm noção do que é promover um evento. Infelizmente, eles acabaram sendo ingênuos em acreditar nele (Daré)?, justifica.

Silvia Cristina, juventina associada desde os três anos de idade e funcionária do clube em diferentes momentos e administrações, acusa o ex-diretor de marketing e o empresário Alexandre William Leal, da Wap Produções e representante do Bacon Day em São Paulo na ocasião, de terem comprometido o futuro do clube da Mooca.

?O Giu (Giuliano Guedes, detentor da marca Bacon Day no Brasil) deu, sim, R$ 15 mil para os contratados, para as empresas, estrutura, palco e luz escolhidas pelo Alexandre e pelo Daré, e o controle de bilheteria em nome da Wap?, conta, confirmando que o contrato para a realização do Bacon Day não foi assinado por Giuliano.

?O Alexandre assinou?, garante, antes de externar sua chateação. ?Tanto o Daré quanto o Alexandre tentaram se aproveitar. Todo mundo chega no Juventus achando que ali tem uma mina de dinheiro. Essa não é uma realidade. Se a gente vê problemas no Corinthians, no Palmeiras, no São Paulo, imagina o que se passa no Juventus?, pondera.

?Eles estão atingindo um clube tão tradicional, estão atingindo uma instituição, 300 e poucos funcionários que dependem daquilo para viver. Eu fico triste não pelo doutor Sanches e pelo Saulo, que não precisam daquilo ali, nem por mim, mas eles estão acabando com o nome de um dos clubes mais tradicionais de São Paulo, que vive hoje uma situação deficitária?.

Com o processo de impeachment em andamento e a votação no Conselho Deliberativo marcada para o dia 12 de março, Silvia Cristina sabe do momento difícil que vive a política do Juventus e se mostra ressabiada.

?A minha única preocupação não é do Sanches sair, porque ele sobrevive a isso. As pessoas passam, o Juventus fica. Me preocupa na mão de quem o clube vai ficar?, conclui.

 

Gazeta Esportiva

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