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Futebol
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Escolinhas de clubes de fora abocanham fatia do mercado cearense

Brenno Rebouças
08:46 | 30/07/2017
Atleta da escolinha do Internacional disputa bola com atleta da escolinha do Fluminense (Foto: )
Atleta da escolinha do Internacional disputa bola com atleta da escolinha do Fluminense (Foto: )

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Não há agenda atribulada ou cansaço pós-expediente que impeça muitos pais e mães de levarem (ou incentivarem) os filhos para treinar futebol. O prazer de ver a criança batendo bola, que acaba alimentando o sonho de ambos sobre ser atleta, é redobrado se a camisa vestida na escolinha for a do clube do coração.

E, no Ceará, hoje, elas não se resumem aos três maiores clubes da Capital. Levantamento feito pelo O POVO constatou que pelo menos oito times brasileiros de outros estados têm representações em escolinhas de futebol em Fortaleza, na Região Metropolitana e no Cariri. Cada uma dessas marcas se divide em mais de uma sede. Juntas, elas ficam com boa fatia do mercado cearense.

Como franquias, convênios ou projetos, agremiações do Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Paraná e da Bahia se fazem opção. Com escudos famosos, quase todos disputando a divisão de elite do Campeonato Brasileiro, apresentam brilho mais atrativo. Um exemplo desses negócios é o Genoma Colorado, do Internacional, presente em Fortaleza há sete anos. Monitorado pelas categorias de base do clube gaúcho, possui quatro núcleos na Capital e cerca de 250 garotos inscritos.

O rival, Grêmio, também está presente por aqui, mas em convênio com o Futcenter. Com duas sedes, uma em Fortaleza e outra no Eusébio, tem 630 matriculados ao todo, com faixa etária de 5 a 17 anos.

“Todo ano vem um observador para cá e leva alguém. Já teve ano que foram 15 selecionados”, conta Vitor Costa, diretor do Genoma Colorado. Já o tricolor gaúcho também explora o lado social. “Temos um trabalho que capta meninos de escolas públicas e integra à escolinha (de futebol) sem mensalidade”, explica Hudson Ferreira, coordenador técnico do FutCenter/Grêmio.

Os cariocas Flamengo e Fluminense também fazem sucesso com a garotada e com os pais cearenses. Juntos, já possuem cinco sedes em Fortaleza. O Rubro-Negro conta com mais uma no Cariri. A franquia Guarreirinhos tem cerca de 130 alunos; a Escola do Fla ultrapassa 200. “Os clubes locais não preparam atletas para o profissional. Os subs jogam de forma diferente. No Fluminense, todas as escolinhas trabalham numa mesma filosofia”, valoriza José Neto Maia, observador técnico do tricolor carioca.

Vitória e Atlético-PR também estão presentes na Capital. Este último também está em Barbalha. Em Juazeiro do Norte, há representações do Cruzeiro e do Vasco.

A chegada de clubes internacionais também não deve demorar, haja vista as clínicas para crianças que Real Madrid e Paris Saint-Germain (PSG) realizaram em Fortaleza no fim do ano passado. Em fevereiro, inclusive, foi confirmada pelo secretário da Casa Civil, Nelson Martins, uma parceria entre o Centro de Formação Olímpica (CFO) e a escolinha do PSG, não concretizada até o momento. A Secretaria do Esporte afirma, no entanto, que o convênio segue em estudo. O Milan também teria interesse em se instalar por aqui. “Recebi convite do clube, que quer vir como projeto e como escolinha. Em questão de 60 dias deve ser anunciado”, revelou José Neto, que trabalha para o Fluminense.

A invasão de escolinhas de clubes de fora em Fortaleza pode ser vista sob dois ângulos, segundo o especialista em marketing esportivo Evandro Ferreira Gomes: “Em termos de mercado, vejo de forma positiva. Elas têm um padrão pré-estabelecido e replicado em vários estados. Isso tudo dá respaldo a um valor agregado. A ameaça é se valorizar cada vez mais o que é de fora”.

Ele também critica a forma como os times locais tratam suas escolinhas. “Esse modelo convencional, de um ex-jogador como treinador, de um gramado ruim, no horário antes do profissional, está exaurido”. O especialista aponta que a maior fatia deste mercado é de classe média e que a escolha tende a ser por quem tem reputação melhor. E dá dica aos clubes cearenses: “É uma exploração da própria marca, mercados em que o clube fisicamente não está presente, mas sem aquela preocupação de penhorar jogador para a base”.

 

Ceará e Fortaleza dizem não sentir ameaça

 

Donos das maiores torcidas do Estado, o que dá a ambos um grande potencial de mercado, Fortaleza e Ceará não se sentem ameaçados pela presença das escolinhas de clubes de fora por aqui. O argumento principal dos dois recai sobre a força das camisas em território alencarino.

“A concorrência é boa, é viável. Fortaleza tem um nome muito forte, então a gente não se preocupa muito isso”, analisa o coordenador técnico de base do Fortaleza, Daniel Frasson. Na escolinha do Leão, que funciona no Centro de Treinamento Ribamar Bezerra somente aos fins de semana, são cerca de 150 alunos. “A gente não pode extrapolar. Às vezes chega a 200, 250, mas não adianta querer trabalhar com 300 e não fazer um trabalho com qualidade”, justifica Frasson.

A Fábrica de Craques, escolinha do Ceará, tem números maiores para defender que não foi afetada pela concorrência forasteira. São cerca de 700 alunos, segundo o coordenador Jocélio Alves. Para ele, a visibilidade que os clubes nordestinos ganharam na mídia nos últimos anos contribuiu para reforçar os laços entre torcida e times locais. “Quando era pequeno, não via jogos do Ceará na televisão, via campeonato do Rio de Janeiro e São Paulo. Isso criou a cultura dos garotos daqui torcerem para times de fora. Só que isso mudou: hoje se vê mais garotos com camisas de Ceará e Fortaleza que de clubes de outros estados”.

O especialista em marketing esportivo Evandro Ferreira Gomes analisa que o fato de Fortaleza e Ceará ainda não terem franquias resulta em um respaldo menor e aponta uma mina inexplorada por ambos. “No interior do Estado eles teriam uma penetração maravilhosa, é um mercado ainda ascendente. Certamente é um lugar onde as franquias nacionais demorariam mais a chegar. Agora tem que ter metodologia de trabalho, padronização, questão pedagógica”, afirma.

Outro especialista em marketing esportivo, Chateaubriand Arraes Filho, cita ainda um problema geográfico. “Os nossos clubes não estão em centros da Cidade, fica muito bairrista. Os times têm que sair da zona de conforto e procurar outras regiões dentro da Capital”.

Neste cenário, Ceará e Fortaleza já preparam uma expansão. “Temos planos de até o final do ano começar a ter franquias no Interior”, anuncia Jocélio Alves, do Ceará. Já Daniel Frasson, do Fortaleza, diz que existe “a ideia de abrir alguns núcleos em cidades vizinhas e no Interior”.

 

Na Capital, os preços das escolinhas de clubes de outros estados vão de R$ 95 a R$ 130. O Fortaleza cobra R$ 70; o Ceará, de R$ 85 a 105

 

Escolinhas de futebol são forma de captação de atletas

 

[FOTO2] Além do lado financeiro, as escolinhas de futebol, também têm a função de captação de novos talentos. Nos times locais, quando um garoto se destaca e demonstra potencial, passa a integrar as categorias de base e deixa de pagar mensalidade. Nas franquias de agremiações de fora, fazem testes e podem ir morar no estado de origem do clube.

Há casos de sucesso nos dois lados. O atacante Maxuell, que hoje defende o CSA-AL, por exemplo, foi revelado na escolinha do Ferroviário. Como o Tubarão utiliza os mesmos profissionais da base para as escolinhas, em poucos treinos o “Samurai” chamou atenção.

“Dois treinos, um de fundamento e o outro, um coletivo. Fiz três gols e o Roberto Cearense (então técnico) me chamou pro Sub-15”, conta. Maxuell acredita que um time do próprio estado tende a dar mais oportunidade ao aprendiz.

Já Arthur Bastos, de 13 anos, hoje mora no Rio Grande do Sul e integra a base do Grêmio. Ele foi selecionado por olheiros do clube na escolinha do tricolor gaúcho em Fortaleza, da qual ele é aluno desde os três anos de idade. O pai dele, Atualpa Pinheiro, foi quem escolheu onde o filho aprenderia futebol e hoje diz ter a certeza que acertou.

“Escolhi pela organização, pela metodologia que eles utilizam, que vai de acordo com a idade. Gostei dessa característica”, explicou.

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