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Organização na rotina, engajamento e internet: pesquisa mostra principais desafios do sistema EAD

Mesmo com internet, estudo aponta que muitos alunos não se sentem engajados em responder às atividades escolares

Júlia Duarte
16:12 | 21/10/2020
Estudante de ensino a distância acessando o computador. Ensino à distância - EAD.  (Foto: JÚLIO CAESAR)
Estudante de ensino a distância acessando o computador. Ensino à distância - EAD. (Foto: JÚLIO CAESAR)

A educação foi um dos setores que mais foi afetado pela pandemia de Covid-19. Com as escolas fechadas, professores, alunos e pais precisaram se adaptar a uma nova rotina com a educação a distância (EAD). O sistema, com alguns meses de funcionamento, entretanto, ainda esbarra em empecilhos, não só técnicos, como emocionais. Falta de organização na rotina, a sensação de muito conteúdo e o engajamento dos alunos foram alguns dos motivos apontados pelos próprios estudantes na jornada de escutar de casa.

É o que aponta o levantamento da Associação Brasileira de Educação a Distância (Abed). Foram mais de 5 mil estudantes, professores, pais e/ou responsáveis e dirigentes de instituições de ensino públicas e privadas do País, com apuração entre 24 de agosto e 15 de setembro, respondendo sobre como tem funcionado a realidade do EAD. Na pesquisa, tiveram representantes educação infantil, ensino fundamental e ensino médio, das redes públicas e privadas.

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O levantamento apresenta alguns dados já esperados como: abandono escolar, migração de estudantes de escolas privadas para escolas públicas, abalo emocional de professores, familiares e estudantes e prejuízo às aprendizagens. O diretor da Abed e coordenador da pesquisa, George Bento, ressalta que o fator econômico agiu de forma "indecente" na educação. “ Mais da metade das famílias foram impactadas financeiramente. Ou perderam o emprego ou perderam parte da renda, as pessoas não puderam mais pagar. O segundo ponto é que alguns pais pensaram ‘se é ensino remoto, qualquer um é qualquer um, eu tiro o aluno [da escola particular] e depois coloco de novo”, explica ele.

Além das mudanças em casa, do ponto de vista do estudante, o ensino EAD tem esbarrado em alguns outros pontos. 67,07% contam da dificuldade em estabelecer e organizar a rotina diária, seguido de 58,32% que acreditam que as escolas mandam muitos materiais e por isso não puderam dar conta. Em terceiro lugar, os entrevistados relatam as dificuldades em conexão com a internet por causa do sinal de operadoras  (29,94%).

Quanto aos dispositivos eletrônicos, a maioria (91,95%) afirmou ter o aparelho, com mais de 74% pontuando que o uso é pessoal. Ou seja, o aluno tem o aparelho exclusivamente para seu uso. Entretanto, o percentual de alunos com acesso ilimitado à internet cai: 63,53% responderam ter banda larga ilimitada e 25,80% utilizam de terceiros. “Muitos precisam do Wi-fi da escola ou não tem um plano de internet de dados que aguente assistir as aulas”, explica o coordenador da pesquisa.

Entretanto, ele ressalta outro ponto do estudo: muitos alunos, mesmo com o acesso à internet, não acompanharam as atividades ou, pelo menos, não tem absorvido os conhecimento. 60,50% afirmam terem participado de quase todas as atividades do gênero em sua escola, enquanto 35,4% acompanharam poucas. Porém, 72,61% consideram que o acompanhamento piorou se comparada às aulas presenciais.

“Para além da internet, nosso principal problema é o engajamento. E esse problema não é só da pandemia, é permanente. Ainda que tenham a aula, os alunos não estão engajados, eles estão ali na sala, mas não estão engajados. Talvez esse seja um dos legados da pandemia, é pensar não só em dar a internet ou o acesso à escola, é você trazê-los”, afirma o diretor. A questão é o aluno estar na sala digital, na chamada online, mas não realmente participar e ou absorver. Nesse ambiente digital da educação, o esforço tem impactado também os professores, 52,52% dizem se sentir um pouco abatidos, tristes e desanimados nesse período, enquanto 34,80% afirmam se sentirem normal.

A estudante Ana Flávia Simões, 16, conta que levou tempo para que ela e os amigos se adaptassem à nova rotina. "No início fiquei um pouco preocupada de como iria conciliar tudo e de como minha escola iria fazer com as provas, simulados, trabalhos. Agora a gente está até acostumado", conta. Ela afirma que o período afetou sua saúde mental e que passou por episódios de crises de ansiedade por achar que não se sairia bem, além de estar sentindo um cansaço pela carga de atividades em um período de tempo mais curto. Não só pra ela, seus colegas tem tido dificuldade em participar. "Tenho notado que alguns alunos se afastaram das aulas e não fazem as atividades. Acho que por não ter a 'obrigação' de ir à aula e entregar as atividades. Também por não se sentirem motivados", ressalta.

A aluna conta que sua turma tem 26 estudantes, mas apenas entre 10 a 14, em média, tem assistido às aulas. Como também representante de turma, ela costuma ver que alguns ou não entregam ou entregam trabalhos com atraso, mesmo com o apoio dos professores. Segundo George Beto, essa nova geração de estudantes precisa se sentir convidado e parte da educação para conseguir se conectar com o aprendizado. “Eles pensam diferente, só fazem as coisas quando estão engajados, quando conseguem ver um motivo. Diferente de outros tempos, em que se tinha que a escola era obrigatório”, ressalta.

E adaptar à realidade foi o que professores mais desempenharam no contato com os alunos. Quando questionados sobre o seu papel, 94,83% dos educadores apontaram que era interagir virtualmente com os estudantes a fim de manter o processo de ensino e aprendizagem. Para isso, segundo a pesquisa, as instituições de ensino em que lecionam, em sua maioria (94,89%) adotaram atividades remotas emergenciais, com novas tecnologias. 61,98% das escolas que adotaram Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) e também outras formas de dispersar informações como Whatsapp (87,77%), Google Meet (75,10%), e-mail (45,02%), Zoom (27,81%) e Instagram (21,35%).

Sobre a Abed

A Associação Brasileira de Educação a Distância (Abed) é uma sociedade científica sem fins lucrativos, religioso ou político partidário, não tem caráter sindical ou classista ou governamental. Foi criada em 1995 por um grupo de educadores especialistas em educação mediada por tecnologias, com o objetivo de mostrar que educação a distância é viável sob diversos pontos de vistas – acadêmico, pedagógico, econômico e legal. Atualmente, a associação conta com mais de 17 mil membros, entre professores, pesquisadores, profissionais das áreas de educação e corporativa e instituições de ensino.