PUBLICIDADE
NOTÍCIA

Festas e aplicativos promovem encontros sexuais virtuais durante isolamento social

As plataformas convidam para uma aventura na própria sexualidade e incentivam uma quebra na rotina

Júlia Duarte
14:19 | 23/07/2020
As relações sociais mudaram durante a pandemia, inclusive, quando se fala em sexo virtual (Foto: Arquivo)
As relações sociais mudaram durante a pandemia, inclusive, quando se fala em sexo virtual (Foto: Arquivo)

A nova realidade de distanciamento social provocou mudanças em diversas dinâmicas sociais, e o sexo não ficou de fora. Se, durante o dia, as salas de videoconferência dos aplicativos reúnem pessoas em reuniões de trabalho ou estudos, à noite, os mesmos ambientes são usados para festas sensuais ou em práticas sexuais em grupo. O que ocorria na vida analógica só mudou de espaço, mas funciona do mesmo formato: promover a sensualidade e apimentar a vida comum, seja sozinho ou em casal.

Com uma seleção de DJs e artistas em palcos virtuais, as festas on-line têm reunindo um público considerável, mesmo diante do tabu envolvendo sair do tradicional. A @sentomesmo, uma dos perfis que organizam os encontros, marca mais de 24 mil seguidores em redes sociais. A @festadando, outra do segmento, tem 13,2 mil. Existe uma variedade: a @welcometohole, a @festa.lust e a @cometo.horny e  outras. 

Para quem não quer investir nas festas “oficiais”, há quem organize sua própria reunião com as transmissões ao vivo de redes sociais. É o caso do Sexlog. “Nosso propósito é oferecer um ambiente seguro e livre de julgamentos para que as pessoas vivam a sua sexualidade de forma plena”, se descreve a empresa. São mais 13 milhões pessoas cadastradas e 2 milhões de lives transmitidas. Na rede, os interesses são muitos". Sexo, swing, encontros, fetiches, fantasias, festas liberais, livecam e o que mais a sua imaginação mandar”, exemplifica.

Com o interesse, participar está na distância de um clique. Sem sair casa, tudo pela telinha. Na rede social, basta um cadastro. Já nas festas virtuais, assim como as presenciais que aconteciam no período
pré-pandemia, ficam disponíveis, próximo às datas dos eventos, links que direcionam para a inscrição e o pagamento. Geralmente, a plataforma de compra de ingressos ,é a Sympla. Algumas são gratuitas, mas contam com a “solidariedade” de uma doação que varia de R$ 5 a R$ 100, já outras são pagas e vendem até produtos como camisetas.

Privacidade e consentimento

Tem aquelas pessoas que vão só pra dançar, há quem veja apenas as apresentações de artistas, tem gente sem roupa -ou em provantes- e há ainda o voyerismo (ato de ver pessoas sentindo prazer). E, importante frisar: tudo com consentimento. Se, por um lado, os eventos pregam a liberdade sexual, por outro, usam das mesmas estratégias para garantir que ninguém se sinta violado.

Há regras e procedimentos para proteger algo que muitos exigem: privacidade. Não é permitido gravar, fotografar ou filmar a tela. Embora trajes sensuais, em alguns casos, sejam a “pedida”, segundo os organizadores, não é obrigatório. Nomes falsos ou “nicknames”, como são chamados apelidos nas redes, podem ser usados. “Sinta-se livre, para, na retirada do ingresso, usar um pseudônimo que quiser para preservar a sua identidade”, explica a Sento.

“O mais importante é que cada um tenha liberdade de escolha em relação a como se divertir, desde que nenhuma prática interfira na liberdade do outro”, exige a Sexlog. Além de só organizar, as plataformas usam seus espaços para conversar sobre educação sexual, sexualidade, auto prazer e o principal consentimento. Algumas em um tom descontraído e outras com vídeos e podcasts, mas, no geral, todos constroem um ambiente de liberdade sexual.

Relações virtuais

Pensar ou gostar de ver outras pessoas em contextos sensuais é algo que muitos têm como fetiche. Segundo a sexóloga e ginecologista Rayanne Pinheiro, esse tipo de relação está entre o top 5 das fantasias mais citadas por homens e por mulheres. Sentir, falar e fazer são atos com pesos diferentes, por questões de gênero. Homens, segundo ela, falam mais sobre o assunto e costumam propor mais a realização. " As mulheres, muitas vezes, têm essas fantasias, mas elas têm muito mais dificuldade de expressar isso ativamente, de falar e de compartilhar mesmo de forma imaginária, por uma questão de castração e opressão social de uma sociedade machista", explica ela.

Outro ponto que ela ressalta é que os próprios homens, mesmo com maior liberdade, se podam, por diversas razões. Existe uma dificuldade de erotizar, mesmo em pensamento, esse tipo de relação com mais pessoas com a parceira, porque há a crianção de uma imagem mais "pura", meio maternal, analisa Pinheiro.

Consentimento e cuidado com a imagem são dois pilares das relações virtuais. "Se o comportamento de se envolver em relações com sexo virtual, pornografia, streming de conteúdo erótico, se tudo isso foi feito de forma moderada, consentida e equilibrada, eu só vejo vantagem", afirma a sexóloga.

O alerta que ela faz é quando se torna algo compulsivo e começa a atrapalhar a rotina, se tornando uma patologia. Além disso, ela ressalta que, como está sendo feito de modo virtual, é preciso ter atenção com tipo de material e para quem vai ser transmitido. " Nós sabemos e acompanhamos materiais íntimos de mulheres sendo vazados e sendo usados como forma de prejudicar a imagem delas. É lamentável e acontece com frequência", destaca ela.

Na intimidade dos aplicativos

Se a intenção é começar neste universo das novas descobertas, um similar ao famoso aplicativo Tinder pode ser um bom começo. O Feeld ajuda a realizar a fantasia dos chamamos threesomes, quando envolve três pessoas nas relações sexuais, geralmente um casal e um amigo ou amiga. A intenção é aproximar casais e solteiros com fotos, vídeos ou mensagens mais quentes, o “sexting”. Em tempos de coronavírus, o aplicativo também se adaptou: tudo pode acontecer online, para que você não tenha que sair de casa.

“Só porque alguém gosta de algo que você não gosta, não significa que seja menos válido. É exatamente por isso que Feeld foi criado em primeiro lugar - para ser um espaço onde as pessoas possam testar os limites de sua própria compreensão da sexualidade e do desejo com respeito e abertura, afirma o aplicativo em sua apresentação. Assim como outros aplicativos de paquera, o interessado faz um perfil, coloca suas fotos e vai deslizando para a direita ou esquerda, seguindo as fotos e informações de pessoas que achar interessante. A principal diferença é poder vincular dois perfis, você e o(a) parceira(a). Para ficar tudo em casa, é só ajustar sua localização e seu “núcleo”, que funciona como pastas em que seleciona pessoas com os mesmo interesses. 

Feeld dá dicas de como manter a segurança quando não se sabe exatamente quem está do outro lado

Esteja sempre atento ao compartilhar detalhes pessoais, como nome real, número de telefone, endereço ou qualquer outra informação pessoal;

A plataforma recomenda também que os usuários não sigam nenhuma solicitação de pagamento de outros membros, pois podem ser tentativas de roubo de identidade ou fraude financeira;

Se alguém está tentando imediatamente mover a conversa para uma plataforma diferente ou se um usuário desaparecer e aparecer novamente com um nome diferente é preciso ficar alerta porque pode haver um vírus, roubo de informações ou outro abuso de dados no trabalho;

“Estar em Feeld não significa que alguém irá satisfazer seus desejos, dormir com você ou dar o que você deseja. Todo mundo sempre pode dizer não”, reforça a plataforma sobre consentimento na rede;

Como a rede também trabalha com casais, além da relação com outras pessoas, é importante reservar um tempo para conversar sobre o que você e seu (s) parceiro (s) esperam um do outro e quais são os limites.