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Como a dor deveria sair no jornal

19:24 | 04/05/2019

Tão delicado quanto necessário. É preciso discutir o tema - e não só durante o nono mês do ano, quando a campanha Setembro Amarelo toma conta de matérias jornalísticas, artigos e campanhas publicitárias. Foi isso o que O POVO fez no domingo passado, na reportagem "Solidões a distância" (28/4/2019, pág. 12 a 16), da repórter Ana Mary C. Cavalcante, ao abordar as dificuldades pelos quais passam municípios do Ceará ao lidar com o suicídio entre seus habitantes.

No material, contam-se histórias de profissionais que se equilibram entre o falar a respeito da dor e esforçar-se para prevenir mais casos. Há formas de como buscar ajuda e os relatos da necessidade de mais ações nos municípios no Interior, ratificando o imperativo de que é preciso conversar sobre suicídio.

Pela grandeza e pela complexidade do tema, muitos evitam falar sobre ele. A família, a Igreja, a imprensa. Por muitos anos, o assunto foi ignorado pela mídia. Entrou no rol dos tabus. Se um caso acontecia, só chegava ao conhecimento da população por meios alternativos, que não oficiais. Em casos de morte de alguma pessoa pública, se a causa não fosse divulgada, já se desconfiava. Hoje se sabe que negligenciar não é a melhor estratégia. Falar sobre suicídio apenas em setembro, também não. Por isso que matérias sobre abordagens e prevenção, chamando a atenção para a gravidade do problema de saúde pública, são tão relevantes.

Recomendações

Programa do Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE) que atua na prevenção ao suicídio, o Vidas Preservadas tem discutido o tema, desde o ano passado, com a sociedade civil. Um dos coordenadores do programa, o promotor de Justiça Hugo Mendonça reconhece que o conteúdo precisa ser mais bem trabalhado pela imprensa. "A mídia precisa mostrar que o orçamento público não tem um centavo destinado à política pública de prevenção ao suicídio, e só é política pública se houver orçamento assegurado além de vontade política para executar. Precisa abordar a prevenção e a posvenção. A imprensa precisa deixar claro quais são os fatores de risco e quais são os fatores de proteção. A imprensa também deve informar os mitos e as verdades sobre o suicídio. Aquela história de que a pessoa que só fala que vai se matar está querendo aparecer nem sempre é verdade", elenca Hugo, ao listar possibilidades de como a mídia pode trabalhar temas relacionados ao suicídio em pautas cotidianas - sem esperar que um caso de grande repercussão tome conta de manchetes pelo País todo.

Nas Redações dos veículos de comunicação, deveria haver um manual de procedimentos, um guia específico que norteasse condutas em situações do tipo. São referências que balizam o profissional a tratar com ética, respeito, delicadeza e informação de qualidade casos sensíveis como o suicídio. No entanto, o dia a dia é diferente. Normalmente, as situações vão sendo tratadas à medida que ocorrem. Quando se para e se reflete para discutir como lidar com o assunto? Em que momento se debate o que fazer e o que não fazer diante de temas sensíveis? Até quando usaremos como justificativas a dinâmica do jornalismo, a correria das Redações e a escassez do tempo para cuidar de nosso papel ativo em coberturas de suicídio?

O promotor de Justiça Hugo Mendonça é incisivo: "O que a gente não pode é silenciar sobre o fenômeno". A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde (MS) têm recomendações, facilmente encontradas em seus canais oficiais, para jornalistas e demais profissionais da mídia se guiarem em coberturas sobre o assunto. Não noticiar casos específicos de suicídio, por exemplo. Não publicar cartas deixadas nem divulgar métodos utilizados ou causas. Notícias do tipo também não devem ter destaque. A palavra "suicídio" também nunca deve estar no título. São condutas aparentemente simples, mas que podem servir como "gatilho" para quem está tão vulnerável. Há sempre pessoas em situações de risco. É responsabilidade do jornalista lidar bem a linguagem para não constranger e não ferir, mas para informar e educar.

Daniela Nogueira