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Sem intervenção militar

02:00 | 21/03/2019

Como sempre, qualquer iniciativa do governo Jair Bolsonaro desperta fortes paixões. De um lado, os adversários avaliam a visita do chefe do Executivo brasileiro a Washington como um fracasso total, que só teria servido para demonstrar a completa subserviência do Brasil aos Estados Unidos, sem nada de positivo. Do outro, governistas exaltam as atividades da comitiva presidencial em solo americano como alguma coisa especial, como se o Brasil iniciasse, a partir daquele momento, um relacionamento comercial inédito com os Estados Unidos, rompendo supostas amarras que dificultariam vínculos mais estreitos entre os dois países. Nenhuma das duas versões reflete a realidade do que aconteceu.

De positivo, pode-se incluir a permissão para os americanos utilizarem a base de lançamento de foguetes em Alcântara (MA), com aluguel previsto no valor de US$ 10 bilhões anuais; a designação do Brasil como "aliado especial extra-Otan" dos Estados Unidos, possibilitando ao País cooperação militar com os americanos e acesso à tecnologia; e a reativação de fóruns bilaterais de comércio, energia e meio ambiente. Em contrapartida, o Brasil pôs fim à exigência de vistos à entrada de americanos no Brasil - estendido a canadenses, australianos e japoneses -, sem exigir reciprocidade; estabeleceu cota para a importação de trigo sem cobrança de tarifas; e definiu critérios para a importação de carne suína dos Estados Unidos.

Quanto ao apoio dos EUA para a entrada do Brasil na Organização para Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), é preciso ser visto com mais cuidado, pois esse suporte ficou vinculado à decisão do governo brasileiro em abdicar, na Organização Mundial de Comércio (OMC), da condição de país em desenvolvimento. No entanto, as vantagens de participar da OCDE podem ser menores do que manter o status de economia emergente na OMC, o que resulta em vários benefícios. Observe-se ainda que o simples apoio americano não é garantia de que o Brasil será aceito na OCDE.

Entretanto, o que é muito preocupante - sem nem ao menos comentar várias atitudes equivocadas do mandatário brasileiro em solo americano, incluindo seu ataque despropositado a imigrantes brasileiros (depois se desculpando) - foram as declarações do presidente sobre a Venezuela. Ele não afastou - como deveria ter feito de plano - a possibilidade de o Brasil participar de uma intervenção militar no país vizinho, talvez atendendo a um pedido direto do presidente Donald Trump.

As próprias Forças Armadas brasileiras ficaram preocupadas com a atitude do presidente. E não é para menos. Participar de uma aventura desse tipo, romperia com uma tradição secular da diplomacia brasileira, lançando o Brasil a um abismo de profundidade incalculável. n