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Suzano e a cultura do ódio

02:00 | 15/03/2019

O País ainda está atônito com o massacre ocorrido, nesta quarta-feira, em uma escola pública de Suzano, São Paulo, que deixou 10 mortos e 11 feridos e reproduziu no Brasil, mais uma vez, um fenômeno que se pensava exclusivo de sociedades, como a americana, altamente industrializada e urbanizada, saturada de tecnologia, mas, também, de tensões e violências, e tangida por competividade extrema e individualismo crasso, solidão, falta de diálogo e coexistência com desigualdades sociais, em meio a riquezas exuberantes. Quando esse quadro se repete numa sociedade menos desenvolvida, como o Brasil, os efeitos sobre todos se expressam de forma mais contundente, e mais ainda, ao atingir o seu segmento mais promissor - a juventude -, cujas expectativas são as mais esperançosas possíveis. Se frustradas, torna-se o segmento mais vulnerável às distorções do sistema. Foi o que parece ter acontecido com esse terrível acontecimento que enluta o Brasil.

Os autores do massacre - jovens de classe média baixa, com famílias de reduzida autonomia econômica (tanto que moravam com os avós), uma das mães em tratamento contra as drogas, e eles próprios supostamente alvos de bullying quando frequentavam a escola da qual tinham cancelado as matrículas - aparentemente reagiam às suas frustrações eventuais dedicando um tempo excessivo às redes sociais e jogos eletrônicos de guerra. Atividades que psicólogos veem como suscetíveis de reforçar tendências violentas e até paranoicas e psicóticas potenciais. Até que ponto os condicionantes externos pressionaram fragilidades internas? É difícil saber.

O que não dá para ignorar é o peso que recai sobre os ombros de uma juventude abandonada por um sistema que a vê mais como um problema do que como uma solução para as dificuldades de um País que, paradoxalmente, poderia transformar em capital produtivo uma quantidade relevante desses cérebros em seu momento mais promissor. No entanto, vem fazendo o contrário, por falta de políticas públicas que reconheçam esse segmento como o de maior valor estratégico para o País, como seria considerado por qualquer nação séria.

Infelizmente, corremos o perigo de ver, cada vez mais, jovens brasileiros frustrados em suas aspirações, transformados simultaneamente em vítimas e carrascos: seja ao serem tragados pela violência do crime organizado e outras mazelas sociais, seja ao se transformarem loucamente em robôs cibernéticos que espalham sangue e horror em derredor, enquanto o País mergulha cada vez mais no culto à violência, ao ódio e à morte. Só o reencontro do Brasil com as melhores práticas democráticas e humanitárias pode estancar essa avalanche suicida. n