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O que é inaceitável

05:00 | 28/02/2019

Dois crimes recentes, envolvendo agressões contra mulheres trazem de novo à tona um drama que parece agravar-se a cada dia, levando, inclusive, ao questionamento se estamos em pleno recuo civilizatório. Um deles, acontecido no Rio de Janeiro, quando um homem, Vinícius Serra, socou brutalmente o rosto da paisagista Elaine Caparroz, durante quatro horas, quebrando-lhe vários ossos da face e desfigurando-a. O outro, em Fortaleza, com a prisão de Francisco Alberto Nobre Calixto Filho, assassino confesso de Stefhani Brito, crime ocorrido há mais de um ano, quando o homem espancou-a até a morte.

A mãe Stefhani contou a este jornal que, quando a filha namorava Calixto, ele a torturava, queimando-a com pontas de cigarro e talheres quentes; também costumava amarrá-la para espancá-la. A delegada Rena Gomes, titular do Departamento de Polícia Especializada de Proteção aos Grupos Vulneráveis, classificou o caso como "emblemático", devido a "hediondez" com que o crime foi cometido. Depois de matar Stefhani, Calixto circulou com ela morta na garupa de sua motocicleta - o que foi visto por várias pessoas - e abandonou o corpo nas proximidades de uma lagoa. Depois, fugiu, até ser encontrado pela Polícia.

Se fossem apenas esses dois casos, já seriam muitos, pois nada pode justificar ou relativizar a violência contra a mulher. No entanto, esses exemplos são representativos de milhares de situações que se repetem cotidianamente no Brasil. Pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha, a pedido do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, cujos dados foram divulgados esta semana, mostram que mais de 16 milhões de mulheres sofreram algum tipo de violência física no ano passado. O resultado foi semelhante a levantamento semelhante, realizado em 2017, revelando a gravidade do problema, que não arrefece.

Quanto ao assassinato de mulheres, o Brasil ocupa o 5º lugar no ranking mundial de feminicídio, segundo informações do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos. Nesse ranking macabro o País só perde para El Salvador, Colômbia, Guatemala e Rússia em número de assassinato de mulheres. Comparando-se com países desenvolvidos pode-se observar o verdadeiro extermínio contra mulheres aqui praticado. No Brasil se mata 48 vezes mais mulheres que no Reino Unido, 24 vezes mais que na Dinamarca e 16 vezes mais que o Japão ou Escócia, ressalvando que o número menor de mortes não absolve esses países da violência de gênero.

Romper esse ciclo de violência é uma questão urgente, se queremos nos considerar uma verdadeira civilização, na qual as diferenças sejam uma riqueza a ser enaltecida e não um impulso para o assassinato de mulheres, pelo simples fato de serem mulheres. n