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Disciplinamento nos presídios

05:00 | 27/02/2019

Em sua coluna desta semana o jornalista Thiago Paiva informa que o Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura (MNPCT) deverá visitar o Ceará nos próximos dias, mas ainda sem data definida, depois de cancelado agendamento anterior. Por ser ainda pouco conhecido, cabe explicar que o MNPCT é uma entidade oficial, integrada por 11 peritos independentes que, por força da lei 12.847/203, devem ter livre acesso aos presídios e outras instalações de privação de liberdade, incluindo as unidades socioeducativas e centros militares de detenção disciplinar.

Desde que Mauro Albuquerque assumiu a titularidade da Secretaria da Administração Penitenciária, o Ministério Público do Ceará vem recebendo, em média, 40 denúncias por semana de supostas torturas físicas e psicológicos contra os presos. As queixas partem das famílias dos detentos, mas nenhum caso foi confirmado até agora.

Nelson Gesteira, da Promotoria de Justiça de Corregedoria de Presídios e Penas Alternativas, disse a este jornal que, em visita aos centros de detenção, foram entrevistados médicos, agentes e os próprios presos, sem que fosse relatado qualquer tipo de maus tratos. Segundo as esposas dos presos, eles têm medo de confirmar possíveis torturas, temendo mais represálias. Mas, afirma o promotor, todos os procedimentos adotados pela Secretaria da Administração Penitenciária respeitam as medidas previstas na Lei de Execução Penal e nos manuais da Organização das Nações Unidas (ONU). O secretário, por sua vez, atribui as queixas a uma tentativa de o crime organizado difundir "descrédito" sobre o seu trabalho.

Porém, o fato é o seguinte: o MNPCT já deveria ter vindo ao Ceará para averiguar a situação carcerária, mas a visita foi suspensa pelo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, com a justificativa de que não seria do "interesse" do governo federal. Em nota, a ministra Damares Alves garantiu não ter havido negativa, mas pedido de "readequação de datas", pois não teria sido demonstrada a urgência da viagem.

É fato que se não se pode tomar como verdade todas as denúncias feitas por presos ou seus familiares. Por outro lado, é justo verificar se algum crime está sendo cometido dentro dos presídios, mesmo porque o próprio secretário Mauro Albuquerque já declarou que age com rigor, porém, dentro do que preconiza a lei, e respeitando a dignidade do preso.

Agora, como informa a coluna de Thiago Paiva, será agendada brevemente nova visita dos técnicos do MNPCT. O melhor a fazer é deixar que os peritos tirem a situação a limpo, para acabar com abusos, se de fato existirem, ou eliminar as dúvidas que possam pairar sobre o sistema, de modo que o Estado possa continuar o necessário trabalho de disciplinamento das unidades prisionais. n