Cartola, poeta do samba, teve várias ocupações antes de se consagrar na música
Há 117 anos, no dia 11 de outubro de 1908, nascia Cartola, um dos nomes mais importantes da história do samba. O Flipar mostra a seguir detalhes da vida e carreira desse imenso artista.
Angenor de Oliveira, que o Brasil conheceria como Cartola, nasceu no bairro do Catete, na Zona Sul do Rio de Janeiro.
Filho de Sebastião Joaquim de Oliveira e Aída Gomes de Oliveira, ele cresceu em um ambiente simples, mas cercado de música. Seu pai, que era violonista amador, foi o primeiro a lhe ensinar os acordes do instrumento que o acompanharia por toda a vida.
A sua infância, no entanto, foi marcada por dificuldades. Ainda menino, Cartola viu a família mudar-se várias vezes, até se estabelecer no Morro da Mangueira, onde ele passaria a maior parte da vida.

Foi na Mangueira que o futuro sambista mergulhou de vez no universo musical popular. A morte precoce de sua mãe o obrigou a deixar os estudos e trabalhar cedo – foi servente de pedreiro, lavador de carros e até contínuo.
Em um dos seus trabalhos em obras de construção, a fim de proteger os cabelos da poeira de cimento, começou a usar um chapéu-coco. Os colegas passaram a chamá-lo de “Cartola”, apelido que o acompanhou para o resto da vida.
No início da década de 1920, Cartola passou a frequentar rodas de samba e blocos carnavalescos na Mangueira. Junto a figuras como Carlos Cachaça e Zé Espinguela, fundou blocos carnavalescos e, posteriormente, a Estação Primeira de Mangueira, uma das mais tradicionais escolas de samba do país.
Ao longo dos anos 1930, suas composições começaram a ganhar destaque fora do morro. Sambas como “Divina Dama”, “Quem Me Vê Sorrindo”, “Alegria”, “Não Quero Mais Amar a Ninguém” e “Qual Foi o Mal Que Eu Te Fiz?” foram gravados por grandes intérpretes da época, como Francisco Alves, Carmen Miranda e Mário Reis.
Apesar da qualidade de sua obra, a vida de Cartola nunca foi fácil. Nos anos 1940, enfrentou longos períodos de esquecimento, trabalhando em atividades humildes para sobreviver.
Durante esse tempo, afastou-se do samba e chegou a viver em extrema pobreza. O artista foi redescoberto no final dos anos 1950, quando o cronista e radialista Sérgio Porto – mais famoso pelo pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta – o encontrou lavando carros em Ipanema.
Surpreso ao reconhecer o compositor de clássicos do samba, Sérgio Porto o ajudou a retornar ao meio musical.
Nos anos 1960, Cartola reencontrou o sucesso. Ao lado de sua companheira Dona Zica, com quem viveu até o fim da vida, fundou o lendário restaurante Zicartola, na Rua da Carioca, no centro do Rio de Janeiro.
O local tornou-se ponto de encontro de sambistas tradicionais e jovens músicos, como Nara Leão e Paulinho da Viola. O Zicartola foi mais que um restaurante: virou símbolo da resistência do samba de morro e da convivência entre gerações e estilos musicais.
Mesmo assim, foi apenas em 1974, aos 65 anos de idade, que o sambista lançou seu primeiro disco solo, intitulado simplesmente “Cartola”.
O álbum, produzido por João Carlos Botezelli, o Pelão, trouxe clássicos eternos como “Acontece”, “Tive Sim”, “O Sol Nascerá”, parceria com Elton Medeiros, e “Alvorada”, composição partilhada com Carlos Cachaça e Hermínio Bello de Carvalho.
Dois anos depois veio o segundo LP, que traz na capa a famosa foto em preto e branco de Cartola ao lado de Dona Zica, com o sucesso “O Mundo é um Moinho”.
Em 1977, lançou “Verde Que Te Quero Rosa”, e em 1979, o disco “Cartola 70 Anos”, seu quarto e último álbum de estúdio.
A obra de Cartola é marcada por um lirismo refinado e profundo, incomum no samba tradicional. Um exemplo dessa característica é a canção “As Rosas Não Falam”. Por isso, críticos e estudiosos o colocam entre os maiores nomes do gênero, ao lado de Noel Rosa, Pixinguinha e Paulinho da Viola.
Cartola teve uma vida modesta até o fim, morando com Dona Zica em uma pequena casa em Jacarepaguá.
Em seus últimos anos, lutou contra um câncer que o debilitou bastante, mas continuou compondo e se apresentando sempre que podia. Faleceu em 30 de novembro de 1980, aos 72 anos, deixando um legado monumental.
Após sua morte, a influência de Cartola só cresceu. Diversos artistas gravaram suas composições, entre eles Gal Costa, Elis Regina, João Nogueira, Ney Matogrosso e Paulinho da Viola.