A inusitada conexão entre 'o mito da beleza venezuelana' e o boom do petróleo no país
Projeto em torno das misses fez parte de uma agenda de construção da Venezuela não apenas como um país petroleiro, mas também rico e próspero, diz especialista.
A Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo — e o maior número de vitórias em concursos de beleza femininos internacionais. Os dois recordes podem aparentar não ter nenhuma relação, mas eles estão mais conectados do que muitos imaginam.
A história começa quase um século atrás. Com a descoberta de enormes reservas de petróleo a partir de 1914, a indústria petroleira da Venezuela engatou em um ciclo de prosperidade que chegou ao auge entre as décadas de 1920 e 1970.
O boom econômico patrocinado pelo petróleo e por grandes investimentos estrangeiros transformou o país nessa época na "Arábia Saudita das Américas".
A Venezuela chegou a ser o país mais rico da América do Sul e a ter um Produto Interno Bruto (PIB) per capita maior do que o da França, Itália e Alemanha nos anos 50.
A estabilidade da moeda local, o bolívar, permitia que os venezuelanos mais ricos tivessem altíssimo poder de compra e viajassem com frequência para o exterior.
Caracas também se tornou símbolo de uma elite sofisticada e consumidora de luxo.
Na visão do governo, contudo, isso não era suficiente para convencer o mundo de que a Venezuela não era mais a mesma. E é aí que entram os concursos de beleza, que passaram a ser usados como uma espécie de instrumento de diplomacia cultural.
"Não é algo superficial, mas sim relacionado a uma política de Estado para vender uma imagem internacional de país diferenciado na América Latina, cujas mulheres tinham um padrão de beleza europeu e norte-americano", afirma Carolina Pedroso, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
As misses passam então a fazer parte de uma agenda de construção da Venezuela não apenas como um país petroleiro, mas também rico e próspero "que não poderia ser comparável aos seus vizinhos latino-americanos".
De lá para cá, o país conquistou 24 títulos nos quatro principais concursos internacionais (Miss Mundo, Miss Universo, Miss Internacional e Miss Terra), o maior número entre todos os países do mundo.
O concurso ainda revelou nomes importantes da televisão venezuelana, como modelos, atrizes, apresentadoras de televisão e até uma candidata à presidência — Irene Sáez foi prefeita do município de Chacao, um tradicional reduto da classe média e alta de Caracas, e concorreu no mesmo ano em que Hugo Chávez foi eleito pela primeira vez.
"A Venezuela se torna uma referência pelo fato de ter belas mulheres e vencer muitos concursos de beleza", diz Pedroso.
A época dourada
Os concursos de beleza eram realizados na Venezuela desde o início do século 20, mas ainda de forma muito local.
Eles ganharam projeção quando revistas populares começaram a publicar ensaios fotográficos das ganhadoras — imagens que, com o tempo, passaram a ser cada vez mais associadas a uma elite venezuelana e ao glamour de Caracas da época.
As "belezas venezuelanas" eram fotografadas ao lado dos modernos carros recém-chegados à Venezuela ou usando roupas de grifes europeias.
O Miss Venezuela foi fundado oficialmente em 1952 e transmitido na TV pela primeira vez em 1962. As vencedoras representavam o país em concursos internacionais, como o Miss Universo e o Miss Mundo.
O primeiro grande sucesso da Venezuela veio em 1955, quando Susana Duijm ganhou o Miss Mundo e se tornou a primeira latino-americana coroada em um dos "big four", ou os quatro concursos de beleza femininos mais prestigiados.
A vitória inaugurou a era do foco internacional nos concursos de beleza.
Escolas para formar novos talentos foram abertas nessa época para expandir ainda mais o sucesso venezuelano.
Nessas academias, as jovens mulheres eram ensinadas a andar, sentar, sorrir e se vestir como misses, em aulas que por vezes iam das 7h da manhã à meia-noite.
Uma reportagem da época relata ainda que em uma dessas escolas, Organización Miss Venezuela, as alunas eram obrigadas a seguir uma dieta rigorosa, além de uma rotina pesada de exercícios.
Um dos nomes mais conhecidos dessa indústria de formação era Osmel Sousa, um empresário cubano-venezuelano que dava consultoria às candidatas.
Muitas das mulheres assessoradas por Sousa conquistaram grande sucesso, o que fez com que ele ficasse conhecido como o "czar da beleza" e eventualmente se tornasse presidente da Organização Miss Venezuela.
Com muito investimento, o Miss Venezuela se tornou o programa mais caro da televisão venezuelana e chegou a atrair cerca de 120 milhões de espectadores, com exibição também no México e nos Estados Unidos.
Uma das representantes da era de ouro do concurso é Maite Delgado, que participou da competição em 1986 e apresentou o evento por 15 anos.
"Era uma Venezuela diferente, uma era de ouro em termos de orçamento e produção. Era uma escola e uma referência para a televisão, um dos maiores programas da América Latina", relembrou Delgado em entrevista concedida à BBC Mundo, o serviço em língua espanhola da BBC, em 2017.
"Era o programa mais caro da televisão venezuelana e o que gerava maior receita publicitária", recordou ainda Roland Carreño, que foi assessor de imprensa e relações públicas do concurso e colunista social, à BBC Mundo.
Carreño mencionou ainda o luxo das apresentações musicais, inspiradas nas da Broadway. "Era uma espécie de bálsamo para curar as feridas da alma nacional. As pessoas se sentiam felizes. Foi aí que nasceu o mito da beleza venezuelana", afirmou.
Muitos estudiosos ponderam, no entanto, que o sucesso do país nesse setor impôs um padrão de beleza irreal às mulheres venezuelanas, ampliando a busca por perfeição por meio de cirurgias plásticas.
Até 2013, a Venezuela estava no topo do ranking de nações com mais cirurgias plásticas per capita, segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (não há dados mais recentes sobre o número de procedimentos no país).
"Não é um concurso de natureza, mas um concurso de beleza", disse Osmel Sousa sobre o Miss Venezuela certa vez, fazendo referência à realização de procedimentos estéticos pelas participantes.
"A beleza não é inata, é adquirida", era outro dos lemas do empresário, que por vezes submetia suas candidatas a cirurgias plásticas após meses de treinamento.
'Verdadeiro reflexo da realidade do país'
À medida que a crise tomou conta da Venezuela, contudo, o investimento no mercado das misses diminuiu.
Quando os preços internacionais do petróleo começaram a cair nos anos 1980, a economia venezuelana, que é extremamente dependente do chamado ouro negro, sentiu os efeitos rapidamente.
A crise política e econômica criada a partir desse momento nunca conseguiu ser totalmente superada, chegando ao seu ápice a partir de 2014.
Os concursos de beleza perderam apelo em todo o mundo nas últimas décadas, mas a crise venezuelana atingiu em cheio a Venevisión, a emissora que transmite o Miss Venezuela, assim como os patrocinadores e estilistas envolvidos no programa.
A rígida academia de mulheres altas com sorrisos forçados e cabelos volumosos ainda segue de pé no país, mas com um orçamento muito menor.
"Tudo piorou", afirmou Roland Carreño à BBC Mundo em 2017. Segundo ele, o concurso passou a ser gravado em um estúdio tão pequeno que as possibilidades de enquadramento e os recursos técnicos são limitados e tudo parece "abafado".
O Miss Venezuela também passou a ser alvo de críticas e classificado como uma distração fútil diante da escassez de produtos básicos e pobreza extrema enfrentada por parte da população.
E diversos autores e jornalistas no país veem a decadência dos concursos de beleza no país como uma metáfora da crise social e política enfrentada nas últimas décadas.
"É um verdadeiro reflexo da realidade do país", lamentou Maite Delgado, descrevendo o que o concurso se tornou. "É triste porque era um importante trunfo. É triste ver algo que já foi grandioso encolher ano após ano."
*Com informações da reportagem de Daniel García Marco, da BBC Mundo
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