Que papel a Venezuela realmente desempenha no narcotráfico — e como se compara a México e Colômbia, países aos quais Trump fez alertas
A Venezuela não é grande fabricante de drogas, mas se tornou um entreposto para rotas que ligam países produtores de narcóticos a mercados consumidores.
Que papel a Venezuela realmente desempenha no narcotráfico — e como isso se compara a México e Colômbia, países aos quais Trump fez alertas após a captura de Maduro?
Nicolás Maduro ainda nem havia aterrissado nos Estados Unidos após sua captura na Venezuela quando Donald Trump advertiu que México e Colômbia poderiam ser os próximos alvos em sua cruzada contra as drogas.
Sobre o vizinho fronteiriço (México), disse que "era preciso fazer alguma coisa"; já em relação a Gustavo Petro, presidente da Colômbia, avisou que ele "melhor que se cuide", após acusá-lo de fabricar cocaína e enviá-la ao território americano.
Desde agosto do ano passado, os Estados Unidos mobilizaram uma ampla força militar no Caribe e ao redor da Venezuela para conter, segundo Washington, o tráfico de drogas procedente do país sul-americano, que os americanos acusam de servir como base para uma "organização narcoterrorista" com envolvimento das Forças Armadas venezuelanas e liderada por Maduro.
Militares americanos vêm há meses bombardeando supostas embarcações do narcotráfico em águas sul-americanas, com um saldo de ao menos 110 mortos.
Analistas ouvidos pela BBC Mundo reforçam que a Venezuela atua sobretudo como um trampolim para a cocaína, que é cultivada majoritariamente na Colômbia.
Daniel Rico, economista da Universidade Nacional, aponta que há muitos laboratórios de cocaína na Venezuela, embora não tanto cultivo.
"A Venezuela se tornou útil para ampliar rotas internacionais da droga sul-americana, fortalecendo a saída pelo Caribe colombiano ao incorporar o Caribe venezuelano", afirma Francisco Daza, coordenador da linha de Paz Territorial e Direitos Humanos da Fundação Pares, na Colômbia.
Os carregamentos têm como destino, em maior medida, mercados europeus, além dos norte-americanos.
México e Colômbia são peças-chave nessa engrenagem global, e grupos armados e cartéis de drogas representam uma ameaça tanto a seus próprios países quanto a qualquer objetivo dos Estados Unidos na região.
Mas como o papel desses dois países no narcotráfico se compara ao da Venezuela? Trump realmente pode orquestrar uma operação semelhante à realizada contra Maduro? E essa ofensiva vai além do combate às drogas?
As perguntas se acumulam em um momento inédito na América Latina.
O caso colombiano
"A Venezuela não é um país produtor propriamente dito, mas sim uma espécie de céu e portos abertos para o tráfico de drogas, algo que se consolidou nos últimos 20 anos", descreve Jorge Mantilla, doutor em criminologia pela Universidade de Illinois em Chicago.
Mantilla aponta para o entrelaçamento político, institucional e militar da Venezuela, assim como para a presença de guerrilhas colombianas no país, como fatores que viabilizam esse fenômeno.
O Exército de Libertação Nacional (ELN), surgido nos anos 1960, é o principal ator armado em vastas áreas da fronteira entre Colômbia e Venezuela. Ali, controla rotas do narcotráfico e, segundo relatam tanto Daza quanto Mantilla, também atua em diferentes estados venezuelanos, onde teria se aliado a integrantes corruptos das Forças Armadas Bolivarianas.
Além do ELN, dissidências das Farc (antigas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) operam na região de fronteira e disputam o controle do território. Nos últimos anos, também foi registrada a presença do grupo conhecido como Clã do Golfo, a maior organização criminosa da Colômbia.
Todos esses grupos convergem em um corredor estratégico do tráfico de drogas e de outros negócios ilícitos, como a mineração ilegal, rumo a um país — a Venezuela — que parece desempenhar um papel secundário no narcotráfico global quando comparado a México ou Colômbia.
Nenhum país produz mais cocaína do que a Colômbia — e nunca, na história, produziu-se tanta cocaína no país.
Em 2024, o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) informou que a produção de cocaína disparou 53% em 2023, alcançando o recorde de 2.600 toneladas.
É um recorde sustentado por melhorias constantes na produção e na distribuição, como o surgimento de folhas de coca superprodutivas e de embarcações do narcotráfico capazes de percorrer grandes distâncias, inclusive de forma autônoma e camuflada.
Metade de toda a cocaína produzida na Colômbia vem de três enclaves que ocupam cerca de 15% do território das zonas cocaleras. Um deles é o Catatumbo, na fronteira com a Venezuela, no nordeste colombiano. Os outros ficam no sul do país, em Putumayo, Cauca e Nariño.
Quase toda a cocaína consumida não apenas nos Estados Unidos, mas também no restante do mundo, é produzida — além da Colômbia — no Peru e na Bolívia.
"A folha de coca é processada predominantemente em laboratórios desses três países para ser transformada no produto final de consumo (principalmente cloridrato de cocaína) ou, em alguns casos, em um produto intermediário, já que partes do processo também podem ocorrer em etapas posteriores da cadeia", explica Antoine Vella, diretor da Seção de Dados, Análises e Estatísticas do UNODC.
A partir daí, a droga segue para diversos mercados, geralmente de forma indireta, transitando por um ou mais países.
Desde os países produtores, ela pode cruzar primeiro para nações vizinhas, como Equador ou Venezuela, e depois ser transportada por algum tipo de embarcação — em lanchas rápidas, barcos pesqueiros ou semissubmersíveis — até a costa da América Central ou diretamente ao México, seja pelo Pacífico ou pelo Caribe, para então continuar por terra rumo ao norte.
É pelo Pacífico sul-americano que passa a grande maioria da cocaína que chega aos Estados Unidos, segundo estimativas da Administração para o Controle de Drogas (DEA).
Por essa rota transitaram aproximadamente 74% dos carregamentos destinados aos EUA em 2019, enquanto 16% seguiram pelo Caribe Ocidental, de acordo com a Avaliação Nacional das Ameaças das Drogas de 2020.
A BBC Mundo solicitou recentemente dados atualizados à DEA, sem sucesso, embora analistas ouvidos pelo veículo concordem que essas proporções provavelmente permanecem válidas.
Diversos grupos armados dominam as rotas da cocaína na Colômbia, entre eles o Clã do Golfo, o ELN e diferentes dissidências das FARC.
Os dois primeiros, assim como as facções FARC-EP e Segunda Marquetalia, são considerados organizações terroristas estrangeiras pelos Estados Unidos.
México, fentanil e acesso aos Estados Unidos
México e Estados Unidos compartilham mais de 3.000 quilômetros de fronteira.
Ao longo de décadas, cartéis mexicanos desenvolveram uma cadeia sofisticada de transporte e distribuição da cocaína que chega da América do Sul, destinada em sua maior parte ao país vizinho ao norte. Muitas vezes, esse fluxo ocorre por portos oficiais de entrada.
No entanto, a maior preocupação de Washington em relação ao México hoje está ligada à produção e à distribuição de drogas sintéticas, como metanfetaminas, e de opioides como o fentanil — substância associada a uma "epidemia de overdoses" nos Estados Unidos.
O fentanil é atualmente o principal responsável por mortes por overdose no país, embora, entre 2023 e 2024, esse índice tenha caído ao nível mais baixo dos últimos cinco anos.
Segundo o Departamento de Justiça e o Serviço de Pesquisa do Congresso dos Estados Unidos, o fentanil ilícito é produzido quase integralmente no México, a partir de substâncias químicas importadas de países da Ásia, incluindo a China, e tanto a produção quanto o tráfico são controlados por cartéis mexicanos.
Esses grupos também têm um peso expressivo na formação e na exportação de conhecimento para outros países e mercados. Há registros da presença de "engenheiros agrônomos" mexicanos na Colômbia, envolvidos no aprimoramento de variedades da folha de coca, assim como da participação de cartéis como o de Sinaloa em redes europeias que dependem do apoio logístico, da experiência e da capacitação de seus integrantes.
Esse fenômeno é conhecido como a exportação do "método mexicano", como descreveu recentemente à BBC Mundo Laurent Laniel, diretor do escritório de Crime, Precursores e Consumo de Drogas da Agência de Drogas da União Europeia (EUDA, na sigla em inglês).
O centro de estudos e veículo especializado InSight Crime aponta as organizações criminosas mexicanas como as maiores, mais sofisticadas e mais violentas do hemisfério ocidental. Elas surgiram a partir de uma longa história de contrabando e da proximidade com os Estados Unidos, a maior economia do mundo, e se transformaram em uma ameaça regional, com redes que se estendem da Argentina ao Canadá e à Europa.
Por que Trump priorizou a Venezuela
O fato de Trump ter concentrado a primeira fase de sua guerra contra o narcotráfico na Venezuela — um país que desempenha um papel menor na produção e na distribuição de drogas em comparação com México ou Colômbia — alimenta a tese de que o verdadeiro objetivo do presidente americano seria forçar uma mudança política em Caracas.
Declarações sobre "controlar" o país até que ocorra uma transição e a ênfase na participação de empresas no petróleo venezuelano indicam um propósito mais amplo, ainda não totalmente compreendido.
O próprio secretário de Estado, Marco Rubio, afirmou em entrevista à NBC: "Não se pode transformar a Venezuela em um centro de operações do Irã, da Rússia, do Hezbollah, da China e de agentes de inteligência cubanos que controlam o país".
"Temos visto adversários nossos ao redor do mundo explorarem e extraírem recursos da África e de outros países. Eles não vão fazer isso no Hemisfério Ocidental", acrescentou Rubio.
México e Colômbia ficaram, assim, sinalizados como possíveis próximos alvos de Trump.
Sobre Petro, o presidente americano reiterou que ele seria "um homem doente" e insinuou que não permaneceria por muito tempo no poder ao afirmar que não fabricaria e venderia cocaína aos Estados Unidos "por muito mais tempo".
A Colômbia realizará eleições presidenciais em maio, e Petro não pode concorrer à reeleição. Não ficou claro se Trump se referia a esse calendário eleitoral ou a possíveis ações diretas contra o país.
Washington sancionou Petro no fim de outubro acusando-o de supostos vínculos com o narcotráfico, afirmando que, desde sua chegada ao poder, a produção de cocaína no país teria disparado para os níveis mais altos em décadas.
A BBC Mundo apurou que, em setores da política colombiana, há preocupação com um aumento das ações marítimas dos Estados Unidos nas proximidades da Colômbia e com a possibilidade de novas sanções contra o país.
Por ora, porém, predomina o ceticismo quanto à chance de algo semelhante ao que ocorreu com Maduro acontecer com Petro, sobretudo diante da proximidade das eleições.
Em relação ao México, embora Trump adote um tom mais cordial com a presidente Claudia Sheinbaum do que com Petro, o mandatário americano já se ofereceu para atacar diretamente os cartéis.
Esse ponto parece ser uma linha vermelha para Sheinbaum, que aposta na cooperação com Washington em vez de qualquer outro tipo de intervenção.
A região segue em suspense diante dos próximos passos de Trump. Após o que ocorreu na Venezuela e diante das ameaças feitas a México, Colômbia e até Cuba — três países em posições políticas opostas às do presidente americano — cresce a inquietação de que esteja em jogo algo muito maior do que o narcotráfico.
Com reportagens adicionais de Leire Ventas, correspondente da BBC News Mundo em Los Angeles, e Alejandro Millán, de Londres
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