Em meio a novos protestos, Irã diz que retaliará se houver ataque dos EUA
Médicos no Irã disseram à BBC que mais de 100 corpos foram levados a hospitais ao longo de dois dias.
O Irã fez um alerta aos Estados Unidos de que fará retaliações caso seja atacado pelo país — em meio a protestos em massa que seguem desafiando a autoridade do governo de Teerã no fim de semana.
Vídeos verificados pela BBC e relatos de testemunhas parecem mostrar que o governo está intensificando sua resposta aos protestos, que já se espalharam por mais de 100 cidades e vilas em todas as províncias do Irã.
O presidente dos EUA, Donald Trump, ameaçou atingir o Irã "com muita força" se as autoridades "começarem a matar pessoas".
No sábado (10/1), o presidente do parlamento iraniano alertou que Israel e todas as bases militares e navais americanas na região serão alvos legítimos, caso os EUA ataquem o Irã.
Os protestos foram desencadeados pela forte inflação no Irã. Os manifestantes exigem o fim do regime do Líder Supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei.
O procurador-geral do Irã afirmou que qualquer pessoa que protesta é considerada "inimiga de Deus" — um crime punível com pena de morte. Já Khamenei desdenhou dos manifestantes, chamando-os de "um bando de vândalos" que buscam "agradar" Trump.
No sábado, Trump disse que os EUA "estão prontos para ajudar", pois o Irã "busca a LIBERDADE".
Com a intensificação dos protestos, o número de mortos e feridos continua crescendo. Dois grupos de direitos humanos relataram mais de 100 mortes, incluindo membros das forças de segurança.
Funcionários de diversos hospitais disseram à BBC que estão sobrecarregados com feridos e mortos.
A BBC Persian (serviço de notícias em persa da BBC) confirmou a chegada de 70 corpos a um hospital na cidade de Rasht na noite de sexta-feira. Um profissional de saúde relatou a morte de cerca de 38 pessoas em um hospital de Teerã.
O chefe de polícia do Irã disse na TV estatal que o nível de confronto com os manifestantes havia aumentado, com prisões na noite de sábado do que ele chamou de "figuras-chave". Ele atribuiu uma "proporção significativa de mortes" a "indivíduos treinados e dirigidos", e não às forças de segurança, mas não deu detalhes específicos.
Mais de 2,5 mil pessoas foram presas desde o início dos protestos em 28 de dezembro, de acordo com um grupo de direitos humanos.
A BBC e a maioria das outras organizações internacionais de notícias não conseguem trabalhar dentro do Irã. O governo iraniano impôs um bloqueio à internet desde quinta-feira, dificultando a obtenção e verificação de informações.
Apesar disso, algumas imagens de vídeo estão surgindo na internet e a BBC conversou com pessoas que estiveram nas manifestações.
Vários vídeos, confirmados como recentes pelo BBC Verify, mostram confrontos entre manifestantes e forças de segurança em Mashhad, a segunda maior cidade do Irã.
Manifestantes mascarados são vistos se protegendo atrás de lixeiras e fogueiras, e forças de segurança são vistas ao longe. Um veículo que parece ser um ônibus está em chamas. É possível ouvir vários tiros e o que parecem ser batidas em panelas e frigideiras.
Uma figura em pé em uma passarela próxima parece disparar vários tiros em várias direções enquanto algumas pessoas se protegem atrás de uma cerca.
Em Teerã, um vídeo verificado da noite de sábado mostra manifestantes também ocupando as ruas no distrito de Gisha.
Outros vídeos verificados da capital mostram um grande grupo de manifestantes e o som de panelas sendo batidas na Praça Punak, com uma multidão de manifestantes marchando em uma rua no distrito de Heravi e pedindo o fim do regime.
O acesso à internet no Irã é limitado a uma espécie de intranet do país, com conexões restritas ao mundo exterior. Durante a atual onda de protestos, as autoridades restringiram severamente essa intranet doméstica pela primeira vez.
Um especialista disse à BBC Persian que o bloqueio é mais severo do que durante o levante "Mulheres, Vida, Liberdade" que aconteceu em 2022.
Alireza Manafi, pesquisador que estuda a internet do Irã, afirmou que a única maneira provável de se conectar ao mundo exterior é por meio da internet via satélite Starlink, mas alertou os usuários para que tenham cautela, pois essas conexões podem ser rastreadas pelo governo.
EUA dispostos a 'ajudar'
No sábado, Trump escreveu nas redes sociais: "O Irã está vislumbrando a LIBERDADE, talvez como nunca antes. Os EUA estão prontos para ajudar!!!"
Ele não deu mais detalhes, mas a imprensa americana noticiou que Trump havia sido informado sobre opções para ataques militares no país.
O New York Times e o Wall Street Journal noticiaram que houve reuniões com o presidente, com o WSJ descrevendo-as como "discussões preliminares". Um funcionário não identificado disse ao WSJ que não havia "ameaça iminente" ao Irã.
No ano passado, os EUA realizaram ataques aéreos contra instalações nucleares iranianas.
No domingo, Reza Pahlavi, filho exilado do último xá do Irã, que vive nos EUA e cujo retorno tem sido exigido por manifestantes, postou um vídeo no X.
A legenda dizia: "Seus compatriotas ao redor do mundo estão orgulhosamente gritando sua voz... Em particular, o presidente Trump, como líder do mundo livre, observou atentamente sua indescritível bravura e anunciou que está pronto para ajudá-los."
Ele acrescentou: "Sei que em breve estarei ao seu lado."
Ele afirmou que a República Islâmica estava enfrentando uma "grave escassez de mercenários" e que "muitas forças armadas e de segurança abandonaram seus postos de trabalho ou desobedeceram ordens para reprimir o povo".
A BBC não conseguiu verificar essas afirmações.
Pahlavi encorajou as pessoas a continuarem protestando no domingo à noite, mas a permanecerem em grupos ou com multidões e a não "colocarem suas vidas em perigo".
A Anistia Internacional afirmou estar analisando "relatos preocupantes de que as forças de segurança intensificaram o uso ilegal de força letal contra manifestantes" desde quinta-feira.
A ministra das Relações Exteriores do Reino Unido, Yvette Cooper, disse que aqueles que se manifestam contra o governo de Khamenei não devem enfrentar "a ameaça de violência ou represálias".
Pelo menos 78 manifestantes e 38 membros das forças de segurança foram mortos nas últimas duas semanas, segundo a organização Ativistas de Direitos Humanos no Irã, com sede nos EUA.
A organização Direitos Humanos no Irã, com sede na Noruega, relatou que pelo menos 192 manifestantes foram mortos.
O diretor do grupo, Mahmood Amiry-Moghaddam, disse: "O número de mortes de manifestantes nos últimos três dias, particularmente após o bloqueio nacional da internet, pode ser ainda maior do que imaginamos atualmente."
A BBC Persian confirmou a identidade de 26 pessoas mortas, incluindo seis crianças. Os protestos foram os mais generalizados desde a revolta de 2022, desencadeada pela morte sob custódia de Mahsa Amini, uma jovem curda detida pela polícia da moralidade por supostamente não usar o hijab corretamente.
Naquela ocasião, mais de 550 pessoas foram mortas e 20 mil detidas pelas forças de segurança ao longo de vários meses, segundo grupos de direitos humanos.
Reportagem adicional de Soroush Pakzad e Roja Assadi
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