'Neorrurais': os jovens espanhóis que estão migrando para o campo por causa do alto preço de casas nas cidades
Agência BBC

'Neorrurais': os jovens espanhóis que estão migrando para o campo por causa do alto preço de casas nas cidades

A busca por uma melhor qualidade de vida e os altos preços da moradia em cidades grandes deram às áreas rurais da Espanha um novo atrativo.

Ainara levando um carrinho de mão com plantas em sua horta
Cortesía
A busca por uma melhor qualidade de vida e por mais contato com a natureza também é um fator importante para muitos dos que decidiram se mudar para uma área rural, como Ainara

Quando Ainara e Roger decidiram deixar a cidade grande para morar em Corterrangel, na província espanhola de Huelva, eles aumentaram a população da cidade em cerca de 15%.

O contraste entre essa pequena aldeia de 15 habitantes e Sevilha, cidade com cerca de 700 mil habitantes onde viveram por 15 anos, não poderia ser maior.

A aldeia, situada no parque natural da Serra de Aracena e Picos de Aroche, é cercada por bosques de castanheiros — árvores de grande porte comuns em áreas montanhosas da Europa —, azinheiras, típicas do Mediterrâneo e uma das espécies florestais mais resistentes à aridez, e sobreiros, de onde se extrai a cortiça.

A região abriga aves de rapina, além de genetas (pequenos mamíferos semelhantes a gatos) e texugos (animais de corpo robusto e pernas curtas, da mesma família das lontras e doninhas).

"Valorizamos muito o silêncio e o contato com a natureza", afirma Ainara.

Em Corterrangel, o casal cria a filha, Irati, em uma casa com uma cachorra, Eska, além de galinhas e uma horta. Não há trânsito nem ruídos e, além disso, há uma vantagem muito atraente: "Aqui conseguimos comprar nossa casa à vista com o que tínhamos economizado".

Em Sevilha, relata o casal, o aluguel se tornara cada vez mais caro, e a compra de um imóvel era quase inviável, já que, sem contrato de trabalho fixo, os bancos não concediam financiamento imobiliário.

Ambos são cientistas. Ainara pesquisa o abutre-do-egito, a menor espécie de abutre da Europa, enquanto Roger estuda os ácaros que vivem nas asas das aves. Os dois atuam no Conselho Superior de Pesquisas Científicas (CSIC, na sigla em espanhol), principal instituição pública de pesquisa da Espanha, um setor marcado por contratos frequentemente atrelados a financiamento variável e renovados a cada poucos anos.

Há oito anos, desde a mudança para Corterrangel, o casal percorre pouco mais de uma hora de carro até o escritório, em Sevilha. O deslocamento, dizem, vale a pena. "Viver aqui nos dá muita paz", afirma a pesquisadora.

O caso de Ainara e Roger não é isolado. Nos últimos anos, cresce na Espanha o número de jovens que pretendem deixar os grandes centros urbanos em busca de melhor qualidade de vida e como forma de escapar dos altos preços da moradia, que atingiram níveis históricos no país.

Diversos estudos acadêmicos apontam essa tendência, batizada de "neorrurais", iniciada durante a pandemia.

Embora parte dos que migraram então para vilarejos tenha retornado às cidades com o recuo do trabalho remoto, outros já construíram ali suas vidas ou planejam se estabelecer em áreas rurais.

Ainara e Roger se consideram pessoas "neorrurais"?

"Com certeza", afirma Roger. Se mudar para o campo não foi apenas uma necessidade, mas também uma decisão consciente e desejada.

Roger segura uma abóbora na horta de sua casa
Cortesía
Entre muitas outras coisas, Roger cultiva na horta abóboras Yakteen, uma variedade palestina

Preços em níveis históricos

Um dos principais fatores desse movimento é o preço dos imóveis.

Na Espanha, os valores já superaram os da bolha imobiliária que estourou em 2008, enquanto os aluguéis subiram em muitas comunidades autônomas a taxas de dois dígitos, explica María Matos, diretora de estudos e porta-voz do portal imobiliário Fotocasa, à BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC).

Ainara com sua cachorra
Cortesía
Ainara e Roger estão criando a filha, Irati, no pequeno povoado de Corterrangel, cercados pela natureza e com a cachorra Eska

Uma pesquisa realizada pelo portal no verão revelou que 63% das pessoas que buscavam moradia, para alugar ou comprar, gostariam de se mudar para uma área rural.

O desejo era mais acentuado entre pessoas de baixa renda e grupos mais vulneráveis, "entre eles os jovens, que veem nas áreas rurais uma esperança para conseguir se emancipar", afirma Matos.

Entre jovens de 18 a 24 anos, a pesquisa indica que 70% desejam viver no campo, embora a maioria reconheça que dificilmente conseguirá concretizar essa aspiração, sobretudo porque seus empregos não permitiriam.

O descompasso entre salários e o aumento desproporcional dos preços de aluguel e de venda de imóveis ajuda a explicar esse desejo. Em 2024, o salário médio bruto na Espanha foi de 2.385 euros (cerca de R$ 15 mil), segundo o Instituto Nacional de Estatística; entre menores de 25 anos, o valor foi de 1.372,8 euros mensais (cerca de R$ 8.800).

Em Madri, capital da Espanha e também a cidade mais populosa, o aluguel médio por metro quadrado é de 22,37 euros (cerca de R$ 121), o que faz com que um imóvel residencial padrão de 80 m² custe, em média, 1.789,60 euros por mês (aproximadamente R$ 9.665).

A título de comparação, o índice FipeZAP apontou em dezembro de 2024 que o aluguel médio por metro quadrado era R$ 57,59 em São Paulo (ou R$ 4.607,20 para 80 m²), cidade mais populosa do Brasil. Segundo o IBGE, o salário médio de admissão no Brasil no mesmo mês, por exemplo, era de R$ 2.162.

Mudança de vida

Para Anaí Meléndez, natural de Valladolid, o preço do aluguel foi o fator decisivo para perder a paciência com Madri.

Ela passou anos trabalhando na capital espanhola em algumas das grandes agências de publicidade. Os salários, porém, eram "irrisórios" e contrastavam com aluguéis cada vez mais altos.

Anaí deixou um dos apartamentos onde morou após o proprietário alegar que precisava do imóvel para um filho, uma das justificativas previstas na legislação espanhola para encerrar um contrato de locação. No entanto, pouco tempo depois, constatou que o mesmo apartamento estava sendo anunciado no Airbnb, plataforma de aluguel por temporada.

Anaí Meléndez posa em seu restaurante com uma peça de carne apoiada no ombro
Cristina Chamorro
Anaí Meléndez diz que não é a única a ir para a grande cidade e depois voltar às origens

Entre os baixos salários, o alto custo dos aluguéis e uma ruptura pessoal, Anaí resolveu mudar radicalmente de vida, deixou o emprego e recomeçou.

"Eu tinha um hobby há algum tempo: organizava degustações de chuletas [ou bistecas] no meu apartamento em Lavapiés [bairro de Madrid]. Convidava amigos e, aos poucos, foi saindo do controle. Primeiro, eram amigos, depois amigos de amigos… Até que decidi que dava para lucrar com esses encontros", conta à BBC News Mundo.

Com o dinheiro do seguro-desemprego, Anaí passou dois anos percorrendo a região onde fica sua cidade, Nava del Rey, em busca de fornecedores, criando redes, conhecendo o território e "procurando pessoas que compartilhassem da minha filosofia", explica.

Por fim, encontrou um ponto para reformar na cidade e abriu ali o restaurante "Caín", especializado em carnes na brasa e com uso de produtos locais e sazonais.

Ela afirma não ser a única a fazer o caminho de ida à grande cidade e de retorno às origens.

Ela cita jovens que voltaram a Nava del Rey, município com menos de 2 mil habitantes, para abrir, por exemplo, uma clínica de fisioterapia, além de outros que assumiram as vinhas antigas dos avós e passaram a produzir vinho com novas técnicas, aprimorando a produção herdada das gerações anteriores.

"Nos vilarejos, há muito trabalho, mas é preciso criá-lo, ir atrás", avalia Anaí Meléndez.

'Espanha vazia'

Esse é um dos problemas enfrentados pela chamada "Espanha vazia", as áreas rurais marcadas por forte despovoamento, sobretudo em decorrência do êxodo para as cidades nas décadas de 1950 e 1960. Hoje, essas regiões enfrentam a perda de serviços públicos e desequilíbrios no desenvolvimento social, econômico e cultural.

Diego Curto, gerente da Associação para o Desenvolvimento Integral do Vale de Ambroz (DIVA), organização sem fins lucrativos dedicada a revitalizar a comunidade autônoma de Extremadura, confirma o diagnóstico.

Anaí Meléndez acende uma vela em uma igreja
Miguel Sánchez
Anaí Meléndez afirma que mudou o estilo de vida quando voltou para o seu povoado, Nava del Rey

Segundo Curto, a perda populacional leva ao fechamento de serviços, comércios, bares e restaurantes, criando um círculo vicioso que torna a região menos atraente e incentiva novas partidas.

Para enfrentar o problema, a DIVA e outras organizações semelhantes buscam revitalizar o território, gerar empregos e atrair novos moradores. Entre as iniciativas estão a criação de um banco de imóveis e terras disponíveis para aluguel e a oferta de informações sobre serviços existentes na região, como hospitais, postos de saúde, escolas e creches.

Diversas famílias já se estabeleceram no vale.

"As pessoas buscam qualidade de vida e tranquilidade, e muitas famílias querem criar os filhos no meio rural, onde se evitam problemas comuns das cidades", afirma Curto à BBC News Mundo.

A associação também passou a ser procurada por famílias latino-americanas interessadas, sobretudo, em oportunidades de trabalho na região.

"Muitos nos dizem que estão há anos em Madri ou Valência e que gostariam de mudar. São perfis de que também precisamos muito aqui", afirma.

As barreiras

Muitos interessados, no entanto, voltam a esbarrar no problema da moradia: embora mais barata do que nas grandes cidades, ela é escassa em muitos vilarejos.

"A falta de habitação é uma das razões pelas quais mais pessoas não se mudam para os povoados", afirma Curto, que lamenta o fato de que projetos de moradia pública "quase sempre se concentram em cidades ou grandes centros urbanos".

Segundo María Matos, do portal imobiliário Fotocasa, esse déficit é o que tem impulsionado o aumento dos preços em toda a Espanha.

"A Espanha recebeu mais de 500 mil pessoas no último ano e temos um déficit de quase 150 mil moradias por ano, que vem se acumulando e ampliando cada vez mais essa demanda", afirma Matos.

Algumas senhoras aproveitam o frescor da noite em uma rua de Arriate, sentadas em cadeiras dobráveis enquanto conversam
JORGE GUERRERO/AFP via Getty Images
Algumas senhoras aproveitam o frescor da tarde em Arriate, em Málaga. A vida mais tranquila e com vínculos sociais mais fortes nos povoados é um dos motivos que levam cada vez mais pessoas a fazer a migração inversa

Outra barreira é a dos estereótipos sobre a vida no campo, que também afasta pessoas que talvez encontrassem no meio rural um ambiente adequado para viver.

"Muitos achavam que era um retrocesso ir morar assim. Nós acreditávamos que encontraríamos pessoas com vidas muito diferentes e interessantes, e foi o que aconteceu", relata Ainara, a pesquisadora.

Eles tiveram que fazer alguns sacrifícios.

"Você não pode ir às 2h a um Carrefour Express [minimercado], não tem Glovo [aplicativo de entregas]. Estamos acostumados a um estilo de vida do qual é difícil abrir mão", admite Anaí Meléndez.

Por isso, conta Meléndez, muitos amigos que gostariam de seguir o mesmo caminho acabam tendo dificuldade de romper com a rotina.

"Eu sou impulsiva, mas sei que não é simples dizer: 'Olha, largue tudo e faça o mesmo que eu, vá morar em um vilarejo'."

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