'Nunca pensei que fossem me atacar': os sobreviventes de ataque com míssil durante bombardeios dos EUA à Venezuela
Agência BBC

'Nunca pensei que fossem me atacar': os sobreviventes de ataque com míssil durante bombardeios dos EUA à Venezuela

Um míssil atingiu um edifício no litoral da Venezuela durante o ataque dos EUA que resultou na captura de Nicolás Maduro, matando uma moradora idosa. Os sobreviventes contam o que aconteceu.

Wilman González
Reuters
O impacto do míssil lançou Wilman González contra a parede, enquanto sua tia Rosa perdeu a vida

Eram 2h da manhã quando um míssil caiu no seu apartamento.

"A onda explosiva me atirou contra a parede", recorda Wilman González.

Caído no chão, ele abriu os braços olhando para o céu e se despediu: "Deus, perdoe todos os meus pecados."

Naquele momento, "senti que havia morrido", recorda ele.

Mas, momentos depois, González percebeu que tinha enterrada no rosto uma lasca de madeira que havia se soltado da porta.

"Eu me levantei como pude e fui socorrer meus irmãos, que estavam aturdidos com o impacto", conta o eletricista de 54 anos à BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC).

Ainda com a bochecha direita roxa, ele mal consegue acreditar no que aconteceu com ele e com sua família no último dia 3 de janeiro, quando as Forças Armadas norte-americanas atacaram a Venezuela, capturando o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores.

González morava no Bloco 12, um antigo edifício localizado muito perto de uma importante base militar venezuelana, a Academia da Marinha Bolivariana, na cidade litorânea de Catia La Mar, a cerca de 35 km de Caracas.

Habitado principalmente por pessoas de idade avançada em um bairro popular, o Bloco 12 — ou o que resta dele — agora é um símbolo de um dos maiores acontecimentos ocorridos na história recente da Venezuela: o bombardeio ordenado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Trata-se de um dos edifícios civis atingidos pelo ataque, cujo alvo principal foram instalações militares e de comunicações.

Enquanto Maduro permanece detido em uma prisão de Nova York, enfrentando acusações relacionadas ao narcoterrorismo, a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, assumiu esta semana as rédeas do país, sob a tutela dos Estados Unidos.

O ministro do Interior da Venezuela, Diosdado Cabello, informou que a operação americana causou a morte de cerca de 100 pessoas, entre civis e militares.

O Bloco 12, um edifício parcialmente destruído por um míssil americano na cidade litorânea de Catia La Mar, no Estado de La Guaira, a cerca de 35 km da capital venezuelana, Caracas
BBC
O Bloco 12, onde morreu Rosa González com o impacto de um míssil norte-americano

González é um dos sobreviventes. Mas sua tia Rosa, de 79 anos, dormia no quarto ao lado e não teve a mesma sorte.

"Ela começou a gritar 'ai, que dor, que dor no braço'", relembra ele.

"Havia uma máquina de lavar em cima dela. Uma máquina de lavar que, com o impacto, saiu voando e caiu em cima dela."

O sobrinho conseguiu, com dificuldade, retirar a máquina e colocar a tia sentada em uma cadeira. Foi neste momento que Rosa disse que não conseguia respirar.

Desesperados, os familiares levaram Rosa González para um hospital, onde recebeu atendimento de urgência. Mas, apesar de todos os esforços, era tarde demais.

Wilman González em frente ao seu apartamento destruído
BBC
'Veja como ficou... não é justo', lamenta Wilman González, em frente aos escombros do seu apartamento

Com o caixão semiaberto para as pessoas se despedirem, dois dias depois do bombardeio, familiares e amigos velaram Rosa González em uma pequena capela de paredes brancas, em frente a um crucifixo.

Wilman González, agora, mora na casa de um cunhado. Ele para em frente àquele que antes era o seu lar e olha para os escombros, sem conseguir explicação para o que aconteceu.

"Veja como ficou... Não é justo, não é justo este destino", lamenta ele profundamente, enquanto aponta para os restos do Bloco 12.

"A maior parte do projétil ficou no quarto da minha tia."

Ele conta que o governo levou os restos do míssil americano. Mas o trauma da experiência permanece.

"Estamos assustados, nunca estivemos em uma guerra", conta ele, desconsolado.

"Senhores, não à guerra, não à guerra! Não precisamos da guerra, o que precisamos é comer e viver", grita González, com raiva, em frente ao edifício.

Diante de seus olhos, estão apenas paredes demolidas, vidros quebrados, pedaços de objetos pessoais e os restos de uma vida que nunca voltará a ser como era antes.

Velório de Rosa González
AFP via Getty Images
Rosa González morreu com o impacto de um míssil americano na sua casa

Seu vizinho Jorge Cardona, de 70 anos, estava na sala do seu apartamento quando caiu o míssil. Ele ouviu de repente um barulho, e logo veio o impacto.

"Escutei a explosão e tudo saiu voando", relembra ele.

Cardona foi atirado a um corredor.

"A parede do vizinho veio para minha casa e arrancou móveis, levou tudo."

Quando conseguiu reagir, ele começou a sacudir o pó e os escombros que haviam caído sobre seu corpo. Cardona vestiu uma calça rapidamente, colocou os sapatos e foi falar com os vizinhos.

"Pensei que estivessem nos atacando, mas nunca achei que fossem me atacar", afirma ele.

Cardona conta que o míssil "caiu no teto de cima, no corredor e passou pela janela do banheiro dos vizinhos."

"Estamos vivos por milagre. Foi algo que se vive só uma vez na vida e só se vê nos filmes de Hollywood, quando o rapaz se salva."

Para o chão, jogue-se no chão!

Jesús Linares
BBC
'A onda de expansão me lançou ao solo e senti que algo atingia minha cabeça', recorda Jesús Linares

Jesús Linares tem 48 anos. Ele estava dormindo e foi acordado por um zumbido forte.

Sua primeira suposição foi que poderiam ser fogos de artifício das comemorações de Ano Novo.

Sua filha de 16 anos estava dormindo no mesmo quarto. Quando veio o impacto, ela perguntou: "Papai, o que está acontecendo?"

Ele respondeu: "Filha, estamos sendo invadidos."

Naquele momento, ele a retirou da cama e, enquanto seguia a caminho do quarto de sua mãe, sentiu um novo zumbido. Era o míssil que atingiu o edifício, destruindo a entrada principal da casa.

O Bloco 12, localizado muito perto de uma importante base militar venezuelana, a Academia da Marinha Bolivariana, na cidade litorânea de Catia La Mar, Estado de La Guaira, a cerca de 35 km de Caracas
BBC
Pelo menos oito apartamentos foram destruídos pelo míssil

"A onda de expansão me atirou ao chão e senti que algo atingia minha cabeça", ele conta.

"Quando me levantei, gritei para minha filha: 'Para o chão, jogue-se no chão!'"

Descalço, ele passou por cima de pedaços de vidro para procurar sapatos.

Conseguiu empacotar um pouco de roupa para ele, sua filha e sua mãe, de 85 anos.

Depois, entrou no apartamento da sua vizinha e a encontrou caída no chão, totalmente desorientada e com feridas no corpo.

Coronel dos bombeiros com 28 anos de serviços prestados à instituição, Linares percebeu que a mulher precisava de ajuda imediata.

E, com um lençol, improvisou uma bandagem na cabeça e outra na perna, para deter a hemorragia.

Felizmente, sua mãe e sua filha sofreram apenas traumatismos leves.

Recordando o que aconteceu naquela noite, ele conclui que havia aplicado automaticamente o protocolo usado em caso de terremoto.

Isso permitiu que ele resgatasse sua vizinha com vida e se protegesse com sua família.

O Bloco 12, localizado muito perto de uma importante base militar venezuelana, a Academia da Marinha Bolivariana, na cidade litorânea de Catia La Mar, Estado de La Guaira, a cerca de 35 km de Caracas
BBC
Os moradores afetados esperam poder regressar aos seus apartamentos, após as tarefas de reconstrução

Agora, Jesús Linares colabora nas tarefas de reconstrução do Bloco 12 e permanece alojado na casa de um parente, ao lado de sua filha e sua mãe. Sua expectativa é de voltar para casa.

Embora esteja acostumado a lidar com situações difíceis, a queda do míssil no seu edifício deixou sequelas em Linares.

Desde o ataque, ele se levanta todos os dias, perto das 2h da madrugada — o horário em que o míssil atingiu sua residência.

Naquele horário, "volta o filme" e ele recorda o que viveu no dia em que os Estados Unidos atacaram a Venezuela, atingindo a cúpula do poder venezuelano, mas também o Bloco 12.

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