Partido de Bolsonaro pede urgência em projeto de anistia: o que acontece agora?
Agência BBC

Partido de Bolsonaro pede urgência em projeto de anistia: o que acontece agora?

PL apresentou as assinaturas para solicitar urgência. Se pedido for aprovado, projeto de anistia aos envolvidos no 8 de janeiro não precisará passar por comissões, acelerando sua tramitação.

Jair Bolsonaro usando camisa amarela da seleção durante um evento em que está cercado de apoiadores
Reuters
Projeto de anistia aos envolvidos no 8 de janeiro pode beneficiar Bolsonaro, avaliam especialistas

O líder do PL na Câmara dos Deputados, Sóstenes Cavalcante (RJ), protocolou nesta segunda-feira (14/4) um requerimento de urgência à Presidência da Casa para votação do projeto de lei que prevê a anistia a pessoas que participaram de atos contra a eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de 30 de outubro de 2022 em diante.

Na prática, o projeto prevê que a anistia se aplicaria a todas as pessoas envolvidas nos atos de 8 de janeiro de 2023 e, segundo especialistas, também poderia anistiar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que é réu no Supremo Tribunal Federal (STF) por sua suposta participação em uma trama golpista após sua derrota nas eleições de 2022.

Cavalcante, presidente da sigla de Bolsonaro, é um dos principais aliados do ex-presidente.

Em seu perfil no X, ele disse que teria antecipado sua estratégia em relação ao pedido de urgência em razão da suposta pressão do governo federal para tentar impedi-lo de obter apoio à iniciativa.

"Acabo de protocolar o requerimento de urgência do PL da Anistia com 264 assinaturas. Diante da pressão covarde do governo para retirada de apoios, antecipei a estratégia. Agora está registrado e público: ninguém será pego de surpresa", disse Cavalcante em sua página.

O número de 264 apoios é superior às 257 assinaturas para a eventual aprovação do projeto de lei.

Se aprovado, o requerimento de urgência deverá acelerar a tramitação do projeto fazendo com que ele seja posto em votação sem ter que passar por todas as comissões normalmente previstas.

Ainda não há previsão, no entanto, sobre quando o requerimento de urgência será votado.

Em sua página no X, o ex-líder do PT na Câmara, José Guimarães (CE), disse que a decisão sobre a tramitação do requerimento ainda precisa passar pela decisão do presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB).

"O requerimento de urgência para o Projeto de Lei de Anistia não garante sua imediata tramitação. Há mais de mil requerimentos apresentados. Cabe ao presidente da Casa decidir o que será pautado", disse Guimarães.

O projeto de anistia tem sido alvo de uma disputa política acirrada entre governo e oposição há quase dois anos. De um lado, a oposição, liderada pelo PL, vem defendendo a anistia aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro.

A alegação mais recente do grupo é a de que as penas dadas às centenas de pessoas condenadas pela invasão das sedes dos Três Poderes seriam altas demais.

Do outro lado, integrantes do governo Lula e parte de sua base aliada vêm se posicionando contra a medida.

Na semana passada, a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann (PT), chegou a dizer que o Congresso poderia discutir a aplicação das penas aos condenados pelos atos de 8 de janeiro, mas afirmou ser contra a anistia a pessoas que teriam comandado o suposto plano de golpe de Estado.

"Falar sobre anistia ou mediação de pena, ou redução de pena, enfim, em relação a algumas pessoas do 8 de janeiro, eu acho que é plenamente defensável do ponto de vista de muitos parlamentares que estão ali", disse a ministra.

"Talvez a gente até tenha que fazer essa discussão mesmo no Congresso. Agora, o que não pode acontecer é uma anistia daqueles que conduziram o processo do golpe no país."

O que diz o projeto

O projeto da anistia foi protocolado em novembro de 2022 e, inicialmente, buscava conceder anistia a manifestantes que participaram de protestos realizados em 30 de outubro, logo após a derrota de Bolsonaro no segundo turno das eleições daquele ano.

Naquela data, apoiadores inconformados com a vitória de Lula bloquearam rodovias em várias regiões do país, impedindo o tráfego de pessoas e veículos, o que resultou em diversas prisões.

No ano seguinte, em 2023, o texto foi alterado por parlamentares para também incluir na anistia os participantes dos atos do 8 de janeiro. Em linhas gerais, a proposta estabelece:

  • Anistia para todos os que apoiaram, financiaram ou participaram, direta ou indiretamente, das ações ocorridas em 8 de janeiro de 2023, incluindo atividades relacionadas antes ou depois dos atos;
  • Benefício a quem promoveu mobilizações em redes sociais em apoio às manifestações;
  • Aplicação da anistia tanto para condenados quanto para aqueles que ainda estão sendo processados, com a extinção das penas para os já sentenciados;
  • Alterações no Código Penal, como a exigência de comprovação de violência grave contra pessoas nos casos em que há acusação de tentativa de abolir o Estado democrático de direito;
  • Preservação dos direitos políticos de investigados ou condenados;

O texto chegou a ser analisado pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados em 2023, mas não chegou a ser votado.

Como o projeto beneficiaria Bolsonaro

Apesar do discurso oficial da oposição de que o projeto não tem como objetivo o benefício direto de Bolsonaro diante da possibilidade de uma eventual condenação pelo STF, especialistas ouvidos pela BBC News Brasil afirmam que, do jeito que está, o projeto deverá, sim, beneficiar Bolsonaro.

Isto se daria por conta de dispositivos como um inciso do primeiro artigo do projeto: "§ 3º Fica também concedida anistia a todos que participaram de eventos subsequentes ou eventos anteriores aos fatos acontecidos em 08 de janeiro de 2023, desde que mantenham correlação com os eventos acima citados".

Na prática, o texto diz que as pessoas que participaram de eventos antes ou depois de 8 de janeiro de 2023 que tenham conexão com os atos daquele dia também seriam alvo da anistia.

"Do jeito que está colocado, o projeto de anistia abre margem jurídica para beneficiar o ex-presidente", disse o professor de Direito Penal da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) Davi Tangerino à BBC News Brasil em março deste ano.

O professor de Direito Penal da Universidade de São Paulo (USP) Pierpaolo Bottini apontou que um outro trecho do projeto que abriria brechas para beneficiar Bolsonaro. Trata-se do inciso primeiro do artigo 1º do projeto.

"A anistia de que trata o caput compreende os crimes com motivação política e/ou eleitoral, ou a estes conexos, bem como aqueles definidos no Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 – Código Penal", diz o trecho.

Na avaliação do professor, a utilização do termo "conexo" possibilita a inclusão de Bolsonaro no rol de beneficiados pela medida.

"Dessa forma, quaisquer atos que tenham vínculo com 8 de janeiro estariam passivos de anistia. Isso permitiria, em tese, anistiar Bolsonaro", disse Bottini à BBC News Brasil.

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