Tulipa Ruiz volta a Fortaleza com show acústico; leia entrevista

Na programação de aniversário da Caixa Cultural, a cantora e compositora Tulipa Ruiz apresenta uma série de shows em formato voz&violão neste fim de semana

19:36 | Jan. 14, 2026

Por: Lillian Santos
Tulipa Ruiz faz série de shows em Fortaleza neste fim de semana (foto: Elsa Bouillot/Divulgação)

Inspirada por referências familiares, Tulipa Ruiz cresceu em um ambiente em que os mais simples atos de arte a levaram a construir sua própria trajetória artística. Nascida em Santos, com juventude vivida na região mineira e já adulta passando a residir em São Paulo, a artista hoje soma mais de 15 anos de carreira musical e traz em sua bagagem singularidade, autoconhecimento e entendimento de que o mundo pode ser uma grande escola.

A artista retorna à Capital para três shows desta sexta-feira, 16, a domingo, 18, na Caixa Cultural Fortaleza, durante a programação do aniversário de 165 anos de fundação do equipamento cultural.

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Na ocasião, Tulipa se une ao seu irmão, Gustavo Ruiz, e apresenta o show “Noire”, originalmente idealizado durante a pandemia de covid-19 como uma transmissão ao vivo. Um formato inicialmente “experimental”, como Tulipa mesmo define a live, o espetáculo já percorreu cidades brasileiras e outros países.

Apresentação também marcada pela parceria com o irmão, “Noire” equilibra, em sua configuração intimista de se exibir ao público, as conexões humanas – desde as sanguíneas com Gustavo e as referências artísticas advindas de seus pais: o guitarrista Luiz Chagas e a atriz Graziella Ruiz; à multiplicidade cultural que faz Tulipa Ruiz se autodefinir como “tecelã” da arte.

O POVO - “Noire”, o show que você vai apresentar em Fortaleza, foi concebido ainda durante a pandemia, em um período em que o virtual era a forma encontrada para manter as produções artísticas. De que forma você se enxerga apresentando novamente esse espetáculo seis anos após aquela época em que o mundo “parou” e os artistas tiveram que se reinventar na forma de criar e compartilhar suas obras?

Tulipa Ruiz - No começo da pandemia, assim que começaram as lives, o nosso primeiro desafio era a transmissão. A gente não sabia direito como transmitir, como colocar um efeito numa live no Instagram, era tudo muito complicado porque a gente não tinha tido essa experiência antes. Demoramos um pouco para pensar em linguagem, e quando a gente teve essa oportunidade, foi justamente com essa live realizada na Casa de Francisca, uma casa de shows em São Paulo, que convidou a Laís Bodanzky para fazer a curadoria de várias transmissões ao vivo que iriam acontecer naquele espaço e seriam dirigidas por vários cineastas. E eu tive a sorte de a Laís dirigir a minha. 

O POVO - E como foi isso?

Tulipa - Em um primeiro momento, eram esses desafios de transmissão, não sabendo direito como transmitir e a solução disso já bastava: conseguir colocar no ar, conseguir estar ali conectada com o nosso público já era uma vitória. Mas quando, então, conseguimos começar a experimentar, foi um momento importante. Nessa experimentação, fizemos uma live em preto e branco e daí a gente pôde pensar em fotografia, sombra e efeitos. Foi uma live que gostamos de chamar de “cinema”, porque a gente estava nessa proposta de experimentar tanto o som, mas também a imagem. Tudo isso para dizer que depois, quando os shows voltaram, eu segui fazendo as apresentações com a minha banda e esse show acústico, no formato voz e violão, é algo criado nessa transmissão ao vivo. Mas eu tenho um disco de 2017, que se chama “Tu”, que é um disco acústico, então, eu já tinha feito uma turnê nesse formato.

O POVO - E mudou muito da live pro show?

Tulipa - Do que muda de lá para cá, eu acho que a gente está num momento de muita informação, de muita manipulação de informação, e da inteligência artificial fazendo música, produzindo conteúdo... Isso faz com que um show, que é absolutamente orgânico e acústico, de voz e violão, e de presença humana, seja, para mim, a minha tecnologia mais de ponta. Então, daquele período para agora, acredito que isso mudou: a presença, os shows tendem a ficar cada vez mais potentes. A experiência é humana.

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OP - E como você identifica essas mudanças, de seis anos atrás para agora, no seu desenvolvimento artístico?

Tulipa - O mundo tem passado por tantos desafios, tantas barreiras, os últimos anos têm sido muito difíceis. Assim, não só para a classe artística, mas para a humanidade. Então eu acho que a carapaça de geral está mais dura. A gente está mais encorpado. Eu me sinto mais encorpada e mais forte. E essa sensação é tão nítida em mim e no meu último disco, o “Habilidades Extraordinárias”, eu estou com um cajado na arte da capa, porque o cajado demarca essa força, essa certeza de caminho se abrindo também. Acredito que eu estou mais forte, em todos os sentidos, mais forte, como artista, como mulher, como cidadã. Estou mais atenta.

OP - “Noire” também já foi levado para outros países. De que forma você verifica essa diferença na recepção e no acolhimento do público internacional com o do Brasil?

Tulipa - Os públicos são diferentes dentro do próprio Brasil. O público carioca é diferente do público paulistano, que é diferente do baiano e do público cearense. Cada um tem o seu carisma e o seu comportamento. A gente tem a grande sorte de a música brasileira ter esse “soft power” orgânico, e o globo é interessado na produção nacional e percebe a nossa música. Eu tive a sorte de ter uma música sincronizada em um videogame, no FIFA [“Efêmera”, faixa do álbum homônimo lançado em 2010]. Então, quando a gente sai para tocar fora, sempre tem alguém no meu show que foi por conta do videogame. E isso é uma coisa muito legal que acontece por ser um endereçamento de público global. É um público interessante ao qual eu não teria acesso de nenhuma outra maneira que não fosse pelo videogame. E há esse interesse global pela música brasileira, então existem pessoas que vão me assistir só porque sou brasileira, e há pessoas que acompanham a música brasileira e chegam na minha música, além de ter gente que me acompanha já há muito tempo.

O POVO - São diversas formas de interesse...

Tulipa - É interessante o interesse que o mundo tem pela nossa música. Quando a gente vai para Portugal, por exemplo, eu percebo bastante o interesse que eles têm na nossa curadoria de palavras em relação à língua portuguesa. Que é diferente da curadoria de palavras deles, eu vejo que eles ficam meio estupefatos com a nossa poesia. E nos países que não entendem o que a gente está falando, não entendem a nossa língua, é impressionante como a música brasileira comunica, como ela possui a capacidade de se comunicar em melodia, em harmonia, no instrumento. Eu gosto muito desse desafio de comunicar a música para fora, para um público novo.

OP - É uma forma de se manter em desenvolvimento também, seja pessoal ou profissional, certo?

Tulipa - É interessante isso do desenvolvimento como artista, mas existe também uma grande responsabilidade, que é dar conta das coisas que acontecem no Brasil fora do Brasil. Isso é algo que me assustou no começo, mas que agora eu entendo o papel missionário do artista em relação a isso e tenho ficado mais consciente desse papel.

OP - Você e seu irmão, Gustavo Ruiz, têm uma parceria profissional de longa data. Como é esse trabalho em família? Sempre existiu essa troca para além dos laços sanguíneos?

Tulipa - Olha, eu acho que a gente teve a sorte na nossa união de termos uma diferença de idade pequena. Eu sou um ano mais velha que o Gustavo, e a grande sorte nisso tudo foi que crescemos ouvindo na mesma vitrola e ouvindo os mesmos discos na infância e na adolescência. Quando você escuta o mesmo som com uma pessoa, quando você gosta do mesmo disco, esse laço é gigantesco. E escutar os mesmos discos durante a vida fez com que a gente ficasse muito amigo. Eu falo que ele é meu irmão e brother. Então eu fiz outras coisas da minha vida antes de fazer música e o Gustavo optou pela música já desde pequeno. A música demorou para ser uma decisão para mim, só fui decidir isso com 30 anos, quando gravei o meu primeiro disco, e o Gustavo estava lá desde o começo. Ele sempre entendeu, respeitou minhas particularidades e o meu tempo. Eu acredito que uma parceria longeva é quando você respeita a individualidade do outro, a autonomia do outro e a singularidade também. O show “Noire”, que é no formato voz e violão, escancara muito a nossa relação, é um show muito intimista, a gente fica muito perto do público e fica tudo muito legível no som, na melodia, na respiração. O que fazemos nesse momento é muito livre. Eu não preciso respeitar os mapas das músicas como acontece com a banda. Com a banda, tem os combinados para a música ter começo, meio e fim. Com o Gustavo, a música só começa e depois a gente sabe o que vai acontecer, e eu posso ir para qualquer lugar que ele vai estar me acompanhando com o violão. Eu acho que isso só é possível por conta da nossa firmeza nessa irmandade.

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OP - Vocês foram bastante influenciados pelo seu pai, Luiz Chagas, que já tinha essa aproximação com a música. De que forma você avalia essa presença dele desde o início da sua carreira?

Tulipa - Meu pai é 100% responsável pelo fato da gente fazer música. O meu pai foi guitarrista do Itamar Assumpção (1949-2003) a vida inteira. Ele era guitarrista da banda Isca de Polícia, que o acompanhava e tocou com o Itamar até os últimos shows. Só que o meu pai, em paralelo à música, também era jornalista. Então ele passou por redações importantes, como O Estado, Isto É... Ele era crítico musical e eu cresci lendo matérias do meu pai. A gente morava em Minas Gerais e ele em São Paulo e sempre nos mandava discos com os releases, com os videoclipes. Então, além do presente, eu ganhava toda a informação e todo o contexto de cada disco que ele mandava. Ele influenciou muito a gente nesses dois lugares: sendo um guitarrista e sendo jornalista, crescemos nutridos por esses dois ofícios. Quando eu mudei para São Paulo, eu fui fazer faculdade, mas rapidamente eu comecei a fazer música, e logo ele entrou para a minha banda e tocou comigo no mundo inteiro. O meu pai tocou durante bastante tempo com a gente. A presença dele foi fundamental. Ele gravou comigo até meu último disco, o “Habilidades Extraordinárias”, e tem uma música que se chama “Pluma Black” que tem um solo do meu pai magistral.

O POVO - E o lado jornalista?

Tulipa - E esse lado de jornalista também foi bem parceiro, ele quem fazia todos os meus releases e muitas das entrevistas que dei na vida foi ele que respondeu. Ele foi o meu guitarrista e meu ghostwriter por muito tempo. [risos] E meu pai fez a passagem em 2024 e ele faz muita falta. A gente está nesse momento de entender como é manter esse legado. Porque tem muita coisa que ele deixou para a gente finalizar, para a gente organizar e refrescar cada vez mais na memória dele.

OP - Imagino que deve ser também emocionante você e seu irmão reforçarem essa conexão no palco. Algo que era feito em família e agora vocês seguem mantendo o legado do seu pai.

Tulipa - É bem forte essa relação familiar toda, essa grande árvore que também abrange a minha mãe, Graziella Ruiz. Eu cito “Tigresa”, de Caetano Veloso, para definir minha mãe. Quando eu era pequena, eu achava que o Caetano tinha feito a música sobre a minha mãe. Eu realmente acreditava que era para ela. Ela era atriz e trabalhou no (espetáculo de teatro) “Hair”, em uma das primeiras montagens do musical no Brasil. Então há essa influência do som do meu pai e a influência desse lugar de dramaturgia cênica da minha mãe. É também interessante o jeito que eu enxergo o palco como um espaço cênico e de linguagem, é, também, uma influência da minha mãe. É uma árvore bonita mesmo nesse sentido.

OP - Você também atua como artista visual, tendo já feito algumas capas dos seus próprios álbuns. Como você concilia essas duas atuações artísticas? E o que a arte visual, o desenho, a ilustração, significa para você?

Tulipa - Eu comecei a me interessar pelo desenho, por imagem, vendo capas de discos. Quando pequena, eu achava que fazer a capa de disco era a profissão mais legal do mundo. Eu sempre fui ligada em capa, as minhas primeiras experiências sempre foram pensando na “imagem do som”. E, antes de ter o meu primeiro disco, eu já sabia como seria a capa dele. A capa do “Efêmera” existiu muito antes das músicas. Eu gosto de pensar e acompanhar graficamente a minha música.

O POVO - E você desenha sempre?

Tulipa - Eu não tenho desenhado com tanta frequência, mas eu tenho um freela gráfico com o qual colaboro graficamente com a edição brasileira do Le Monde Diplomatique, que é um jornal-revista que eu gosto muito, então já tem mais de 5 anos dessa contribuição. Estou sempre ligada nas minhas “coisas de som”, sempre conectada e acompanhando as outras produções. A minha paixão por capa de disco veio, sobretudo, por conta do grupo Rumo – um grupo do movimento que faz parte da Vanguarda Paulistana, nome que a imprensa inventou para descrever essa cena autoral de São Paulo dos anos 1980. E essa turma tinha capas muito incríveis, feitas pelo Gal Oppido, que era o baterista, e pela Edith Derdyk, que ficava nessa parte gráfica. Eu lembro de ver as capas do Rumo e ter vontade de desenhar, de fazer colagem, bordar, tricotar, então eu acho que o Rumo me levou para um lugar que não era só do desenho assim, mas das artes plásticas na totalidade. Eu gosto muito de tecer, eu até tenho assumido essa palavra em mim, eu sou tecelã. Descobri que dá até para tirar carteira de trabalho como tecelã. Eu estou juntando minhas tramas e organizando meu clipping de tecelã para ter essa carteirinha. [risos]

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OP - A sua série de shows em Fortaleza integra a programação do aniversário de 165 anos da Caixa Cultural. Como está sendo desenvolvido o repertório e o que o público pode aguardar para as apresentações?

Tulipa - Eu estou com muita saudade de tocar em Fortaleza, não vou aí há muito tempo. A gente ainda não fez o show com a banda do “Habilidades Extraordinárias”, então aproveito esse espaço para pedir esse show, porque a turnê termina esse ano e tem que passar em Fortaleza, porque é uma produção especial também. Eu tenho muitos amigos em Fortaleza e acompanho a cena feita aí. É uma cena muito importante para o Brasil, então é uma grande honra tocar em Fortaleza. Também é muito legal ir nesse momento de celebração, o aniversário da Caixa Cultural, esse equipamento cultural importante que oferece muita acessibilidade para o público, que promove a circulação da gente, dos artistas. Então, é fundamental políticas como a da Caixa de fluxo e de apresentação que contemplem a diversidade e que também fortaleçam o trabalho de mulheres autoras. Eu estou feliz de ir com esse show. Iremos tocar alguma coisa do último disco, mas não ele completo. O que o público pode esperar são as músicas do meu repertório mais al dente, com o que elas têm de mais primal escancarado. As letras ficam muito evidentes, as harmonias ficam muito mais evidentes também. Acredito que isso dá motivos para o público perceber as músicas de diversas outras maneiras. Esse show possibilita muitas outras leituras da minha obra.

Tulipa Ruiz apresenta “Noire” em Fortaleza

  • Quando: sexta-feira, 16, e sábado, 17, às 19 horas; domingo, 18, às 18 horas
  • Onde: Caixa Cultural Fortaleza (avenida Pessoa Anta, 287 - Praia de Iracema)
  • Quanto: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada)
  • Vendas: bilheteria presencial e site da Caixa Cultural
  • Mais informações: (85) 3453.2770 e no Instagram @caixaculturalfortaleza