Bridgerton: 4ª temporada mostra série além das futilidades nobres
Crítica | Primeira parte da quarta temporada de "Bridgerton" estreia na Netflix e aprofunda discussões sobre diferenças de classes sociais na alta nobreza londrina do século XIX
05:02 | Jan. 29, 2026
Parecia algo distante e até impensável nas primeiras temporadas, mas Benedict Bridgerton se inseriu, enfim, no mercado dos casamentos. Entretanto, não como da maneira tradicional vista a partir de seus irmãos.
O antes intransigente boêmio se viu desarmado ao encontrar uma misteriosa “Dama de Prata” mascarada em um baile promovido pela mãe. A figura misteriosa era diferente das demais jovens em busca de casamento.
A sensação veio não só pela sua postura, mas também pelas suas origens. Ele só não sabia disso ainda — nem mesmo que o breve encontro deixaria marcas profundas. Disposto a achá-la, ele parte em sua busca.
Benedict acaba atravessando um caminho revelador de profundas desigualdades sociais e etiquetas que ditam quem “deve” ser amado ou não. É por essa trilha que a primeira parte da 4ª temporada de “Bridgerton” anda — e nela estão seus grandes acertos.
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Disponível na Netflix a partir desta quinta-feira, 29, a nova temporada é dividida em duas partes, cada uma com quatro episódios. A segunda parte será lançada em 26 de fevereiro. O POVO teve acesso antecipado aos primeiros capítulos.
Bridgerton: fofocas e status versus desigualdades sociais
Nesta temporada, a trama demonstra maior aprofundamento na diferença de classes da alta sociedade londrina no século XIX. As futilidades da nobreza - como fofocas, aparência e status - perdem espaço para o tratamento dado a pessoas de castas mais baixas.
Essa discussão é trabalhada principalmente a partir de Sophie Baek (Yerin Ha), a tal “Dama de Prata”. A jovem não pertence à alta sociedade e é uma criada que trabalha para Araminta Gun.
Ela é constantemente desprezada e humilhada pela personagem, pondo em evidência como a divisão social se manifesta na prática. Sophie, porém, não é submissa e demonstra convicção e postura firme, não aceitando desaforos.
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Nesse sentido, as atuações são pontos importantes, ao agregarem aos personagens dimensões mais profundas requisitadas por seus papéis.
Bridgerton: "amor proibido" com química e colisão de mundos
A primeira parte da temporada tem como principal gancho o “amor proibido” entre Benedict e Sophie. Quando o destino os coloca cara a cara novamente, ele fica dividido entre o amor pela criada e a fantasia da Dama de Prata, sem saber que ambas são a mesma pessoa.
Esse “amor proibido” demonstra o choque não só entre classes sociais, mas entre visões também. A partir disso, o segundo filho mais velho da família Bridgerton passa a mudar comportamentos.
Diferentemente da temporada anterior, marcada pelo romance entre Colin e Penelope, os novos protagonistas têm química mais convincente e é mais fácil para o público se afeiçoar.
Detalhe interessante é como a desconstrução de sua “perfeição” ocorre também por causa da colisão de mundos.
Por mais que seja carismático, sensível, devoto às artes e seu comportamento seja alheio às convenções sociais impostas pela alta sociedade, Benedict também tem falhas, e elas são evidenciadas no contato constante com Sophie.
Sua postura, porém, demonstra eterna busca por se encontrar e se aprimorar. Características vistas em outras temporadas são exploradas neste novo volume, como a paixão de Benedict pelas artes, seu talento artístico e seu repertório cultural.
Bridgerton: valorização de criadas vira destaque
Uma das principais discussões da nova temporada ocorre em torno da (des)valorização das criadas nas famílias da alta sociedade. Suas funções são sentidas como de grande importância, mas suas personalidades, não.
Afinal, a remuneração não condiz com seus esforços, recebendo quantias insuficientes diante do trabalho que precisam realizar. Entretanto, basta uma sair da residência que o caos é percebido por quem as contratou.
Isso contamina o restante da sociedade e escancara como as pessoas da nobreza não sabem se virar. Mesmo que digam que as criadas “fazem parte de suas famílias”, elas percebem, na prática, que o discurso não se mantém.
Bridgerton: personagens mais velhos também têm desejos
Nesta quarta temporada, novos personagens são apresentados, mas alguns rostos já conhecidos do público têm maior minutagem, permitindo imersão em seus dilemas e desejos.
Isso não ocorre com todos os antigos personagens, evidentemente, até porque vários tiveram momentos de destaque nas demais temporadas - e a obra demonstra optar por dar menos espaço a eles para que novas dinâmicas se sobressaiam.
Entretanto, chamam a atenção os holofotes dados a nomes como Violet Bridgerton, Lord Marcus, Rainha Charlotte e Lady Danbury, alguns dos mais velhos da série.
Há anseios, medos e pudores que atingem o contexto da idade, como, no caso de Violet, o temor por ter um relacionamento mais velho e com o “agravante” de ser viúva.
Tais aspectos demonstram os preconceitos que atravessam gerações e épocas, bem como as mudanças que as acompanham.
O medo da solidão também é discutido e a amizade entre Rainha Charlotte e Lady Danbury é abordada de modo a expandir a maturidade e a lealdade que acompanham uma relação de longa data.
Bridgerton: nova personagem tem papel importante
Quanto aos novos personagens, quem mais se impõe - após Sophie Baek - como peça importante para o desenvolvimento da trama é Lady Araminta Gun (Katie Leung), que chega à história com duas filhas no mercado dos casamentos.
Ela se sente pressionada a casá-las e está determinada a defender sua posição na sociedade. É por sua causa que alterações importantes ocorrem na dinâmica da alta sociedade londrina, desencadeando problemas para diferentes pessoas.
Sua firmeza é uma das características mais notáveis e seu comportamento é mais um exemplo de como as classes sociais são fatores determinantes para o sucesso nessa sociedade.
Não à toa estabelece estratégias para que sua filha mais velha, Rosamund Li, consiga um marido. Posy Li, irmã de Rosamund, acaba negligenciada pela mãe em detrimento da irmã e tem relação mais amigável com Sophie.
Vale destacar que as relações vão além dos interesses amorosos. “Brigderton” mostra dinâmicas interessantes entre familiares, como entre Benedict e sua irmã, Eloise. Eles têm um ao outro como porto de confiança.
Bridgerton: repetições excessivas do que já está estabelecido
Dos aspectos que poderiam ser melhor trabalhados nesta primeira parte, ressalta-se a repetição de explicações do roteiro. Não são poucas as vezes em que os personagens reafirmam explicitamente os problemas de um relacionamento entre diferentes classes sociais, como se o espectador já não tivesse entendido.
É uma característica, porém, que tem atingido séries e filmes recentes imersos na dinâmica dos streamings.
A primeira parte termina com gancho importante para a próxima quanto aos desdobramentos do possível novo casal da temporada. Resta aguardar para compreender como eles se sobressairão.
"Bridgerton" - 4ª temporada
- Quando: primeira parte já disponível; segunda parte estreia em 26 de fevereiro
- Onde: Netflix