O que diz o alerta da Anvisa sobre as canetas emagrecedoras? Médico explica
Em comunicado divulgado nesta semana, Anvisa alerta para risco de pancreatite aguda associada ao uso de canetas emagrecedoras. Entenda o que isso significa e as recomendações
11:13 | Fev. 15, 2026
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu um alerta de vigilância ressaltando os riscos do uso indevido de medicamentos agonistas do receptor GLP-1, as chamadas canetas emagrecedoras.
Divulgado na segunda-feira, 9, o alerta está disponível no site oficial da instituição e explica os riscos envolvidos e as recomendações para uso de canetas com as substâncias dulaglutida, liraglutida, semaglutida e tirzepatida.
Para entendê-lo com mais detalhes, O POVO entrevistou o médico e diretor do Instituto de Medicina Sallet do Departamento de Cirurgia Bariátrica e Metabólica, Dr. José Afonso Sallet, que explicou as orientações para os profissionais da área e as recomendações da Anvisa sobre o uso das canetas:
Canetas emagrecedoras: o que diz o alerta da anvisa?
O alerta emitido pela Anvisa refere-se exclusivamente ao uso de medicamentos injetáveis da classe dos agonistas do receptor GLP-1, que inclui substâncias como semaglutida, liraglutida, tirzepatida e outras. Essas substâncias são os princípios ativos de medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro.
O monitoramento médico foi motivado pelo risco de reações adversas graves, como a pancreatite aguda, que pode incluir formas necrotizantes e fatais. Recentemente, a autoridade reguladora do Reino Unido (MHRA) informou que registrou, entre 2007 e outubro de 2025, 1.296 notificações de pancreatite relacionadas aos usuários desses medicamentos, incluindo 19 óbitos.
No Brasil, de 2020 até 7 de dezembro de 2025, houve o registro de 145 notificações de suspeitas de eventos adversos e seis suspeitas de casos com desfecho de óbito. No entanto, apesar do alerta, não houve mudança na relação de risco e eficácia das substâncias mencionadas. A Anvisa destaca que os benefícios terapêuticos ainda superam os efeitos adversos.
O Dr. José Afonso Sallet explica que, em território nacional, a Anvisa já adotou medidas regulatórias para controlar a circulação das canetas emagrecedoras. Dentre elas:
- Proibição de importação e comercialização de marcas que não possuem registro sanitário na agência
- Bloqueio da fabricação, distribuição, propaganda e uso de produtos sem avaliação oficial de qualidade, eficácia e segurança
- Exigência de prescrição médica com retenção da receita para os medicamentos registrados e autorizados
- Fiscalização contra comércio irregular e propaganda enganosa, especialmente na internet
O alerta reforça a importância de prevenir, diagnosticar e tratar clinicamente de forma adequada os pacientes, evitando o uso indiscriminado das canetas emagrecedoras. “Ou seja, atenção e responsabilidade são fundamentais, sem alarmismo”, diz o médico.
Canetas emagrecedoras: O que é a pancreatite aguda?
A pancreatite aguda é uma inflamação súbita do pâncreas. No contexto desses medicamentos, ela pode ocorrer por algumas vias. As principais são:
O emagrecimento rápido altera o equilíbrio de ácidos biliares e colesterol, podendo formar cálculos (pedras) na vesícula. Se um microcálculo migra e obstrui o canal do pâncreas, pode causar pancreatite.
Pela ação da medicação nas células do pâncreas que aumentam a produção de insulina. O pâncreas é um órgão vital para a digestão e controle da glicemia, e sua inflamação pode levar a complicações sistêmicas.
Sallet reforça que a pancreatite já consta como possível reação adversa nas bulas oficiais desses medicamentos (como semaglutida e liraglutida). Assim, a Anvisa e agências internacionais como o FDA nos Estados Unidos e órgãos europeus estão reforçando nas bulas e orientações médicas esse efeito adverso.
Canetas emagrecedoras: quais são as orientações para os profissionais de saúde?
As principais orientações aos profissionais de saúde são:
- Prescrever tratamentos orientados (tipo de medicamento, dose, tempo de uso) dentro das indicações aprovadas (diabete tipo 2 e obesidade), evitando uso estético. E mediante diagnóstico clínico detalhado por exames e seguimento durante todo o período de tratamento.
- Monitorar e tratar sinais e sintomas em pacientes em tratamento, como dor abdominal intensa, náuseas e vômitos.
- Notificar os casos suspeitos ao sistema de farmacovigilância da Anvisa, contribuindo para o acompanhamento da segurança desses produtos.
Em síntese, A Anvisa reforça a necessidade de uso criterioso, vigilância clínica e notificação ativa para reduzir riscos associados às canetas emagrecedoras.
Canetas emagrecedoras: quais são as recomendações para pacientes?
Dr. José Afonso Sallet explica que recomenda-se que os pacientes sejam acompanhados por uma equipe médica e transdisciplinar especializada, que irá realizar um diagnóstico detalhado da condição clínica por meio de exames laboratoriais e de imagem, responsável para definir o tipo de medicamento, a dose e o tempo de tratamento específico para cada caso.
“É importante que os pacientes sejam acompanhados por equipes médicas capazes de diagnosticar e tratar precocemente sintomas sugestivos de pancreatite, como dor abdominal intensa, náuseas e vômitos, sarcopenias e/ou eventuais desequilíbrios metabólicos e nutricionais”, alerta Sallet.
O médico também reforça que o uso indevido de canetas emagrecedoras para fins estéticos ou sem indicação clínica aumenta os riscos. “Cuidados também são necessários quanto à procedência das medicações, evitando expor-se ao risco de medicações eventualmente adulteradas”, enfatiza.
Serviço
O quê: Denunciar venda indevida de canetas emagrecedoras
Onde: SIA Trecho 5, Área Especial 57, Lote 200, Bloco A, térreo – Brasília/DF (Atendimento presencial de segunda a sexta, das 9h às 17h.
Contato: 0800 642 9782
E-mail: ouvidoria@anvisa.gov.br