"O maracatu é uma criança": desfile marca segundo dia de Carnaval na Domingos Olimpo

Com desfiles de maracatus tradicionais e cordões, a avenida Domingos Olímpio reúne famílias em uma celebração que exalta o patrimônio imaterial de Fortaleza

21:49 | Fev. 15, 2026

Por: Gabriela Almeida
Segundo dia de desfiles de maracatus coloca tradição em destaque (foto: FERNANDA BARROS)

Apesar da sensação de calor e tempo abafado, o clima entre os foliões na avenida Domingos Olímpio era de pura animação neste domingo, 15. Com a presença de muitas famílias, o segundo dia do Carnaval de Fortaleza 2026 começou com os desfiles dos cordões Na Pegada do Frevo, Vampiro da Princesa e As Bruxas, que animaram o público das 16h20 às 18h20.

Em seguida, foi a vez dos maracatus tomarem a avenida. O Leão de Ouro abriu os caminhos, trazendo cor e fortes referências à cultura africana. Nas arquibancadas ou colado às grades, o público acompanhava o ritmo das loas, embalado por versos como: "Rebola as saias pretas de Angola, com oferendas para meu pai Oxalá".

O Az de Ouro entrou na avenida pouco depois das 19h, encontrando um público ainda mais numeroso. O grupo celebrou seus 90 anos com alas em homenagem aos Orixás e aos Pretos Velhos, utilizando uma orquestra de instrumentos para ecoar uma mensagem clara: "A gente brinca por amor a Fortaleza".

Na sequência, o Rei de Paus exaltou a brasilidade, contando a história do País e do próprio maracatu. Já o Vozes da África prestou homenagem a Nossa Senhora do Rosário, fundadora das congadas em Fortaleza. A noite segue com o desfile dos grupos Nação Palmeiras, Nação Fortaleza e Nação Pici, que estendem a festa até a meia-noite.

Intercâmbio de Loas, Axé e blocos de rua

O público deste domingo superou o do dia anterior, acompanhando cada detalhe de perto. Entre os presentes estava a autônoma Natália Laila, de 27 anos. Natural de Salvador, ela curtiu o Carnaval de Fortaleza pela primeira vez ao lado da família.

Apoiada na grade, Natália observava os desfiles com curiosidade, tentando decifrar o significado das vestimentas e personagens. "É diferente de lá [Bahia], lá não tem esse tipo de desfile. É tudo novo", comentou, se sentindo cativada pela estética cearense.

Ao seu lado, os filhos Raylan Silva, 10, e Luis Gabriel, 4, aproveitavam os intervalos para brincar com spray de espuma. O pequeno Luis Gabriel vestia o traje dos Filhos de Gandhy, tradicional bloco de afoxé baiano, mantendo viva a herança de sua terra natal.

Já o mais velho, Raylan, mantinha os olhos fixos na pista, tentando compreender a essência do maracatu. "Eu acho que o maracatu é uma criança", definiu o menino, com a sensibilidade e a licença poética da infância.

Já na arquibancada, a estudante Tereza Carlos, 65 assistia ao desfile atenta. Ela, que toca bateria no bloco de rua Doido é Tu e se apresenta no Rodolfo Teófilo, vem todos os anos prestigiar o cortejo.

Para ela, o Carnaval é um momento onde se esquece dos problemas. "A gente deixa tudo em casa e vem, pra animação", diz.

Maracatus tradicionais atraem maior público

Graça Martins, gerente da célula de Patrimônio Imaterial da Secultfor, explica que este domingo de Carnaval reúne os grupos mais tradicionais, o que naturalmente atrai mais pessoas.

"Normalmente, no segundo dia, temos um público maior que no primeiro, embora ontem também tenhamos ficado satisfeitos. São maracatus com 60, 90 anos de história. Isso traz um público muito fiel para a avenida", pontua.

O Maracatu Az de Ouro, fundado em 1936, é o pioneiro e um dos mais antigos em atividade no Ceará. Além dele, o Vozes da África e o Nação Pici, campeões de 2025, também são grandes destaques.

Entretanto, Graça reforça que todos os dias são importantes para a salvaguarda da cultura do Carnaval de rua fortalezense. "É uma forma de fortalecer uma manifestação tão bonita, registrada como patrimônio imaterial da nossa cidade".

Colaborou Gabriela Almeida