Mancha escura volta a aparecer na Praia do Mucuripe
Cerca de 320 imóveis nos arredores do riacho Maceió não são conectados ao sistema de esgotamento. Fiscalização em janeiro autuou condomínio da Beira Mar por ligação clandestina
06:00 | Jan. 29, 2026
Após o início do período chuvoso em Fortaleza, manchas escuras voltaram a aparecer no mar das praias da Capital. Nessa terça-feira, 27, O POVO registrou a água em tom escurecido próximo à galeria pluvial do Parque Bisão, onde passa um trecho do riacho Maceió. O odor forte era sentido no calçadão da Praia do Mucuripe.
O Coletivo Nossa Iracema, por meio de vídeos no Instagram, já havia mostrado a poluição no local. O ativista André Comaru postou ainda o acúmulo de lixo saindo da galeria pluvial próxima ao espigão da avenida Rui Barbosa, em outro trecho da orla.
Problema antigo, a situação veio à tona em anos anteriores, mobilizando fiscalizações que encontraram mais de 200 imóveis com ligações clandestinas de esgoto nas galerias que deveriam receber apenas água da chuva, em 2024.
Em nota, a Agência de Fiscalização de Fortaleza (Agefis) informou que os registros de água escura e resíduos próximos ao espigão da Rui Barbosa podem estar relacionados “ao arraste de sedimentos, areia e materiais acumulados nas vias, conduzidos pelas galerias pluviais até os pontos de deságue no mar”.
A Agência salientou que não necessariamente se trata de lançamento de esgoto, embora não descarte a possibilidade e continue fiscalizando as áreas.
Em 7 de janeiro, as fiscalizações resultaram na autuação de um condomínio na avenida Beira Mar. A unidade estava lançando efluentes na galeria de águas pluviais e ficou sujeita à aplicação de multa simples que pode variar de R$ 303,75 a R$ 48.600, conforme o Código da Cidade.
Já a Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) afirmou, também por nota, que a mancha é causada “pelo uso indevido da rede de drenagem”.
Na região do riacho Maceió, a Cagece afirma que mesmo com rede coletora disponível, cerca de 320 imóveis nos arredores do corpo d'água ainda não estão conectados ao sistema de esgotamento sanitário.
Fiscalizações em 2025 resultaram em 36 notificações e cinco autuações
Conforme a Agefis, por meio de cooperação técnica entre a Agefis, a Cagece e a Ambiental Ceará, firmado em 2025, foram realizadas 276 fiscalizações no ano passado, resultando em 36 notificações e cinco autos de infração apenas na região da Praia de Iracema.
As ocorrências envolveram lançamento de água servida, ligação de esgoto na rede de drenagem, utilização inadequada da rede de esgoto, extravasamentos e imóveis não interligados à rede pública.
A Cagece afirmou ainda que realizou 55 testes de fumaça para identificar ligações irregulares. Além disso, foram feitas 5 mil vistorias técnicas a imóveis para sensibilização e regularização das ligações ao esgotamento sanitário, bem como 750 visitas aos moradores da orla que possuem rede apta à conexão dos imóveis.
A Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma) também foi demandada pela reportagem, mas afirmou que seria contemplada pela nota da Agefis.
Esgoto na praia causa danos à saúde e banho de mar deve ser evitado
A descarga de esgotos na praia representam um risco à saúde pública. Oscarina Sousa, professora do Instituto de Ciências do Mar (Labomar), reforça que o contato com água e a areia contaminados pode causar gastrointerites, viroses, doenças respiratórias e cutâneas. Crianças, idosos e pessoas imunocomprometidas podem ser mais afetados.
"Essa descarga de esgotos via galerias de drenagem ou outras fontes pontuais representam risco ao ambiente e prejuízos para as atividades econômicas ligadas ao ambiente marinho costeiro como pesca, esportes aquáticos e turismo na modalidade sol e praia", afirma.