Da literatura à espiritualidade, as vozes que ecoam no Parque do Cocó

Na manhã do domingo, 25, o Parque Estadual do Cocó reuniu grupos com diferentes propósitos, entre textos literários e práticas espirituais

18:05 | Jan. 25, 2026

Por: Penélope Menezes
Encontro Leituras na Praça, no Parque do Cocó, projeto de extensão da Universidade Federal do Ceará (UFC) com o objetivo de incentivar a leitura e as atividades socioculturais nos espaços públicos (foto: Samuel Setubal / O POVO)

Marina Colasanti e Guimarães Rosa estão no Parque Estadual do Cocó. A Fortaleza que os recebe na manhã do domingo, 25, vê os dois escritores refletidos nos papéis distribuídos pelo projeto “Leituras na Praça” — serão reavivados, claro, quando alguém começar a ler “Eu sei, mas não devia”, de Colasanti, e “A terceira margem do rio”, de Rosa.

A iniciativa de transformar as praças e parques da Capital em testemunhas dos “renascimentos” literários completa uma década de atividades. Nesse meio tempo, Anton Tchekhov sai da Rússia, com os seus “Olhos Mortos de Sono”, e vira cearense por um dia; ou Lygia Fagundes Telles é vista nos primeiros parágrafos de “Pomba enamorada ou uma história de amor”.

O projeto itinerante de extensão da Universidade Federal do Ceará (UFC), levando mensalmente textos literários nas manhãs de domingo, tem o objetivo de estimular a própria população local a frequentar os espaços escolhidos e incentivar a leitura.

“A riqueza da participação de várias pessoas, dialogando com o mesmo texto, é enorme. A gente aprende tanta coisa que de repente aquele texto nunca tinha suscitado em nós”, reflete Maria Inês Pinheiro Cardoso, professora do Departamento de Letras Estrangeiras da UFC e responsável pela condução do projeto.

Se as praças podem normalmente ser vistas (e visitadas) por suas atividades esportivas, a proposta de Cardoso é de uma requalificação. Ali, entre as crianças e os atletas amadores, nascem intervenções culturais, que ampliam os usos do espaço e incentivam a participação ativa dos transeuntes.

A própria ideia inicial do projeto pressupõe outro renascimento simbólico — foi criado a partir da celebração dos 400 anos da morte de Miguel de Cervantes, em 2016. O escritor espanhol é conhecido pela obra “Dom Quixote”, mas “revivê-lo” significaria ir além.

“Nós levávamos as ‘Novelas Exemplares’ para as praças e o público se surpreendia muito, sobretudo aquele público transeunte que não tinha familiaridade e não sabia que aquele texto que estava sendo lido era de Cervantes”, relembra Maria Inês. “Todo mundo entendia, falava sobre e se surpreendia, inclusive, quando descobria que aquela novela tinha sido escrita por Cervantes no século XVII”.

O bolsista do projeto, Vitor Mendes da Silva, 27, encontrou nas atividades a chance de conectar o mundo acadêmico, representado pela universidade, com a comunidade.

“Foi muito bom nesse sentido, porque era algo que eu procurava e envolvia literatura, envolvia a cidade. Eu sempre gostei de equipamentos culturais, ir pros cantos, pras praças, ver o movimento de cultura na cidade, mas eu sentia que isso era uma coisa que faltava dentro da universidade”, diz.

Já a estudante Stefany Lessa, 27, que atua como voluntária do “Leituras na Praça”, reforça que o projeto foi uma oportunidade de expandir o seu contato com outros nomes da literatura e aprender mais sobre os autores brasileiros em seu tempo livre, já que os encontros acontecem no domingo.

Foi ler Marina Colasanti durante a reunião atual, a última do semestre até o retorno em abril, que deu à Stefany a chance de reviver a memória de uma figura querida: o irmão. É ele que aparece nas entrelinhas de sua história.

“Meu irmão faleceu recentemente, no dia 10, por overdose de drogas. E aí eu tive que lidar com traficantes, tive que lidar com a polícia, reconhecer o corpo no IML… E eu falo isso porque é minha realidade, é uma coisa que já vivi”, relata. “Hoje eu vejo a universidade como uma fuga disso, né? Não estou dizendo que não dói, só estou dizendo que eu me acostumei. E o texto fala exatamente sobre isso, sobre você se acostumar com as coisas sem perceber e como isso impacta na sua vida”.

Serviço - Leituras na Praça

Os encontros do projeto “Leituras na Praça” normalmente acontecem no último domingo de cada mês. O retorno das atividades em 2026 está programado para abril.

As datas, os locais e os textos escolhidos são atualizados por meio do perfil @leiturasnapraca (Instagram)

Da literatura à espiritualidade: a outra voz que ecoa no parque (um ponto de vista)

A repórter estava perdida. Aguardava o início das atividades do projeto “Leituras na Praça”, mas a falta de habilidade, o Sol refletido na tela do celular e um parque rodeado de famílias foram o suficiente para que a limitada capacidade de localização fosse extraviada por completo.

Sentou, olhou ao redor e esperou que, no ponto errado (que acreditava estar certo), alguém a interpelaria com o local preciso do encontro. Quem chegou foi Danielle Araripe, oferecendo “uma arte de purificação e elevação espiritual”: Sukyo Mahikari.

Fundada em 1959, a prática espiritual de origem japonesa prevê um estado de equilíbrio entre espírito, mente e corpo. No Parque do Cocó, a atividade proposta era a “imposição da mão”, com o objetivo de transmitir a “Luz Divina” pela palma da mão.

“A gente sempre vem aqui para transmitir essa energia nas pessoas de forma voluntária, para que elas possam também sentir esse benefício, esse prazer, parar um pouquinho e trazer um pouco mais de concentração, de paz espiritual”, explica Danielle, que é psicoterapeuta e atua como voluntária na organização.

É na breve interação que um ponto em comum entre o grupo e o projeto “Leituras na Praça” — que ainda não havia sido entrevistado naquele momento —, se fez presente: ambos se encontram, geralmente, no último domingo de cada mês.

A imposição de mãos é feita e dura por volta de sete minutos. Outros transeuntes, curiosos pelos gestos, pelas cadeiras e pela prática, querem saber como participar.

“Antes as pessoas ficavam meio: ‘ah, eu não sei o que é isso’. Mas quem vem para cá, pro parque, vem para sentir algo maior, pelo bem-estar, para trabalhar o seu lado físico, sempre vem para querer melhorar de vida e trazer um bem-estar maior”, reflete Danielle Araripe.

Sai a repórter, talvez 10 ou 15 minutos depois da imposição, a procurar o lugar correto para o projeto “Leitura na Praça”. Encontrou.