Dia de Oxóssi: conheça o orixá das matas e guerreiro de uma flecha só

Celebrado no dia 20 de janeiro, Oxóssi é símbolo de sabedoria, fartura e proteção nas religiões de matriz africana

06:00 | Jan. 20, 2026

Por: Carlos Daniel
No sincretismo religioso, Oxóssi é associado a São Sebastião e a São Jorge (foto: AURÉLIO ALVES)

No dia 20 de janeiro, a Igreja Católica celebra a festa de São Sebastião. Na mesma data, a umbanda e o candomblé reverenciam Oxóssi, orixá da caça, das matas e da fartura. Conhecido como o “guerreiro de uma flecha só”, por sua precisão e sabedoria, Oxóssi também é associado a fartura e proteção nas religiões de matriz africana.

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Para compreender melhor os aspectos que envolvem essa importante divindade, O POVO conversou com o professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e doutor em Filosofia Antônio César Ferreira da Silva. Além de filósofo, César é praticante do candomblé há mais de 20 anos e filho de Oxóssi.

Origem do culto e o sincretismo religioso

O nome Oxóssi vem do yorubá e significa "guardião popular" ou “Caçador popular”. Seu culto tem origem em Ketu (ou Queto), antigo reino africano de onde vieram muitos dos povos escravizados trazidos ao Brasil. No Brasil, o orixá foi sincretizado principalmente com São Sebastião, no Rio de Janeiro, e também com São Jorge, em algumas regiões, como na Bahia.

O sincretismo surgiu como estratégia de resistência: ao associar os orixás a santos católicos, os povos africanos puderam manter vivas suas crenças e cultos em meio à repressão religiosa.

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“Foi a forma que os povos escravizados encontraram para continuar reverenciando seus ancestrais dentro do cristianismo, pois as religiões africanas em sua maioria são de culto aos ancestrais”, explica César.

Segundo ele, até hoje elementos do catolicismo permanecem presentes em práticas do candomblé e da umbanda, como vestimentas brancas, cantos e rituais, fruto dessa construção histórica.

Oxóssi: qual é a história do orixá?

Uma das narrativas mais conhecidas sobre Oxóssi conta que uma comunidade africana era ameaçada por um pássaro gigantesco enviado pelas Yami Osoronga, figuras associadas às feiticeiras. Diversos guerreiros tentaram derrotar a criatura, sem sucesso. Oxóssi, então, foi chamado e, com apenas uma flecha, conseguiu eliminar o perigo e devolver a paz ao povo.

Por esse feito, tornou-se conhecido como o guerreiro de uma flecha só. Como recompensa, recusou privilégios recebidos do rei e pediu que o prêmio fosse dividido com outros caçadores, reforçando sua ligação com o espírito coletivo

Segundo Cesar, essa história fundamenta três atributos centrais de Oxóssi: provedor, por garantir alimento e fartura; protetor, por defender a comunidade; e guerreiro, que sempre luta ao lado de seu irmão Ogum.

Símbolos de Oxóssi e seus significados

O principal símbolo de Oxóssi é o ofá, o arco e flecha. Ele representa a precisão, a sabedoria e a capacidade de prover alimento por meio da caça. Também simboliza o trabalho, a abundância e a sobrevivência da comunidade.

Sua cor é o verde escuro, em associação as matas e as florestas, podendo também ser representado pelo azul turquesa, em algumas tradições.

Outros elementos associados ao orixá são as folhas, os frutos, os grãos e as sementes, que remetem à fartura e à ligação profunda com a natureza. Esses símbolos aparecem também nos pedidos feitos pelos fiéis, geralmente relacionados a emprego, sustento, bem-estar e proteção.

Características de Oxóssi

Oxóssi é descrito como um orixá sábio, observador e atento aos detalhes. Nada passa despercebido ao seu olhar. Ao mesmo tempo, é alegre, festivo e profundamente ligado à celebração da vida.

“Ele é um orixá da vida, da alegria de viver”, afirma César. Essa combinação de sabedoria e leveza faz de Oxóssi uma divindade associada tanto à estratégia quanto à felicidade.

Características dos filhos de Oxóssi

Segundo a tradição, os filhos de Oxóssi carregam traços marcantes do orixá. São pessoas ágeis, perspicazes, inquietas e inteligentes, com grande capacidade de antecipar situações e encontrar soluções rápidas.

“O pensamento dos filhos de Oxóssi é veloz. Eles conseguem perceber o que está por vir antes mesmo que os fatos se consolidem”, explica o professor. Essa energia também se manifesta em uma postura ativa diante da vida, marcada pela busca constante e pela iniciativa.

Dia da semana e principais oferendas

Em muitas casas de candomblé, especialmente na Bahia, Oxóssi é reverenciado às quintas-feiras. Seus alimentos rituais estão diretamente ligados à ideia de fartura e segurança alimentar.

As principais oferendas incluem milho, símbolo de abundância por conter muitas sementes, além de feijão, arroz e mel. Esses elementos representam prosperidade, bem-estar coletivo e sustento, valores centrais na simbologia do orixá.

Como se conectar e pedir bênçãos a Oxóssi?

Para Antônio César, o primeiro passo para se conectar com Oxóssi é a fé, livre de preconceitos e intolerância religiosa. Ele destaca que, apesar dos avanços, adeptos das religiões de matriz africana ainda enfrentam discriminação.

“É muito complexo as pessoas saberem lidar com uma religião afrodescendente em um país que teve séculos de escravização e perseguição religiosa. O preconceito e discriminação ainda estão presentes”, afirma.

A conexão com o orixá também passa pelo contato com a natureza. As matas, os rios, as plantas e os animais são espaços de força espiritual para Oxóssi. É na natureza que se encontram as folhas medicinais, os frutos e os grãos que simbolizam cura do corpo, da mente e da alma.

“É na energia da natureza que se acessa a sabedoria da vida”, afirma. Para os devotos, caminhar em áreas verdes, respeitar o meio ambiente e reconhecer suas raízes ancestrais são formas profundas de se aproximar do orixá e buscar suas bênçãos.

A gira de Oxóssi nos terreiros de Fortaleza

Em Fortaleza, a celebração a Oxóssi ganha forma por meio das giras, rituais centrais da umbanda em que ocorre a manifestação espiritual dos orixás e entidades. Em diferentes bairros da Capital, terreiros se organizam para receber fiéis e visitantes, mantendo tradições e fortalecendo ações comunitárias.

No Terreiro de Umbanda e Caridade Zé Pelintra das Almas, localizado no bairro Bom Sucesso, a gira de Oxóssi é uma das mais aguardadas do calendário religioso. Fundado há cerca de dois anos, o terreiro conta hoje com dez filhos de santo de cabeça lavada, desses, cinco são filhos de Oxóssi. Nas giras abertas, chega a receber entre 30 e 40 pessoas.

Segundo o dirigente espiritual da casa, Pai Grangeiro, Oxóssi exerce forte influência dentro dos terreiros de umbanda. “A grande maioria dos filhos costuma ser de Oxóssi. Ele é uma entidade muito presente, muito forte dentro da umbanda e do candomblé”, afirma. 

Já no Terreiro de Umbanda Zé da Virada e Maria do Bagaço, dirigido por pai Allex Fiorino, no bairro Messejana, a dimensão da gira é ainda maior. A casa reúne aproximadamente 250 filhos de santo, dos quais cerca de 40 são filhos de Oxóssi. Em reuniões abertas ao público, o terreiro chega a acolher até 880 pessoas.

Preparação espiritual e preceitos

Antes da gira de Oxóssi, os terreiros seguem rituais de preceito, cujo objetivo é preparar o corpo e o espírito dos médiuns. No Zé Pelintra das Almas, por exemplo, os filhos passam por períodos de resguardo que incluem abstinência de bebida alcoólica, relações sexuais, festas e consumo de carne vermelha, além da realização de banhos de ervas.

“A ideia é manter o corpo limpo, equilibrado energeticamente, para que o espiritual possa trabalhar”, explica Pai Grangeiro. Segundo ele, a carne vermelha, por exemplo, carrega uma carga energética intensa, o que pode interferir na sensibilidade mediúnica durante os rituais.

No terreiro de Pai Allex, os preceitos seguem a mesma lógica: preservar o corpo físico e espiritual para permitir uma conexão mais harmônica com o orixá durante a gira.

O que acontece durante a gira de Oxóssi

A gira é o momento em que Oxóssi e suas falanges (outros espíritos) se manifestam por meio da incorporação mediúnica. O ritual envolve toques de atabaque, cânticos específicos, danças rituais, defumações e o uso de ervas, criando um ambiente simbólico que remete às matas — espaço sagrado do orixá.

Durante a gira de Oxóssi, são realizadas oferendas com frutas, milho, vinho e outros alimentos naturais, símbolos da fartura. No terreiro de Zé da Virada, após o ritual essas frutas são encaminhadas para os projetos sociais da casa.

Outro elemento central é acender velas, que, segundo Pai Aléx, funcionam como uma espécie de “telefone espiritual”, auxiliando na conexão com Oxóssi e nos pedidos de luz, proteção e abertura de caminhos.

A dimensão da gira no combate ao preconceito

Além do aspecto espiritual, as giras de Oxóssi cumprem um papel social no combate a intolerância religiosa. Segundo pai Granjeiro, tornar essas celebrações públicas permite desmistificar a religião, que historicamente é estigmatizada desde a época da escravidão.

“Costumo falar no terreiro que a gente combate o preconceito com informação. A umbanda é uma religião como qualquer outra; buscamos ser um lugar de paz, de acolhimento e de cura. Não tem nada de errado em cultuar nossa ancestralidade. A maldade está no coração do homem e não na espiritualidade”, afirma.