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As facções, a queda nos homicídios e a negação: a história se repete

00:00 | 11/02/2019

Secretário da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), André Costa utilizou as redes sociais, na semana passada, para refutar qualquer influência da trégua declarada entre facções criminosas, durante o atual ciclo de atentados, sobre a redução dos homicídios no último mês de janeiro.

Nos primeiros 31 dias do ano, 192 pessoas foram mortas no Ceará. Houve queda de 60% nas ocorrências, em comparação ao igual período de 2018, quando 482 assassinatos foram registrados. Costa comemorou a diminuição e atribuiu o resultado - exclusivamente - às "ações enérgicas do Estado, dentro e fora dos presídios". Mas não parou por aí.

O secretário chamou de "falsos especialistas" aqueles que atribuem uma parcela desse resultado ao cessar fogo temporário entre facções, que interromperam a disputa por territórios para o tráfico de drogas, priorizando a "Guerra ao Estado", numa reação à repressão nos presídios. Para Costa, essa análise é "irresponsável", "desmerece e desonra" o trabalho dos profissionais da Segurança Pública.

A negação do secretário, no entanto, chega a ser curiosa. Em 2017, o ano pós-pacificação entre facções no Ceará, para analisar o recrudescimento dos homicídios, o titular da SSPDS criou a Comissão de Estudo do Perfil das Vítimas de Crimes Violentos Letais e Intencionais. À época, buscava descobrir a motivação média dos assassinatos no Estado. Ele queria entender o que havia levado ao aumento do número de mortes - 5.134 somente naquele ano.

E para a surpresa de Costa, e somente dele, a conclusão do grupo foi que houve uma intensificação da guerra entre as organizações criminosas. Ora, o estudo confirmou aquilo que os moradores das comunidades dominadas por traficantes há muito já sabiam: a guerra entre facções, interrompida em 2016, havia sido retomada numa escala ainda maior.

A elevação dos homicídios, portanto, era somente um dos nefastos resultados dos acertos que haviam chegado ao fim. Vale lembrar que, enquanto vigente, a pacificação culminou ainda no surgimento de uma facção "doméstica", a Guardiões do Estado (GDE). Juntamente com ela, vieram os crimes bárbaros, como as decapitações e carbonizações, que se tornaram comuns na periferia de Fortaleza.

Isso significa, portanto, que na avaliação do secretário, quando em guerra, as facções influenciam nos homicídios. E em período de trégua, não. A postura é confusa, mas não inédita. Ainda em 2016, quando comprovadamente as facções haviam instaurado a paz às avessas no Ceará, o governador Camilo Santana (PT) também negou a existência dos acertos e a influência na queda dos homicídios. "Quer dizer, então, que o trabalho da Polícia não vale de nada?", questionava.

O discurso era endossado pelo então secretário da Segurança Delci Teixeira, que durante o 6º ciclo de atentados no Estado, enfrentado em abril daquele ano, reclamou da "glamourização" dos criminosos responsáveis pelos ataques. Para ele, não passavam "pirangueiros" pintados de "Al Capones".

Até que naquele mesmo mês, durante a operação Vera Pax (Verdadeira Paz), o Ministério Público do Ceará (MPCE) prendeu dez membros de organizações criminosas que estariam por trás dos arranjos de pacificação. A realidade estava escancarada. Com a divulgação, não havia mais como negar os acertos - ou não, dada a postura de Costa.

No texto publicado, o secretário fez ainda uma provocação: "Não precisa ser especialista para responder à seguinte pergunta: você faria acordo com quem matou sua esposa, seu pai, sua irmã ou seu filho? A resposta é óbvia demais". Nem tanto. Depende de para quem a pergunta é dirigida. No caso dos criminosos, membros de facções, há interesses outros, hierarquia e obediência. Tanto que, durante cerca de um ano, a resposta para essa pergunta foi um sonoro "sim".

Costa, contudo, não deixa de ter razão. Obviamente, não se deve atribuir a queda dos homicídios em janeiro somente à trégua entre as facções. E isso nunca foi cogitado, pelo menos nas reportagens publicadas pelo O POVO.

O esforço das forças da Segurança Pública - e aqui estão inclusas as tropas do Ceará, estados parceiros e Governo Federal - deve ser reconhecido, é claro! Muito embora o aumento da ostensividade tenha um impacto maior na redução dos crimes contra o patrimônio e na elevação da sensação de segurança, a atuação desses agentes, inegavelmente, resultou na queda dos crimes contra a vida, sendo os envolvidos dignos
de agradecimentos.

Porém, negar de todas as maneiras a influência da trégua nesse resultado, diante do patamar da consolidação das facções no Ceará, e do já demonstrado poder de articulação desses criminosos, vide a duração do atual ciclo de atentados, soa desnecessário. Neste caso, sim, há desrespeito e ofensa à inteligência dos próprios policiais,
especialistas que são.

Thiago Paiva