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Por que as denúncias contra Moro instalam uma crise na narrativa oficial?

11:56 | 13/06/2019
FORTALEZA, CE, BRASIL, 21-10-2018: Um boneco de ar representando o juiz Sérgio Moro foi erguido na praça Portugal. Manifestação pró Bolsonaro aconteceu na Praça Portugal. Manifestantes ficaram no entorno da Praça balançando bandeiras e dançando com músicas em alusão ao candidatodo PSL.   (Foto: Júlio Caesar/O POVO)
FORTALEZA, CE, BRASIL, 21-10-2018: Um boneco de ar representando o juiz Sérgio Moro foi erguido na praça Portugal. Manifestação pró Bolsonaro aconteceu na Praça Portugal. Manifestantes ficaram no entorno da Praça balançando bandeiras e dançando com músicas em alusão ao candidatodo PSL. (Foto: Júlio Caesar/O POVO)

Além das querelas jurídicas que baseiam a crise gerada pelo vazamento das mensagens trocadas entre o ministro da Justiça, Sergio Moro, e integrantes da Lava Jato, há um aspecto interessantíssimo neste caso que não tem recebido a atenção devida.

Trata-se da crise dramatúrgica que o episódio causou na narrativa construída em torno do ex-juiz federal. E das consequentes tentativas de resgatar a hegemonia desta narrativa inicial. Uma batalha que está em curso desde que o vazamento veio à tona, domingo último (9).

A partir do momento em que surgiu como um paladino da Justiça, há pouco menos de cinco anos, a persona de Moro foi sendo construída paulatinamente no imaginário popular dentro do arquétipo do herói clássico, quase messiânico. Um homem impoluto, investido de uma missão salvadora, disposto aos maiores sacrifícios pessoais para cumpri-la.

À medida em que o País foi afundando na polarização que hoje o caracteriza, mais essa persona heroica e messiânica foi sendo alimentada pelo grupo que ora ocupa o poder. Não à toa, Moro foi representado alegoricamente nas manifestações pró-impeachment de Dilma Rousseff (PT) como o Super-Homem, ou seja, um herói acima do humano.

A revelação que o ex-juiz teria se valido de expedientes ilegais e condenáveis ao longo de sua jornada não só o descaracteriza como herói, do ponto de vista mítico, como revela sua condição humana e consequente falibilidade - que nem é mais uma possibilidade e sim um fato concreto e exposto. Daí a crise na dramaturgia de seu personagem. O encanto de sua característica sobrenatural está ameaçado e pode ser quebrado a qualquer momento (se já não o foi).

Para que se entendam as consequências diretas desse risco iminente e, ao mesmo tempo, alcance-se o que está verdadeiramente em jogo, é preciso primeiro passear pela lógica que caracteriza a polarização. Isso, a partir do ponto de vista da disputa de narrativas que se trava hoje no País.

Neste campo de batalha, que é menos imaginário que o desejável, há dois grupos opostos, ambos baseados em certezas inequívocas. E o Bem e o Mal estão disputando o domínio, não só simbólico, deste território. Diferentemente dos relatos clássicos, aqui a percepção do Bem e do Mal não está previamente estabelecida. Ela varia de acordo com a perspectiva adotada. Os que estão à direita do tabuleiro vêm a encarnação do Mal nos que se localizam à esquerda. E vice-versa. Ou seja, o Outro, cujos valores e visão de mundo se contrapõem aos meus, é inimigo, não em potencial, mas declarado.

Dizer que o campo de batalha é menos imaginário que o desejável deve-se ao fato de que este discurso belicista foi levado ao extremo nas últimas eleições presidenciais. Aos partidários da esquerda, Bolsonaro representava a barbárie. Aos seguidores da direita, a possibilidade do retorno da esquerda ao poder anunciava o apocalipse.

A eficiência desta estratégia foi tamanha para Bolsonaro e Cia que o grupo não se desfez dela, mesmo vencidas as eleições. Pelo contrário, a sensação permanente de risco é alimentada e difundida pelo governo, seus partidários e aderentes. Se há um pilar no plano simbólico que mantém este governo em pé é a percepção que estamos em meio a uma guerra e que o outro é inimigo. E este inimigo representa uma ameaça concreta ao equilíbrio e bem-estar do “reino”.

A premência do risco constante de ser derrotado pelo outro se tornou questão de sobrevivência para os que agora ocupam o poder. Afinal, é sabido, o Bem só existe porque há o Mal. Em não existindo o Mal (e seus perigos terríveis) qual razão de ser teria o Bem?

Não existe outra explicação para a ronda constante do fantasma de Lula, da Venezuela, de Cuba, ou da iminente volta da esquerda na fala do presidente e dos que os cercam, quase como se um mantra fosse.

Uma excelente aplicação desta lógica para fins de domínio territorial pode ser conferida no livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo, do português José Saramago, na passagem em que Deus e o Diabo discutem longamente a bordo de um barco, após Jesus ser comunicado de sua missão na Terra. A ameaça constante de ataque também é utilizada como recurso de controle de uma comunidade no filme A Vila (2004), dirigido pelo indiano naturalizado estadunidense M. Night Shyamalan.

É justamente neste cenário que ao super ministro da Justiça cabe, ou caberia, protagonismo ímpar. Pretenso avatar da probidade e da lisura, Moro ocupa lugar de honra na hoste governista em sua missão de impedir os ataques do Dragão da Maldade. Mas como fazê-lo agora se o papel de Santo Guerreiro parece não mais lhe caber?

Estabelecida a crise na narrativa predominante é curioso observar como os sectários de Moro operam para contorná-la. Até agora, todas as estratégias adotadas partem de uma mesma raiz: a minimização do suposto erro cometido conscientemente pelo herói.

A primeira tática foi apostar na versão que não era Moro que estava sob ataque e sim a Lava Jato, numa tentativa de mimetizá-lo à instituição, para que assim ganhasse um salvo conduto. Como se a argamassa da força tarefa pudesse cobrir as arranhaduras provocadas pela revelação da humanidade do mito.

A segunda foi desqualificar o arauto das falhas do herói. A homossexualidade de Glenn Greenwald, jornalista norte-americano radicado no Brasil responsável pelas publicações dos diálogos vazados entre Moro e Dallagnol, passou a ser bradada em qualquer comunicação dos partidários do governo. Como se essa característica pessoal invalidasse o conteúdo por ele descoberto ou lhe anulasse a gravidade.

A terceira é quase que natural, tendo em vista a lógica bélica que domina a narrativa: associar a uma emboscada das tropas do Mal (representadas pelo Psol e pelo PT) a tentativa de atingir o herói. E aí, o fato de Greenwald ser casado com o deputado federal David Miranda (Psol-RJ), que assumiu a vaga deixada pela renúncia de Jean Wyllys, é o elemento que daria a verossimilhança requerida para sustentar a versão.

É notável que o objetivo de todas elas é recuperar o status mítico do herói, porque ele é fundamental para a permanência da narrativa construída e mantida pelos que estão no poder. Esta é uma questão estratégica, a hegemonia sobre o discurso. E sua força pode ser vista na relativização recente de fatos históricos, sem falar na deturpação de vários deles.

Em uma coluna anterior comentei que vivemos tempos sem meios tons, com vilões e mocinhos claramente definidos, com o Mal e o Bem explicitamente delineados. Tanto na chamada vida real quanto na dramaturgia que a reflete e replica. Nestes tempos de chiaroscuro não cabe um herói que revele ter pés de barro sob o manto de mármore que o cobre. Eis o drama que se instala na tessitura dramatúrgica desta narrativa. E se há uma guerra real em curso hoje no Brasil é a batalha pela supremacia da narração.

Émerson Maranhão