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O que o apelo popular da TV tem a ver com o resultado das eleições?

22:06 | Jun. 04, 2019
Autor Émerson Maranhão
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Émerson Maranhão Jornalista e realizador audiovisual
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Tipo Notícia

Pode até não parecer, mas a adoção de um tom popularesco no telejornalismo televisivo local, a trama da nova novela do horário nobre global e o resultado das últimas eleições estão extremamente ligados entre si. E dizem muito deste País

Até o mais desatento telespectador já percebeu a mudança de tom adotada recentemente na cobertura jornalística da TV Verdes Mares. Notadamente nos telejornais Bom Dia Ceará e CE TV 1ª Edição, apesar de existirem diferenças nada sutis entre os dois. Enquanto o primeiro passou a priorizar as chamadas pautas de serviço e abriu espaço para a cobertura policial(esca), o segundo fez da guinada ao popularesco rasgado sua maior característica.

Esta mudança não se deve apenas à chegada do novo diretor de Jornalismo, que assumiu o comando da afiliada da TV Globo no estado há cerca de dois meses. É muito maior que isso. Para entender o que se passa e dimensionar sua relevância é preciso se debruçar para o que está acontecendo com a Vênus Platinada na Bahia.

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Há cerca de um ano e meio, a TV Itapoan, filial da Record na “Boa Terra”, vem impondo derrotas seguidas e expressivas à TV Bahia, afiliada da Globo no estado. Esse avanço na audiência, que até então era um intocável nicho global, começou pela faixa das 7 horas da manhã. E seguiu, célere, até dominar o período matutino inteiro. Boa parte por conta de um programa chamado Balanço Geral BA, apresentado por José Eduardo, o Bocão, um fenômeno baiano de popularidade.

O sinal de alerta soou com tal estridência que fez a Globo permitir o que se julgava impensável: abrir mão do seu conceito de grade integrada e deixar de exibir no estado o programa Bem Estar (hoje já finado) e parte do Bom Dia Brasil. Não adiantou. Atualmente, a TV Itapoan ameaça a TV Bahia até em seu horário nobre (e usar a Bahia como cenário para a novela O Segundo Sol passou longe de amenizar o problema).

O jornalístico apresentado por Bocão, onde tudo começou, caracteriza-se pelo apelo popularesco, pautas de serviço e cobertura policial. Qualquer semelhança com as alterações na TV Verdes Mares não é mera coincidência. Há uma preocupação que o case Balanço Geral se estenda a outras praças, o que certamente afetaria a liderança nacional de audiência da TV Globo. Daí, a alternativa de oferecer ela própria este tipo de conteúdo antes que o telespectador o busque na concorrência.

Há que se considerar, é claro, a parcela da audiência que ela perde ao nivelar por baixo seu nível de cobertura. Outro dia, por exemplo, Luiz Esteves, o apresentador do CE TV 1, valeu-se da expressão “Onde é que tu tá, macho?” para interagir com um repórter que fazia uma entrada ao vivo no jornal. Algo impensável, até recentemente, dentro do padrão de jornalismo da Globo.

Mas existe o entendimento que esta audiência mais qualificada, digamos assim, já migrou para a TV fechada, para os serviços de streaming e para os sites jornalísticos.

Teledramaturgia

Cena da novela A Dona do Pedaço
Cena da novela A Dona do Pedaço (Foto: Reprodução)

A questão não se limita ao jornalismo. Esta preocupação de estabelecer urgentemente canais efetivos de diálogo com o “povão” se expande também para a teledramaturgia. "A Dona do Pedaço", novela de Walcyr Carrasco que há três semanas ocupa a faixa nobre da TV Globo é um bom indício desta estratégia.

Quem viu sua primeira fase, que terminou no começo da semana passada, assistiu a uma trama feita sob medida para atrair telespectadores que admirem a chamada bancada BBB (Bala, Bíblia e Boi). Passado em uma fictícia cidade no interior do Espírito Santo, o prólogo do folhetim eletrônico foi marcado pela normalização do uso de armas, desde a infância, frise-se; pela banalização do ato de matar, corriqueiro nas duas famílias protagonistas; e pelo entendimento que a família é um valor que está acima de tudo e todos.

A passagem do tempo, aliás, trouxe uma trama com apelo extremamente popularesco (olha o termo aí mais uma vez!), com vilões e mocinhos claramente estabelecidos, sem nuances psicológicas nem meio tons, além de uma história mais que batida em muitos de suas subtramas. Ou seja, de facilíssimo consumo. O que o público costumava encontrar na concorrência, convenhamos.

Não à toa, a Globo ordenou que Walcyr Carrasco “furasse a fila” dos autores da faixa das 21h e adiantasse sua novela, na vaga que seria ocupada pela estreante Manuela Dias. Consagrada pelas tramas imbricadas das séries Justiça e Ligações Perigosas, Manuela certamente seria uma aposta arriscada demais nestes tempos de sofisticação de menos.

Baixaria

Sushi servido em uma mulher no programa do Faustão
Sushi servido em uma mulher no programa do Faustão (Foto: Reprodução)

Talvez os leitores mais novos não recordem, mas a impressão que se tem é que vivemos, às avessas, a batalha pela audiência enfrentada pelos canais abertos de TV em meados da década de 1990 no Brasil.

A diferença é que, hoje em dia, as TVs procuram atender à suposta guinada “conservadora nos costumes” dos telespectadores nacionais.

Van Damme e Gretchen  no programa do Gugu
Van Damme e Gretchen no programa do Gugu (Foto: Reprodução)

Enquanto há pouco mais de duas décadas, Globo, SBT e Band valiam-se de quadros com forte apelo erótico para atrair e fidelizar público. Os tempos eram “liberais” no comportamento. O apelo à baixaria era indisfarçável. Mas valia tudo pelo maior índice de Ibope. Faustão (TV Globo) chegou a apresentar em seu Domingão um Sushi Erótico, onde mulheres nuas eram cobertas apenas por peças de sushis e sashimis. Gugu Liberato tinha como uma das atrações principais de seu Domingo Legal a Banheira do Gugu, onde homens e mulheres seminus esfregavam seus corpos em busca de sabonetes. Sem falar quando a cantora Gretchen dançou lascivamente com o ator belga Jean-Claude Van Damme no palco do programa. Sem querer dar spoilers, a cena terminou constrangedoramente.

E vale lembrar que essa miríade de sensualidade se dava nas tardes dominicais, com a família reunida em volta da TV. Mas estes não eram casos isolados.

Tiazinha, do programa do Luciano Huck na Band
Tiazinha, do programa do Luciano Huck na Band (Foto: Reprodução)

Então na Band, no comando do Programa H, nas tardes de sábado, o apresentador Luciano Huck tinha na personagem Tiazinha (Suzana Alves) seu grande trunfo. A principal missão da moça consistia em, vestindo apenas lingerie preta, usando uma máscara e caracterizada como uma dominadora sexual, depilar as pernas de rapazes que participavam de um desafio. Tempos depois, a Feiticeira (Joana Prado) se juntou à Tiazinha na função de punir sensualmente homens participantes das brincadeiras.

Política

E o que a política tem a ver com isso? Tudo. Essa leitura das intenções do público que é feita pelas TVs decorre diretamente do resultado das últimas eleições no País.

O Brasil que emergiu das urnas sinalizou, em sua maioria, ser conservador nos “costumes”, optar por um discurso com pouco refinamento e uma linguagem direta; ter admiração pela belicosidade e interesse por temas policialescos; e, por fim, pretender estabelecer uma ponte direta com quem pode resolver seus problemas cotidianos.

Dá ou não dá para reconhecer essas características na mudança do tom jornalístico e teledramatúrgico? Esta é uma leitura pontual e pessoal, ressalte-se. Nada que seja imutável. Mas neste momento em que vivemos, fornece explicações possíveis para estes fenômenos midiáticos. E para como nos enxergamos no espelho. Mas só neste momento.

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