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Milagres: à espera de verdade e justiça

02:00 | 09/04/2019

Quatro meses após a ação policial contra um assalto a banco, na cidade cearense de Milagres, do qual resultou a morte de 14 pessoas, das quais seis eram reféns inocentes - inclusive dois adolescentes - circula informações sobre a eventual denúncia judicial contra mais de 30 pessoas implicadas no caso. Há uma cobrança grande para que se faça justiça, mas também, para que o destrinchamento dos fatos seja completo a fim de se chegar à verdade sobre as causas reais e para impedir repetições.

A denúncia já atinge nove assaltantes sobreviventes, apontados pelo Grupo de Atuação de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco) do Ministério Público do Ceará (MPCE). Pelo menos quatro policiais aguardariam o mesmo destino na Vara de Delitos de Organizações Criminosas por envolvimento direto na morte de oito assaltantes e dos seis reféns. Já se teria como certo, após a perícia nas armas recolhidas dos policiais do Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) da PM, que os tiros responsáveis pelas mortes dos reféns teriam partido de fuzis ou de pistolas usadas pelas forças de segurança do Ceará. Os projéteis localizados em seus corpos não se compatibilizariam com as armas dos assaltantes.

Outros policiais militares responderão por não terem dado ordem para abortar a operação quando se percebeu a presença de reféns - um major e um coronel já teriam sido indiciados pelos delegados da Polícia Civil e serão denunciados pelos promotores do Gaeco. Além deles, mais de 12 PMs, do Gate e do Comando Tático Rural (Cotar) contribuíram para o desfecho trágico. Se existe ponderações sobre responsabilidades na cadeia de comando, que pudessem suscitar alguma dúvida, algo já é claro: não é possível ter a mínima complacência com quem tentou apagar os registros da cena do crime ou mudá-la, criminosamente.

Há indício de homicídios dolosos, destruição de provas, execuções de detidos, posteriores à matança dos reféns, falsidade ideológica, latrocínio e até ameaça contra testemunhas e a policiais que investigavam o caso. Isso é grave demais por se tratar de agentes do Estado, supostamente merecedores da fé pública.

A vida deve ser sempre a prioridade: se para defender um refém for preciso incorrer no risco de deixar o criminoso escapar, não deve haver dúvida: a vida do inocente vem primeiro. O criminoso pode ser preso, depois, mas uma vida perdida não volta mais.

O mesmo se diga da possibilidade de atirar para matar. Se é num confronto direto, onde não haja outro recurso, é direito de defesa. Contudo, se for apenas para atender à filosofia do "bandido bom é bandido morto", é um crime contra os direitos humanos e o Estado Democrático de Direito. A execução de um rendido por um agente do Estado, então, é a antessala da barbárie.