Criolo e Amaro Freitas comentam a parceria que gerou o novo álbum
Criolo, Amaro Freitas e Dino d'Santiago lançam disco na encruza entre suas vivências e identidades, passando por ritmos e gêneros como rap, jazz, MPB, morna e funaná
19:40 | Jan. 15, 2026
Canoa, remo e rio. É assim que Criolo descreve o encontro musical entre ele, Amaro Freitas e Dino d’Santiago, que toma forma de disco e ganhou as plataformas nesta quinta-feira, 15. A parceria não é novidade desde “Esperança” (2024), single indicado ao Grammy Latino de Melhor Canção em Língua Portuguesa. Quando Criolo ouviu a voz de Dino na música, a imagem de Amaro se materializou na sua mente.
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Feito canoa, ele apontou o caminho: “Sem o Amaro aqui vai ficar desequilibrado. A gente precisa da alma do Amaro, da mente dele e da voz inconfundível de um pianista inconfundível”, pensou o artista paulistano. Ele e o cantor português de ascendência cabo-verdiana tinham a canoa e o remo. Lhe faltavam o rio: Amaro Freitas.
Criolo se serve do recurso poético para tentar traduzir o indizível em palavras. Tamanha conexão entre os três, “Esperança” não era suficiente. Nas festividades da premiação do Grammy, em 2024, eles entraram em um acordo: "A gente tem que se encontrar mais”. “Algum negócio pegou ali, sabe? ‘A gente quer fazer. Vamos fazer um disco que a gente se faz bem. A gente não pode deixar passar’”, conta Criolo sobre a troca.
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“É muito raro você encontrar pessoas irmãs, pessoas que se entendem no olhar” e, partindo do pressuposto de que “tem coisas na vida que a gente não pode deixar passar”, esse encontro musical era uma delas. Entre Rio de Janeiro, Recife e Lisboa, em meio a agendas ocupadas e imposições geográficas, eles fizeram “Criolo, Amaro e Dino” acontecer.
Uns cinco encontros, nem todos com o trio completo, foram suficientes. A fluidez marcou as trocas entre os artistas que, naturalmente, conversam fazendo música. Se Criolo usa a metáfora da canoa, do barco e do rio para definir, Amaro recorre à música - deusa no comando do encontro entre eles. Na ordem dos nomes dispostos no título, são poesia, melodia e harmonia. Letra ou melodia, quem quer que aparecesse primeiro, disparava na mente do outro a criação do elemento em falta.
Criolo, Amaro e Dino: Uma encruza de três
Em 12 faixas, as identidades musicais e vivências de cada um se fundem em uma só. Por isso mesmo, o trabalho leva o nome dos três. Com os vocais de Criolo e Dino e o piano do pernambucano Amaro Freitas, o disco também traz as participações do grupo de cantadeiras urbanas Clarianas e do mestre da cultura de Pernambuco Maciel Salú em “Menina do Coco de Carité”, a terceira música.
De “Você Não Me Quis”, segunda faixa, até a “Menina do Coco de Carité”, Criolo, Dino e Amaro fazem uma travessia de São Paulo ao Nordeste, e do Nordeste a Cabo-Verde, onde estão as raízes de Dino d’Santiago. “Quando você canta ‘Você Não Me Quis’, você tem o funk ali e aí você tem o rap e a gente faz um caminho livre até chegar na escada de Cabo-Verde pela rabeca de Mestre Maciel. As notas de pífano, a produção de Beto Xambá, todas as casas de Cabo extremamente respeitadas, amadas. A gente faz todo esse caminho e vai até chegar lá”, aponta Criolo.
Paulistano filho de cearenses, ele nasceu e cresceu no Grajaú e carrega o Nordeste em tudo o que faz. Juntou-se a um pernambucano que, tão orgulhoso de suas raízes, faz jazz virar frevo e maracatu e um descendente cabo-verdiano que tirou forças de “Nó na Orelha” (2011), segundo álbum e o mais popular da carreira de Criolo, para fazer seu primeiro disco solo, “Eva” (2013) - agora com sua voz em primeiro plano.
Três representações da diáspora africana, permitiram-se à liberdade criativa, experimentando diferentes sonoridades sem o compromisso de saber o que viria ser. "Só o a nossa existência já diz muita coisa para além do que tá ali naquele texto lido ou não. A gente já traz as nossas vivências, as nossas trajetórias, toda a nossa luta de amor à música, tudo que a gente abriu mão para poder viver o que vive. Eu acho que isso tudo já é dizer muita coisa. Isso já tá no intertexto", diz Criolo.
“Se eu estava em busca dos meus ancestrais, se eu estava querendo me conectar com a minha história, por que não com um irmão que veio de tão longe? Um de São Paulo, eu de Pernambuco e outro oriundo da África, que é a primeira geração que nasceu em Lisboa, mas que sofreu muito e que sabe muito da sua história”, conta Amaro Freitas sobre o caminho entre “Sankofa” (2021) e “Y’Y” (2024), seus discos anteriores, até “Criolo, Amaro e Dino”.
No primeiro, Amaro imprimiu no título sua procura pelas referências de sua ancestralidade. Assim como o símbolo dos povos africanos Akan toma forma de um pássaro com a cabeça voltada para trás, ele se inspirou em personagens da vida real como Baquaqua, que documentou sua história e registrou o Brasil escravocrata, para onde fora sequestrado, em uma biografia.
Em “Y’Y”, o artista se conecta com o Norte brasileiro e faz música com a água e os ventos, dando continuidade à busca pela ancestralidade. Abençoado pela herança dos músicos Moacir Santos e Naná Vasconcelos, o “piano nordestino” de Amaro encontra em Dino os batuques, as mornas e o swing e, no rap de Criolo, as contestações e o “dedo na cara” - e nas feridas - do Brasil. “Acho que se eu tava procurando alguma coisa com o disco ‘Sankofa’ e o disco ‘Y’Y’, eu encontro em Criolo e Dino, sabe? Eu me realizo aqui”, declara.
Ainda assim, o disco não dá conta da experiência. “Esse disco é só 10% de tudo que aconteceu nesses dias”, diz Criolo. Para acontecer nos palcos, a experiência está além do registro: “O disco vai ficar pequeno”.
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