Toffoli e Banco Master: entenda as relações que levaram ministro do STF a abandonar relatoria
Relatório da PF, entregue ao presidente do Supremo, apontou menções ao nome de Toffoli em conversas extraídas do celular de Daniel Vorcaro, dono do Master
11:03 | Fev. 13, 2026
A investigação da Polícia Federal (PF) sobre o Banco Master e as fraudes financeiras envolvendo a instituição avançou com novos desdobramentos. Dessa vez, a PF informou ao presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, que teria encontrado uma menção ao nome do ministro Dias Toffoli em uma mensagem no celular do banqueiro e fundador da instituição bancária, Daniel Vorcaro;
Toffoli era o relator do caso Master no STF. Após reunião com ministros na noite desta quinta-feira, 12, o ministro decidiu deixar a relatoria do caso. Em meio a decisões consideradas controversas e à conexão entre parentes de Vorcaro e Toffoli, a condução do caso estava sendo alvo de críticas, que pediam o afastamento dele do caso.
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Menção em conversas
Em atualização mais recente, um relatório da Polícia Federal indicou citações ao nome de Toffoli em conversas extraídas do celular de Vorcaro, incluindo pagamentos feitos pelo empresário e pastor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, além de mensagens entre o banqueiro e o ministro do Supremo, entre elas o convite para uma festa de aniversário.
Conforme publicado pelo colunista João Paulo Biage, do O POVO, Toffoli divulgou uma nota em que nega qualquer relação com Vorcaro e destaca que “jamais recebeu qualquer valor” do banqueiro ou de Zettel.
“O ministro desconhece o gestor do Fundo Arllen, bem como jamais teve qualquer relação de amizade e muito menos amizade íntima com o investigado Daniel Vorcaro. Por fim, o ministro esclarece que jamais recebeu qualquer valor de Daniel Vorcaro ou de seu cunhado Fabiano Zettel”, diz a nota enviada pelo gabinete de Toffoli.
O ministro, porém, confessou que a Maridt, empresa da família dele, recebeu valores referentes à venda do resort Tayaya, negociada com Zettel por meio do fundo Arllen.
“Deve-se ressaltar que tudo foi devidamente declarado à Receita Federal do Brasil e que todas as vendas foram realizadas dentro de valor de mercado. Todos os atos e informações da Maridt e de seus sócios estão devidamente declarados à Receita Federal do Brasil sem nenhuma restrição”, aponta.
Após a entrega do relatório, Toffoli determinou que a PF encaminhe ao STF o conteúdo de todos os aparelhos apreendidos na investigação.
Conexão com resort
Em janeiro, a relação de Toffoli com o resort também foi questionada. Informações do jornal Estado de São Paulo mostraram que o empresário e pastor Fabiano Zettel seria o dono de um fundo de investimentos que comprou a participação de dois irmãos de Toffoli no resort Tayayá, localizado em Ribeirão Claro, no interior do Paraná.
O fundo é gerido pela Reag Investimentos, investigada na Operação Compliance Zero.
No dia 14 de janeiro, Zettel foi preso temporariamente após ter sido detido no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, durante a segunda fase da operação. Apesar de não ter participação direta no resort, Toffoli teria frequentado o local em diferentes ocasiões.
Em um vídeo que seria de 2023, divulgado pelo Metrópoles, o ministro aparece no resort recebendo empresários e banqueiros. Entre eles, André Esteves, do BTG Pactual, e o empresário Luiz Pastore.
Reportagens do jornal Folha de S.Paulo e do Metrópoles mostraram que Toffoli continua a visitar o resort com os irmãos, José Carlos e José Eugênio Dias Toffoli, e outros familiares, mesmo após a venda do Tayayá para o advogado Paulo Humberto Costa, em fevereiro de 2025.
Seguranças que atendem o STF teriam passado pelo menos 134 dias no Tayayá Resort, entre janeiro de 2022 e novembro de 2025, conforme indicam as diárias pagas a esses profissionais. As diárias dos seguranças que atenderam autoridade do STF custaram R$ 548,9 mil aos cofres públicos.
O total pode ser calculado a partir da prestação de contas do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 2ª Região, de São Paulo, que deslocou equipes de segurança para atender ao Supremo nas viagens ao Paraná. Os dados foram divulgados pelo portal Metrópoles e confirmados pelo Estadão.
Carona em jatinho
Em novembro do ano passado, o ministro do STF viajou para o Peru, onde assistiu à final da Copa Libertadores disputada entre Flamengo e Palmeiras. Toffoli teria viajado no jatinho de Luiz Pastore ao lado de outros torcedores, entre eles o advogado Augusto de Arruda Botelho, que defende um dos diretores do banco Master.
De acordo com informações do UOL, o ministro teria afirmado que é amigo de Luiz Pastore e que não conversa sobre processos em viagens.
Condução do caso
A condução do caso feita por Toffoli também foi alvo de críticas. Em dezembro, após a prisão de Vorcaro, o ministro puxou a investigação para o Supremo.
A Corte atua em processos que envolvem autoridades com foro privilegiado e um dos documentos apreendidos pela PF citaria o deputado federal João Carlos Bacelar (PL-BA). No entanto, ministros estariam avaliando o envio do caso à primeira instância.
Além disso, Toffoli impôs sigilo absoluto na investigação. O ministro determinou que todos os bens, documentos e eletrônicos apreendidos fossem levados ao Supremo para serem mantidos lacrados e sem acesso à internet. Porém, após pedido da Procuradoria Geral da República (PGR), Toffoli reconsiderou e autorizou que o material fosse enviado ao órgão.
O senador Eduardo Girão (Novo-CE) acionou a PGR para solicitar a investigação de possíveis conflitos de interesse e impedimentos de Toffoli. Outros parlamentares, como a senadora Damares Alves (Republicanos-DF), também questionaram a atuação e pediram pela suspeição ou impedimento do ministro.
Na última quinta-feira, o partido Novo protocolou um pedido de impeachment de Toffoli. Entre os parlamentares que apresentaram o pedido, estão os deputados federais Marcel Van Hattem (Novo); Gustavo Gayer (PL); Nikolas Ferreira (PL); Caroline de Toni (PL); Magno Malta (PL); Bia Kicis (PL); Dr. Jaziel (PL-CE) e Kim Kataguiri (União); os senadores Eduardo Girão e Damares Alves também estão no grupo.
Relatoria será redistribuída
Após reunião com ministros do STF realizada na quinta-feira e que durou cerca de três horas, Toffoli pediu para deixar a relatoria do caso do Banco Master.
Em nota, assinada pelos dez ministros da Corte, os integrantes expressaram apoio a Toffoli e indicaram a inexistência de suspeição ou impedimento. Caberá ao presidente do STF, Edson Fachin, a redistribuição do caso para um novo relator.
“Registram, ainda, que a pedido do Ministro Dias Toffoli, levando em conta a sua faculdade de submeter à Presidência do Tribunal questões para o bom andamento dos processos (RISTF, art. 21, III) e considerados os altos interesses institucionais, a Presidência do Supremo Tribunal Federal, ouvidos todos os ministros, acolhe comunicação de Sua Excelência quanto ao envio dos feitos respectivos sob a sua Relatoria para que a Presidência promova a livre redistribuição”, diz a nota.
O texto foi assinado pelos dez ministros da Corte: Edson Fachin; Alexandre de Moraes, vice-presidente do Supremo; Gilmar Mendes; Cármen Lúcia; Luiz Fux; André Mendonça; Nunes Marques; Cristiano Zanin; Flávio Dino e Dias Toffoli.