Brasileiro Thiago Ávila narra prisão em Israel e anuncia nova intenção de chegar a Gaza
Ativista conta como foram interceptação, negociação, prisão, greve de fome e deportação
17:05 | Jun. 22, 2025
Thiago Ávila, 38 anos, é um dos ativistas que foram presos por militares de Israel ao tentarem criar um corredor humanitário na Faixa de Gaza. A embarcação que ele compunha junto a outros 11 ativistas, entre eles a sueca Greta Thunberg, foi interceptada em 8 de junho.
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Deportado, ele desembarcou no Brasil na quarta-feira, 18. "De fato, houve muita violação, mas nada se compara ao que o povo palestino passa", contou Ávila em entrevista ao O POVO News 2ª edição na sexta-feira, 20.
"A gente passou por maus-tratos, pois existia um processo de tortura psicológica, privação de sono, ameaças, violência psicológica diversa. Eu não diria que foi um processo de tortura física contra mim, porque o povo palestino passa por coisas muito piores, mas também foi uma violação. Por isso, a gente segue denunciando e, sobretudo, a gente fala que a história não somos nós: "A história é o povo palestino", resume.
Interceptação, negociação, prisão, greve de fome e deportação
Na ocasião, Ávila revelou como foram os dias antes da interceptação. Segundo conta, havia uma preparação caso o barco Madleen, da Flotilha da Liberdade, fosse interceptado por forças militares de Israel em águas internacionais.
"Se viesse um drone todo mundo ia pra parte superior do barco, vestir o colete salva-vidas. Se o drone passasse em cima do nosso barco, todo mundo ia para as beiras do barco. Se o drone parasse em cima do nosso barco, todo mundo passava para parte de fora da grade para tentar pular na água e tentar sobreviver a um bombardeio, por exemplo", explica.
Ávila também falou acerca da captura. "Quando eles nos interceptaram, começou primeiro com drones nos atacando, vindo para cima do nosso barco, jogando luz, fazendo barulhos, jogando uma tinta que a gente não conseguir identificar até hoje o que é, está sendo investigado na Europa, jogando um pó preto que a gente não conseguia identificar exatamente o que que era".
Segundo o ativista brasileiro, chegaram três embarcações militares de grande porte e quatro pequenas lanchas que levavam cerca de 30 soldados de elite da unidade S13 das Forças de Ocupação de Israel.
"Essas pequenas lanchas atracaram no nosso barco. Eles estavam dizendo o tempo todo que a gente não podia filmar, para gente tirar as câmeras, para as pessoas ficarem com as mãos para cima", complementa.
Nesse momento, Ávila agiu como um dos negociadores. Ele destaca que, dessa vez, os militares israelenses atuaram diferentemente de outras missões da Flotilha da Liberdade.
"Por verem o tamanho da força de opinião pública que a nossa missão tinha, eles estavam, sim, armados com todos os fuzis, com todo o equipamento militar, mas eles não agiram com violência dentro do barco", relembra.
"Ao contrário, eles estavam filmando com grandes câmeras para criar um circo midiático de que estavam nos tratando bem. Entregavam uma garrafa de água e filmavam, entregavam um pedaço de pão, um sanduíche e filmavam. A gente obviamente sabia que eles estavam com fuzis logo atrás das câmeras, então não fazia sentido recusar", acrescenta o brasileiro.
Já sobre a prisão, Ávila menciona que as celas eram "precárias", mas ainda tinham acesso à luz do sol. "Ninguém teve nada a reclamar sobre a comida que foi oferecida, mas a água tinha uma coloração estranha, de odor e gosto ruins para as pessoas que ingeriram essa água". Ele, no entanto, estava em greve de fome e de sede.
Situação que, segundo Ávila, foi interpretada de forma negativa por Israel, assim como pela juíza da audiência de custódia.
"Fomos pressionados a assinar um documento que assumiria uma culpa de um crime que a gente não cometeu, de tentar entrar ilegalmente em Israel, porque nós estávamos tentando entrar no território palestino, cumprindo uma missão humanitária que era protegida pela Corte Internacional de Justiça, que Israel que estava proibido de impedir ajuda humanitária de chegar em Gaza. Depois, quando a gente se recusou a assinar, nos levaram para uma unidade prisional".
Nesse local, ficou quatro dias com as oito pessoas que permaneceram na prisão. O brasileiro, no entanto, seguiu para cela solitária.
"Quando eu expliquei tudo isso e expliquei que estava em greve de fome e de sede, a juíza me mandou para solitária. E aí na solitária as condições eram muito piores. Ratos, baratas, insetos, os percevejos estavam em todos os lugares, mesmo na outra unidade prisional. Muitos gritos, muito barulho de agressão na solitária, nos corredores, que eu não consegui identificar muito bem o que era", releva.
Foi neste momento que ele conta ter sido ameaçado de ser levado para um "centro de tortura". "Ainda pior do que o lugar que eu estava; ameaças de que me levariam para Gaza, que eu ficaria dias sem nenhuma comunicação com o mundo exterior, nem com o advogado, nem com ninguém".
No dia seguinte, Ávila esteve com um advogado e, depois, no outro dia, foi para o aeroporto. "Um processo de deportação onde finalmente eu consegui, já dentro do avião voltando, porque tinham jornalistas no mesmo voo que eu, avisar a minha família e retomar o contato com o mundo exterior", rememora.
O ativista brasileiro cita ter voltado "cheio de marcas" no corpo e conta que um exame feito no Instituto Médico Legal em São Paulo, logo quando chegou, e constatou a existências de escoriações e marcas que podiam "denotar tanto a picada dos insetos, mas também doenças de pele adquiridas na unidade prisional".
"Depois foi diagnosticado que parte dessas marcas era um processo de escabiose ou sarna, que é comum em ambientes prisionais que não tem o asseio, o cuidado sanitário adequado. Então, a gente tem tomado cuidado, tem feito esse tratamento".
Futuro
"Seguimos por ser necessário, não por vontade própria", conta Ávila, revelando que haverá uma nova missão da Flotilha da Liberdade para sair "em breve".
"Para nós a missão não está completa, porque o corredor humanitário de Gaza ainda não foi criado; as pessoas ainda estão morrendo de fome, então a gente ainda precisa ir. A gente queria estar vivendo uma vida comum como qualquer outra pessoa, mas infelizmente os governos estão falhando e a gente precisa agir".