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Da Síria à Europa: a odisseia inacabada de um refugiado

16:48 | 20/04/2015
Jovem de 28 anos relata como sobreviveu a naufrágio em sua jornada de perigos rumo à Alemanha, numa história que poderia ter terminado em tragédia como a de milhares de outros imigrantes no Mediterrâneo. O dia mais longo da vida de Alaa Houd começou às cinco da manhã. Juntamente com outro refugiado sírio, ele embarcou em Izmir, Turquia, num barco inflável. A meta dos dois era uma ilha grega no Mar Egeu. Porém a travessia se transformou em odisseia. "Em pleno mar, o nosso barco sobrecarregado começou a afundar", relata à DW. "Parte dos refugiados queria permanecer a bordo, esperando que a guarda costeira fosse salvá-los." Porém, Alaa e outros homens decidiram nadar em direção à Grécia. "Queríamos chagar mais perto do nosso destino. Se as autoridades turcas tivessem nos encontrado, talvez tivéssemos ido parar na prisão e íamos ter que esperar meses até a próxima tentativa." E isso era algo que o sírio de 28 anos não podia arriscar. Alaa passou três horas na água, até que a guarda costeira grega viesse resgatá-lo e a seus companheiros. Ainda assim, não sentiu medo da morte, afirma com um riso amargo. "Durante três anos, vivi na Síria uma vida em que a morte sempre esteve por perto." Sua cidade natal, Al-Kiswah, ao sul da capital Damasco, foi atacada tanto pelas tropas do governo como pela Frente al-Nusra, o braço da Al Qaeda no país, e pelo Exército Livre da Síria. Tentaram forçá-lo a se filiar a um partido e a combater, mas ele resistiu. "Nadar em alto-mar é menos ruim do que ser ameaçado por bombas e balas. Na Síria, você está andando despreocupado pela rua, e de repente caem bombas na sua cabeça." Fuga da violência Desse modo, Alaa Houd expõe a motivação de centenas de milhares de refugiados, que ano após ano procuram proteção na Europa. Seu número atual é o maior desde a Segunda Guerra Mundial, indica Alexander Betts, que dirige o Centro de Estudos sobre Refugiados da Universidade de Oxford. Ele fala de uma catástrofe global de refugiados, com 50 milhões de seres humanos em fuga por todo o planeta. "Cada vez mais pessoas fogem de conflitos, violência e da perseguição política. E cada vez mais vêm para a Europa, por não encontrar nem proteção nem ajuda em suas regiões de origem." Naturalmente há também muitos refugiados que tentam escapar da fome e da miséria econômica, indo de Gâmbia, Senegal ou Mali para a União Europeia. Entretanto, a causa principal dos atuais fluxos de refugiados são conflitos graves, em especial a guerra civil na Síria. Redes de traficantes lucram Por estarem no limite de suas capacidades, os vizinhos Jordânia e Líbano quase não aceitam mais refugiados sírios. E assim aumenta o número dos que arriscam a travessia para a Europa. Uma das principais rotas passa pela Turquia e a Grécia, a outra, pela Líbia. "A Líbia fica bem perto da Europa, é um trampolim para a Itália", confirma Betts. "No entanto, sendo atualmente um Estado desestruturado, a Líbia também oferece as melhores condições para as redes de traficantes de pessoas", completa o especialista. Essas redes operam com relativa liberdade no ponto de conexão entre a África Ocidental, o Chifre da África e o Oriente Médio. Entretanto os traficantes são apenas um sintoma de problemas mais profundos. "O desespero dos refugiados fornece a demanda para a oferta deles", explica Alexander Betts. Odisseia continua Também o sírio Alaa Houd teve que recorrer aos traficantes de pessoas. Em Izmir, ele conheceu um certo Abu Faris, que, pelo equivalente a 1.100 euros, arranjou para ele a travessia no barco inflável. Apesar do quase naufrágio, até o momento o plano de Alaa tem dado certo. A guarda costeira o levou para um abrigo, em seguida, para Atenas. Por 3.800 euros, ele comprou de um homem, só identificado como "o afegão", um passaporte tcheco falsificado. Com ele, o especialista sírio em tecnologia da informação voou para Frankfurt. De lá, prosseguiu sua odisseia, de um abrigo de refugiados para o próximo. Em Radevormwald, no estado da Renânia do Norte-Vestfália, Alaa já espera há cinco meses ser reconhecido pela Alemanha como refugiado. E também para trazer da Síria sua esposa e o filho de três anos. Ambos, comenta, são o único motivo que o faria voltar para seu país natal. Autor: Peter Hille (av)Edição: Rafael Plaisant
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