Zé Pinto: artista cearense tem obras restauradas em celebração ao seu centenário
Trabalho está sendo realizado por alunos do curso de Conservação e Restauração de Bens Patrimoniais da Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu
20:57 | Jan. 21, 2026
Alunos da Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho (EAOTPS), em Fortaleza, iniciaram nesta semana o restauro de 15 obras do artista plástico cearense Francisco Magalhães Barbosa, o "Zé Pinto". Carregadas de cultura e memória, peças são de coleções particulares e do acervo da Prefeitura.
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Escultor nasceu em 1925 e faleceu em 2004. Durante sua trajetória, ele marcou a história das artes visuais do Estado ao fazer esculturas com materiais que encontrava em sucatas e ferros-velhos, dando vida ao que antes não parecia ter utilidade. Muitas dessas obras foram expostas em ruas e em avenidas do Município.
Parte dessas peças produzidas estão sendo agora preservadas por meio de técnicas aplicadas pelos alunos do curso de Conservação e Restauração de Bens Patrimoniais do EAOTPS, que é um equipamento cultural da Secretaria da Cultura do Ceará (Secult-CE), gerido pelo Instituto Dragão do Mar (IDM).
Além de revelar a autenticidade do artista, muitas dessas obras que estão sendo restauradas carregam a identidade cearense. É o caso, por exemplo, da "Rendeira", escultura que representa uma artesã em seu ofício de fazer rendas. Peça é feita de ferro fundido e usa materiais como corrente e cabeça de martelo.
Essa mesma técnica foi aplicada na obra "Charles Chaplin", icônico artista do cinema mudo. No processo de criação foram utilizadas molas nos braços e nas pernas da escultura, permitindo que ela se balance ao ser tocada. Detalhe representa ao mesmo tempo a irreverência do ator britânico e a do escultor cearense.
Com a restauração, essas peças devem ter sua vida útil prolongada, mas a importância da ação vai além. "Iniciativa [traz] a importância da gente preservar essa história, preservar essa memória, [obras] são imprescindíveis na história do estado Ceará", pontua Maninha Morais, gestora executiva da EAOTPS.
Antes de começar o processo, os alunos tiveram um momento de conversa com Regina Pinto, a filha mais nova de Zé Pinto. Para a designer gráfico, o processo de restauração é importante para deixar vivo o legado de seu pai, principalmente pelo fato dos materiais utilizados serem mais suscetíveis ao tempo.
"Ele dizia que a máquina de dobrar estava na cabeça dele [...] Até hoje eu não sei como é que ele fazia essas obras pois ele não sabia desenhar, era tudo da cabeça. Para mim é de grande importância [a restauração], mostrar para as novas gerações o legado que ele deixou aqui como artista", conta.
Obras serão expostas
Antônio Vieira, professor do curso, é o responsável por guiar os alunos no trabalho de restauração. De acordo com o restaurador, a iniciativa é realizada como forma de "valorizar, resgatar esse artista que completa 100 anos, mas que de certa forma a cidade deixou um pouco esquecido".
"[O Zé Pinto] era uma figura muito emblemática aqui no Ceará. Ele era um senhor que começou a desenvolver as habilidades dele através da sucata. Ele catava as sucatas e montava objetos de arte. E aí ganhou grande destaque não só no Ceará, mas no Brasil e no mundo. Tem obras em vários lugares do mundo. [...] A partir disso, houve novos desdobramentos de outros artistas trabalhando com esse tipo de material. [Ele] Foi pioneiro", pontua.
Vieira reúne os discentes ao entorno das peças e leva os mesmos a se colocarem no lugar do artista, refletindo acerca do processo criativo e suas nuances antes de dar início ao processo de restauro.
Entre os alunos está Vicente Leite, 41, que diz sempre ter sido entusiasta das artes visuais. Natural do Cariri, o aluno conta que trabalhar com as obras de Zé Pinto o permite se conectar com Fortaleza.
"Descobri a escola a partir do curso de gravura e descobri a infinidade de cursos que têm aqui e percebi o quanto eles são bons e são importantes para a cidade. [...] E eu descobri a restauração, que tem sido uma paixão e é uma coisa que é muito boa ter contato com grandes artistas importantes", pontua.
Trabalho realizado pelos alunos deve seguir sendo realizado até o dia 27 de fevereiro. Processo é feito por etapas e abrange "o desenvolvimento de um mapa de danos, higienização e a etapa das intervenções restaurativas". Ao todo, 15 alunos participam da formação.
Já em março deste ano a escola vai promover uma exposição em homenagem ao centenário do artista celebrado, trazendo as esculturas que estão sendo restauradas e também as obras que utilizam as técnicas do Bordado e da Gravura, desenvolvidas pelos alunos do equipamento. Momento vai fazer parte da programação da Mostra Fazendo Artes, Aprendendo Ofícios, que anualmente é realizada no espaço.