Ana Lúcia Bastos Mota: Ela sabe onde pisa
Ana Lúcia Bastos Mota tornou-se presidente da Cerbras, indústria de material de construção civil, após a morte do marido, Tarcísio Mota, que não resistiu a um ataque cardíaco, em 1994. De característica otimista, ela enxerga momentos de crise como oportunidade para crescer. À frente da fábrica, realizou três expansões, mesmo em momentos econômicos difíceis. Para ela, quem investe continua a crescer , o que reduz, proporcionalmente, custos com energia e gás. Sua meta é ampliar a exportação, entrando no ramo do porcelanato e ir, quem sabe, para a Zona de Processamento de Exportação do Ceará (ZPE).
O POVO - A senhora é uma empresária que não fala mal do Governo. No mundo empresarial, falar mal do Governo é quase sinônimo. A senhora tem sempre uma palavra de apoio ao Governo, especialmente ao Governo Federal. O que é ser empresária de esquerda, com um Governo de esquerda no poder?
Ana Lúcia Bastos Mota - Não é questão de ser empresária de esquerda. É minha história. Antes de ser empresaria, era estudante na época da Ditadura. Então, vivenciei tudo aquilo. Meu marido sempre dizia que eu era dona também da indústria e eu dizia para ele que não havia nascido para ser dona. Eu trabalhava na Teleceará e ele insistia para eu trabalhar com ele. Na época era loja de material de construção, a L Mota Companhia. Quando eu o conheci, ele tinha uma fábrica de mosaicos, a Mosaicos Mota. Posteriormente, em 1990, foi que ele fundou a fábrica de pisos e revestimentos cerâmicos. Mas mantive essa linha, a minha linha. E ele me respeitava, ele não comungava da minha ideologia.
OP – A senhora nunca ajudou em campanha? Mas já a procuraram, é claro?
Ana Lúcia - Aliás, ajudei uma vez na campanha do Mário Mamede, mas com uma quantia insignificante. Meu marido até perguntou com quanto eu tinha ajudado e, quando eu mostrei, ele não acreditou que era só aquilo, porque ele havia ajudado na campanha de outro candidato com valor maior. Aí eu fui buscar o recibo do PT, na época o Mario Mamede, dizendo: recebi de Ana Lúcia a quantia de tanto. Aí provei que eu tinha dado realmente só aquilo. Ele achou pouco. Foi a única vez e depois nunca mais.
OP - Ele é quem comandava a fabrica antes. Como foi tocar a fábrica sem ele?
Ana Lúcia - O nosso piso de revestimento cerâmico é um dos produtos de fabricação de custo mais baixo. Porque existem dois tipos de fabricação de piso de revestimento: via seca e via úmida. O nosso é via seca. Gasta menos energia e podemos vender por um valor menor. Ele morreu em 1994 e, em 2000, chegamos a ter muitas dificuldades financeiras. Aí, premiando os funcionários, tomando várias atitudes em relação a preço também, que estava muito defasado, conseguimos um crescimento. Sem a equipe não teria feito nada.
OP - Equipe essa que a senhora herdou do seu marido...
Ana Lúcia - Herdei do meu marido, mas tinha 80 funcionários. Hoje nós temos mais de 600. A produção se concentra em Maracanaú. Então, coincidentemente, quando a fábrica estava em uma situação melhor, o Lula ganha a eleição. Quando ele ganhou, percebi que houve uma ascensão da classe menos favorecida. Isso é um fato. Começamos a vender muito. Em 2004, passamos de 300 mil para 600 mil m²/mês de produção. Ano passado nós fomos a um milhão de m²/mês. E nosso preço até hoje é destinado à classe popular, é um piso popular.
OP - Como a crise de 2008 não afetou o mercado da construção civil?
Ana Lúcia - É interessante contar o que aconteceu em 2008. Em outubro, começamos a produzir, mas em setembro veio a crise nos Estados Unidos e eu tinha certeza que ia nos afetar. Tínhamos ampliado e estávamos vendendo pouco e, em abril de 2009, no auge da nossa crise, o Lula lança o programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV). Começamos a vender. Hoje estamos vivendo essa onda de pessimismo diariamente e isso é muito prejudicial, porque as pessoas não investem. No passado, remoto, nossa inadimplência chegou a 70%. Hoje não chega a 4%, porque saímos da informalidade. Ano passado, não tínhamos produto. Estávamos com um problema seríssimo e mesmo assim ampliamos. Passamos de 1,7 milhão m²/mês para 2,4 milhões. Começamos a produzir em setembro e, no final do ano, estava faltando produto novamente e já estamos ampliando de novo.
OP – A senhora se sente sozinha com essa onda de pessimismo?
Ana Lúcia - Não, porque eu conheci um rapaz uma vez que disse que a mãe dele tinha muita vontade de me conhecer. Ela também tinha ficado viúva e ela estava à frente de uma fábrica. A fábrica, eu visitei, está crescendo. Fica em São Paulo. É impressionante o crescimento desta fábrica do meu setor. Ela implantou uma linha de porcelanato, já ampliou, já dobrou a produção de porcelanato. Chama-se Embramaco. E ela realmente fez a diferença. Ela não foi na onda de pessimismo. Ela cresceu nesses últimos anos.
OP - Então como a senhora vê essa notícia... Estou querendo ver sua exortação. Como é que a senhora vê essas negativas de demissão? Estou falando de diversos setores?
Ana Lúcia - Eu digo muito que eu me sinto um peixe fora d’água quando estou no meio empresarial. Realmente, a maioria está vivendo essa crise, está acreditando nela.
OP - Mas ela existe…
Ana Lúcia - Ela existe, você tem razão, ela existe. Agora, é num momento de crise que muitos crescem, você sabe disso. A gente não pode se deixar contaminar. A gente tem que ser otimista. Eu sou, sempre.
OP - Qual foi o impacto com o Minha Casa, Minha Vida em contenção, o Governo contendo gastos?
Ana Lúcia - Agora, no meio de junho, está começando a ter esse impacto. Mas ocupamos espaço de outras fábricas que não ampliaram, que não melhoraram a qualidade. Então, tem que fazer estudo, planejamento estratégico, ver onde estão os problemas e tentar resolvê-los. Faz uma diferença enorme você não prestar atenção.
OP – Os índices para quem trabalha no setor de material da construção civil melhoraram em junho. Como a Cerbras está nas regiões onde ela atua?
Ana Lúcia – Nossa avaliação é a seguinte: em alguns estados a nossa venda, nesse mês, deu uma queda. Em outros estados se comportou normalmente. No Ceará nós vedemos bem. 50% da nossa venda é no Ceará para você ter ideia. 50% é um valor muito levado. E nós temos uma clientela de muitos anos, muito fiel ao nosso produto. Em relação à construção civil, percebo que nós estamos vendendo bem porque existem produtos que não tínhamos uma grande saída, os produtos brancos. Mas, a partir do momento que a construção civil começou a comprar, esse produto houve uma ascensão muito grande e até hoje isso continua. Isso demonstra que a construção civil continua nos comprando.
OP - Como é que a senhora presta atenção na Cerbras?
Ana Lúcia - Qual o produto que vende mais? Não vou tirar esse produto de linha. Presto atenção no vendedor. Se a pessoa não prestar atenção, fica com produtos parados que você comprou e não está usando.
OP – Qual o produto de vocês que é o carro chefe?
Ana Lúcia – É o cristal branco. Ele, acredito, que ele está vendendo muito bem. E os nossos maiores clientes da gente aqui no Ceará são Normatel, TendTudo e Construtop, que é uma cooperativa.
OP – E com a chegada da Leroy Merlin, impactou o mercado?
Ana Lúcia – A Leroy Merlin era o seguinte: eles queriam um preço muito baixo. Então eles nos procuraram e nós estamos ainda em negociação. Mas essa coisa de baixar o preço dessa forma, em relação ao outros clientes, como a TendTudo, que é um dos clientes mais antigos nossos... fica complicado e não posso fazer isso.
OP - Com qual periodicidade vocês lançam uma coleção?
Ana Lúcia - O desenho da cerâmica era feito com rolos serigráficos enormes. Quando esse rolo estragava, tinha que vir novos rolos. Então, a inovação é feita pelos fornecedores de equipamentos. Eles sempre vão buscando uma tecnologia mais avançada e a última que eles desenvolveram foi um equipamento que imprime em HD, alta qualidade, na cerâmica. A inovação depende de inovação na parte de maquinário que é fornecido.
OP – Como a cerâmica acompanhou a evolução das construções?
Ana Lúcia – Uma vez chegou uma reclamação aqui que cerâmica estava preta. A cerâmica era branca e estava totalmente preta. Então a Mariana, minha filha, teve a ideia de partir a cerâmica de uma forma que você sabia que a outra parte ia encaixar nela, porque ela pegou a metade preta e colocou do forno. Quando ela saiu do forno, ela saiu completamente branca. E o CCB, que é o Centro de Cerâmicas do Brasil, ele é quem faz os testes dos produtos cerâmicos, habilitado pelo Inmetro. E o CCB estava com esse problema, porque ele estava com muita reclamação. O que acontece no Ceará é que o lençol freático é muito superficial e, pelo menos era, com essa falta de chuvas não deve estar tanto. Mas era muito superficial e acontecia muita reclamação por mancha d’água. Era mofo, era fungo na cerâmica e que deixou preto. E quando o nosso técnico ia atender a reclamação, que ele chegava e via o piso com fungo e a parede da casa soltando a tinta, ele dizia assim: ‘olha, o menor problema que a senhora tem aqui é a cerâmica’. E daí, por conta disso, nós desenvolvemos, com titânio, o piso resistente à mancha d’água. Pode ter um vazamento que a água não penetra mais na cerâmica. Outra coisa é a questão da resistência à abrasão. Então o cliente, hoje, está muito exigente. Para se ter uma ideia, tem uma história engraçadíssima. Quando meu marido morreu, a cerâmica era muito jovem ainda e ele não tinha tido ainda a oportunidade e, eu demorei também muito na minha gestão para encontrar uma excelente argila. Porque para fazer cerâmica de qualidade você tem que ter argila muito boa. E eu estava sendo fiscalizada, pelo fiscal da Fazenda. Ele disse: ‘Dona Ana, sabe o que dizem da sua cerâmica por aí?’ Eu disse: ‘não’. Ele disse: ‘Não aguenta dois forrós’. Ela perdia o esmalte com o atrito. Isso fez com que a gente buscasse uma argila melhor e também um esmalte melhor, com bons fornecedores, fornecedores com qualidade. Hoje nossa cerâmica é resistente à abrasão. Esse produto que nós temos aqui no escritório está colocado desde 2006. Estamos em 2015 e você vê que ele aguentou muitos passos, muitas pessoas caminhando.
OP- E em relação ao tamanho, mudou também? Ficaram maiores as cerâmicas?
Ana Lúcia– É até engraçado você falar isso, que eu estou lembrando o seguinte: fazíamos tamanho menor e daí nós passamos a fazer tamanho maior. Nós compramos equipamento para fazer um tamanho maior de cerâmica. Estávamos passando do 20 x 20 cm para o 33 x 33. Hoje a gente faz o 46 x 46 e 39 x 38. Bem, tinha um representante que vendia muito no interior do Ceará, então, ele ficou apavorado, porque quando nós começamos a produzir, que eu digo que eu presto muita atenção, observei que a gente parava a produção para mudar o tamanho. E aí parava e você perdia produção. Eu notava que quando produzia a maior, a produtividade era maior. Eu produzia mais naquele mesmo período do que quando eu estava produzindo tamanho menor. E, logicamente, isso daria um ganho e diminuiria um custo: o custo do gás, de pessoal, de energia. E daí, eu resolvi chamar representantes e dizer que nós não iríamos mais fazer o produto menor a partir de determinado momento. E esse representante ficou desesperado porque achou que não ia vender mais. Ele conversava com os representantes do interior e eles tinham a cultura de que casa pequena tinha que ter uma cerâmica pequena. Casa grande quem tem que ter cerâmica grande. Mas isso não existe. Aí ele trouxe um papel almaço, um absurdo, com bilhete dos clientes dizendo que eu não deixasse de produzir cerâmica menor, porque, senão, eles deixariam de comprar. Mas eu não fui por esse caminho e mantive, porque eu sabia que era a saída ideal para a fábrica. Ia produzir mais com menor tempo e não ia parar para mudar o produto. Foi mais ou menos no ano de 2001.
OP – Como é o controle do índice de qualidade de vocês?
Ana Lúcia – É muito sério aqui na fábrica. Porque um cliente, lojista satisfeito, se você atende a reclamação, o lojista fica satisfeito. Quando o cliente compra ele reclama ao lojista e ele vai à loja. Mas o lojista avisa à fábrica e a fábrica atende o cliente final. Nosso índice de reclamação é muito baixo. Sabe o que faz uma diferença enorme? Porque a maioria das reclamações são devidas ao assentamento incorreto, porque como houve um boom na construção civil, então não houve tempo para se formar tantos assentadores de cerâmica. Então, muitas vezes, a reclamação é devida a esse problema. Se você compra cerâmica, tem na caixa como você deve proceder para assentar e a maioria das pessoas não leem. E por esse motivo, o que fazemos há muito tempo, que tem os ajudado a diminuir esse índice de reclamação? Nós formamos assentadores. Ajudou muito a diminuir o número de reclamações.
OP - Pelo que a senhora falou, a Cerbras não está demitindo, está expandindo. Nessa expansão, você vai mudar a linha de produção, segmento que você já domina?
Ana Lúcia - Estamos com um novo projeto, breve, de porcelanato. Não tem uma data específica, mas a gente está bem. O processo é bem diferente do atual e o custo de fabricação é bem maior. O produto sai mais caro. A gente está pensado, talvez perto do Porto do Pecém que fica melhor para exportação. Eu acho maravilhoso ter a ZPE, faz uma diferença enorme e é muito importante que exista. Então, a ideia é ir para a ZPE.
OP - Sei que a senhora interferiu para que o Brasil mudasse sua relação com a China na concorrência de porcelanato. Como foi essa provocação que chegou ao então ministro Fernando Pimentel, hoje governador de Minas Gerais?
Ana Lúcia - Em 2011, as fábricas no Brasil que produziam porcelanato estavam deixando de produzir, importando da China. Era um processo de desindustrialização. Enviei e-mail para o chefe de gabinete do ministro. Quinze dias depois um amigo me liga e diz que os portos do Brasil estavam repletos de porcelanato, que o Governo brasileiro colocou canal vermelho para ter admissão do porcelanato que estava entrando da China. Após isso, ele criou um imposto de 35% para o porcelanato da China. As fábricas voltaram a produzir porcelanato.
OP - Mas mesmo com esse imposto, ainda há concorrência com a China no exterior, já que a Cerbras entrará no mercado de porcelanato.
Ana Lúcia - Vamos tentar vender no exterior, mas nosso foco maior é o mercado interno. A nossa importação hoje ainda é muito pequena. Nesses últimos anos a gente não exportou porque não tínhamos produto suficiente para exportar. Teve ano que a gente exportou muito para a Venezuela, outro ano para a Jamaica. Nós iniciamos para Cabo Verde. O início foi engraçadíssimo. No primeiro dia que íamos exportar, o navio deu o prego.
OP - Saindo um pouco do mercado. Como a senhora está trabalhando a sucessão na empresa?
Ana Lúcia - Quando meu marido morreu, meu filho do meio tinha 19 anos e trabalhava conosco. Ele sofreu comigo todo esse processo. Nós conseguimos crescer juntos e a participação dele é importantíssima. Ele fez informática e a fabrica é altamente informatizada graças a ele.
OP - Há mais filhos?
Ana Lúcia - Sim. A mais velha, Ticiana, tinha escritório de arquitetura e quando a gente começou a pensar na ampliação, pedi para ela trabalhar conosco. Ela resistiu, porque gosta muito de arquitetura, mas já está na fábrica. Todas as ampliações que foram feitas, ela quem está à frente. Ela também é da área administrativa. Tem a minha caçula, Mariana, que foi em busca da qualidade. Ela era da área comercial e foi para a industrial. Tem também a Maria Isabel, minha neta, que faz Engenharia de Produção na Unifor. Ela fica no desenvolvimento de produtos. As três mulheres trabalham dentro da fabrica. Então, eu já não faria falta. Isso eu tenho certeza! Meu papel agora é institucional.