Após anos de tentativas, jovens do Interior são aprovadas em Medicina na Uece
Fernanda Uchôa e Kaylane Rodrigues enfrentaram dificuldades financeiras, distância e múltiplos vestibulares até conquistarem a vaga em 2026
22:00 | Jan. 22, 2026
Um dos cursos mais disputados nas universidades brasileiras é, sem dúvida, Medicina. Para muitos jovens, o sonho de vestir o jaleco branco exige anos de estudo e uma rotina exaustiva que envolve renúncias que podem afetar sua vida social, emocional e financeira.
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Essa realidade foi vivida por Fernanda Uchôa, de 21 anos, e Kaylane Rodrigues, de 20. Após várias tentativas, as jovens conquistaram no último dia 14 de janeiro, a aprovação no curso de Medicina da Universidade Estadual do Ceará (Uece). Vindas do interior do Estado e de famílias humildes, as duas compartilham histórias marcadas por dificuldades e apoio familiar.
O esforço que deu resultado
Fernanda é natural da zona rural de Boa Viagem, a cerca de 98 quilômetros de Fortaleza. Filha de um agricultor e de uma agente de saúde, ela cresceu ao lado das duas irmãs, sempre estudando em escolas públicas e enfrentando desafios diários para ter acesso à educação.
Ela conta que apesar das dificuldades, os pais sempre priorizaram sua educação, bem como de suas irmãs.
Durante o ensino médio, Fernanda precisava percorrer cerca de 20 quilômetros diariamente até o centro da cidade, onde se localiza a escola. Em períodos de inverno, o trajeto se tornava ainda mais complicado, exigindo travessias de rios e longos deslocamentos. Mesmo assim, o incentivo da família foi decisivo para que ela seguisse estudando.
Após concluir o ensino médio, Fernanda decidiu tentar Medicina. Sem acesso a cursinhos presenciais no interior, mudou-se para Fortaleza em 2023, passando a morar com uma das irmãs.
Nessa época, conheceu o Projeto Oportunize que oferece bolsas de estudo integrais para jovens e adultos de baixa renda. Ela conta que graças ao projeto conseguiu ingressar no cursinho pré-vestibular do Ari de Sá, onde estudou de forma intensa para o vestibular.
Após cinco tentativas sem sucesso, entre Enem e Uece, Fernanda resolveu recorrer ao plano B e em 2024 ingressou no curso de Fisioterapia na Universidade Federal do Ceará (UFC). Porém, nunca abandonou o sonho de cursar medicina. Mesmo diante do cansaço emocional, decidiu tentar mais uma vez.
A aprovação veio de forma inesperada. No segundo semestre de 2025, sem grandes expectativas, Fernanda realizou a prova da Uece de forma tranquila, apoiada nos conhecimentos acumulados ao longo dos anos. Ao conferir o resultado, custou a acreditar no próprio nome entre os aprovados.
“Foi uma mistura de incredulidade e alegria. Chorei muito com a minha família. Ver que todo aquele esforço não foi em vão foi muito gratificante”, conta.
Para ela, a maturidade emocional e a tranquilidade no dia da prova foram determinantes. “Às vezes, o conhecimento a gente já tem, mas o emocional atrapalha. Dessa vez, fui em paz”, afirma.
Um sonho que nasceu na infância
Kaylane Rodrigues, por sua vez, nasceu em Fortaleza, mas cresceu no município de Pentecoste.
O desejo de cursar Medicina surgiu ainda na infância, a partir de uma experiência com sua avó, que sofria de psoríase, uma doença genética que causa manchas vermelhas, espessas e escamosas na pele. Apesar de não comprometer diretamente a saúde física, o preconceito das pessoas ao associar a doença a lepra impactava diretamente sua saúde emocional.
“Ela me contou tudo o que passou por conta da doença. Aquilo me marcou muito e despertou em mim a vontade de mudar a realidade de outras pessoas”, relembra.
Inicialmente, Kaylane não se via como estudante de Medicina. Vinda do interior, sem referências próximas na área, o curso parecia distante e inacessível. O sonho, no entanto, ganhou força em 2021, após a morte da avó em decorrência da Covid-19.
Durante o ensino médio, grande parte das aulas ocorreu de forma remota por causa da pandemia, o que segundo ela dificultou a construção de uma base sólida de conteúdos. Ainda assim, Kaylane decidiu se dedicar ao vestibular e, em 2023, mudou-se para Fortaleza para tentar uma vaga em cursinhos da capital, contando com o apoio financeiro da família.
O caminho foi marcado por incertezas, especialmente no segundo semestre daquele ano, quando os recursos financeiros começaram a faltar. “Chegava o fim do mês sem saber se conseguiria continuar estudando”, relata.
Assim como Fernanda, kaylane também teve ajuda do Projeto Oportunize em sua jornada. Mesmo Já tendo conseguido bolsa de 100% no curso preparatório do Ari de Sá, o projeto fez questão custear todo o material escolar, bem como os livros e o almoço da semana.
Os primeiros resultados positivos surgiram quando Kaylane conseguiu avançar para a segunda fase do vestibular da Uece, o que reforçou a confiança de que estava no caminho certo. Em 2024, com maior estabilidade, conseguiu melhorar significativamente suas notas, especialmente na redação, aproximando-se cada vez mais da aprovação.
No fim de 2024, voltou a alcançar a segunda fase do vestibular e, apesar da concorrência acirrada, manteve-se confiante. A aprovação, segundo ela, simboliza não apenas a realização de um sonho pessoal, mas também a superação de um ciclo de dificuldades.
“Só passa quem não desiste”
Apesar de trajetórias diferentes, Fernanda e Kaylane compartilham um elemento comum em suas histórias: a persistência. A pedido do O POVO, as duas Jovens deixaram uma mensagem de incentivo para os estudantes que sonham em ingressar no ensino superior.
Kaylane destaca que o percurso até a aprovação exigiu paciência e resiliência. Segundo ela, cada tentativa trouxe aprendizados importantes, que contribuíram para o amadurecimento.
“Nem sempre a resposta vem no tempo que a gente espera, mas continuar tentando foi essencial para chegar até aqui”, avalia.
Fernanda ressalta que cada um tem o seu tempo e que apesar das dificuldades no percurso continuar tentando é essencial para o sucesso
“Não desista dos seus objetivos, pois só passa quem não desiste. A caminha de ninguém é linear e vezes demora, mas não significa que não vai acontecer ”, afirma.