Quando o ambiente falha: como estereótipos distorcem o mérito acadêmico
Alunos estão expostos a estereótipos que atuam como "um peso invisível" e não são considerados em testes e provas, mas podem influenciar o rendimento
07:00 | Fev. 08, 2026
No início do ano, além das férias escolares, os vestibulandos do ano anterior esperam com expectativa as notas das provas de vestibulares, para saber se foram aprovados ou se devem se preparar para mais um ano de estudos.
Do ponto de vista dos estudantes e até de pessoas próximas, as notas costumam ser um termômetro para habilidades, esforços e sacrifícios feitos para ser aprovado.
Além de comparecer às aulas e resolver questões, fatores sociais e psicológicos estão intrínsecos e influenciam na aprovação ou reprovação.
Dentre esses fatores sociais, as condições de renda per capita são as mais comentadas. Porém existe outro que afeta o rendimento dos estudantes: o estereótipo. Ele também aparece em competições esportivas, podendo influenciar rendimentos baseados em gênero e classe social.
Entenda o que é a ameaça do estereótipo e como ele distorce a ideia de mérito na escola e no esporte.
O que é “ameaça do estereótipo”?
O conceito de “ameaça do estereótipo” foi apresentado pelos psicólogos sociais Claude Steele e Joshua Aronson em 1995 no artigo "Ameaça de estereótipo e desempenho intelectual em testes de afro-americanos", publicado no periódico científico Journal of Personality and Social Psychology.
No ambiente universitário, Steele e Aronson notaram que, em testes que diagnosticavam o nível de conhecimento e intelectual dos alunos, os estudantes negros tinham um desempenho inferior ao dos estudantes brancos.
Ao mudar o teste para algo que não envolvesse o diagnóstico, o desempenho entre os dois grupos se equiparava.
Os autores argumentam que a “ansiedade de ser julgado por meio de lentes raciais consome recursos cognitivos, prejudicando o foco e a precisão”. Isto explicaria por que os estudantes negros tiravam notas menores em testes diagnósticos.
A psicopedagoga Lara Silveira concorda com os autores, acrescentando que a pressão psicológica de “não pode errar para não confirmar um rótulo negativo” pode trazer prejuízos físicos e emocionais.
“Quanto maior a sensação de julgamento, maior tende a ser o impacto negativo no desempenho. Na prática, pode causar bloqueios mentais, dificuldade de concentração, lapsos de memória, ansiedade intensa e até sintomas físicos, como taquicardia e sudorese”, explica.
No Brasil, os pesquisadores Joice Ferreira da Silva e Marcos Emanoel Pereira (Universidade Federal da Bahia) avaliaram o desempenho de estudantes universitários cotistas e elencaram médias menores nesse grupo, alocados à condição de ameaça do estereótipo.
O estudo brasileiro está presente no livro "Avaliação educacional: desatando e reatando nós", publicado pela Editora da Universidade Federal da Bahia (Edufba).
“Os cotistas, pertencentes a uma categoria social sobre a qual recai uma série de estereótipos negativos, principalmente no tocante à performance intelectual na universidade, na condição de ameaça dos estereótipos, obtiveram um desempenho significativamente inferior aos não-cotistas”, afirma o estudo.
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Marcela Santos, 26, é cotista em uma universidade particular de Fortaleza, Ceará, e relata que as diferenças sociais acabam influenciando nas relações com os outros estudantes, principalmente os não bolsistas.
"Isso acaba nos excluindo das "rodinhas" de conversa, porque não temos assunto; eles falam de viagens e locais que eu nunca ouvi falar", inicia ela.
No entanto, a pressão maior é sentida academicamente. Marcela é moradora da periferia e, quando tem aula, faz um percurso de duas horas até a faculdade, e ainda concilia com o trabalho, já que precisa arcar com gastos de alimentação e transporte.
Para ela, a rotina corrida não a faz se aplicar como outros colegas, que se dedicam exclusivamente aos estudos. A comparação com esses estudantes é demonstrada durante os trabalhos e atividades.
"Sinto essa pressão todo semestre, especialmente em apresentações de trabalho. Evito apresentar no mesmo dia que certos colegas porque comparo meu trabalho ao deles; eles dão um "show de design" nos slides e eu sinto vergonha, mesmo que meu conteúdo tenha boas fontes".
Mas as dificuldades não tiram o mérito ou o orgulho de frequentar um curso de graduação, e trazem consigo a "esperança de mudar a realidade".
Ameaça do estereótipo em questões de gênero
No estudo “Gênero, competição e performance: Evidências de torneios reais”, dos pesquisadores Peter Backus, Maria Cubel, Matej Guid, Santiago Sánchez-Pages e Enrique Lopez Manas, demonstra-se como os estereótipos de gênero nas competições de xadrez influenciam o resultado de oponentes do sexo feminino.
O grupo escolheu as competições de xadrez, pois se trata de um ambiente machista, em que visões negativas sobre jogadoras de xadrez são generalizadas.
Constataram que os “resultados são piores para as mulheres quando enfrentam oponentes do sexo masculino”.
Para garantir transparência no processo de análise, foram analisados registros de cada lance em cada partida, não apenas o resultado, de modo que pudessem observar as escolhas feitas pelos jogadores e as circunstâncias em que essas escolhas foram feitas.
Mesmo sem conseguir explicar se o efeito estimado se deve a mudanças no comportamento dos homens, das mulheres ou em ambos, os resultados apontam para um efeito no gênero, que impacta os resultados das competições.
Às vezes, os rótulos e generalizações impedem um grupo de até mesmo tentar ingressar em uma modalidade esportiva ou de estudo.
Se o sujeito cresce ouvindo que determinado esporte "não é para o seu perfil", tende a se expor menos às atividades, praticar com menos confiança e desistir mais rápido diante de qualquer dificuldade, destaca Silveira.
Felizmente, essa não foi a realidade da estudante universitária Yasmim de Azevêdo Quaresma, que cursa Engenharia Aeroespacial.
No entanto, ela afirma que sua trajetória acadêmica - em olimpíadas de conhecimentos, turmas especiais de vestibulares e graduação na área de exatas - sempre teve um número reduzido de meninas nas salas de aula.
Em uma das turmas em que cursou o ensino médio, voltado para o vestibular do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), havia apenas quatro meninas.
“Muitas vezes pensei se compensava todo o sacrifício. Meus colegas de sala eram tranquilos, mas, como éramos minoria, era visível que os professores achavam que estávamos sentadas juntas apenas para conversar”, reconhece.
A estudante aponta que o machismo “não era escancarado”, mas em situações cotidianas, como reparar se as meninas estavam com a unha feia ou o cabelo arrumado nas aulas, significava que elas se preocupavam menos com os estudos. “Como se a vaidade atrapalhasse o desempenho”, aponta.
O interesse por ciências foi influenciado pela mãe, que é engenheira, e pelo fascínio por astronomia desde a infância, quando começou a disputar olimpíadas, como a própria Olimpíada Brasileira de Astronomia (OBA) e a Olimpíada Brasileira de Foguetes (Obafog).
Foi pela vivência da mãe que a estudante percebeu que ser mulher influencia sua experiência em sala de aula. A progenitora até ficou relutante em aceitar a escolha profissional da filha.
“Quando falei que queria engenharia, ela não apoiou de início porque sabia das dificuldades. Me alertava sobre ser a única mulher na sala, ter que esperar um homem responder antes de o professor validar sua resposta e ter que conviver com isso diariamente”, conta Yasmim.
Contudo, a estudante aponta que está vivendo uma geração diferente, em que, mesmo em ambientes que sejam influenciados pelos estereótipos - neste caso, estereótipos machistas -, "há muitas mulheres dispostas a mudar isso".
Além dos ideais de sororidade, Yasmim destaca que suas próprias qualidades a fazem se projetar além dos obstáculos. "Eu sempre fui muito competitiva. Arrisco dizer que escutar comentários de que "isso é para homem" gerou em mim o desafio de provar que aquilo seria para mim", finaliza.
Testes padronizados excluem ou ativam os estereótipos enfrentados pelos candidatos?
O artigo de Steele e Aronson está relacionado aos testes ou provas, utilizados como avaliação desde os primeiros anos escolares até a pós-graduação.
Para os autores, a padronização não garante equidade no processo, ou seja “para estudantes de grupos estigmatizados, o ato de ser testado impõe um fardo psicológico que pode mascarar sua verdadeira capacidade intelectual”.
Se essas avaliações não incluem os aspectos sociais e psicológicos que influenciam o resultado do estudante, não podem avaliá-los de forma completa.
“Do ponto de vista neuropsicopedagógico, o aprendizado e o rendimento escolar não dependem apenas do conhecimento, mas também do estado emocional do aluno”, afirma a psicopedagoga Lara Silveira.
Para a profissional, fazer avaliações justas significa oferecer condições adequadas para cada estudante demonstrar o que sabe.
Isso inclui flexibilizar formas de avaliação, considerar diferentes estilos de aprendizagem e criar ambientes avaliativos menos ameaçadores.
“Ambientes escolares acolhedores e práticas avaliativas mais humanizadas são fundamentais para garantir resultados mais justos e representativos do real potencial do estudante”, explica.
Em um ambiente estimulante, o aluno se permite tentar mais, errar sem medo e persistir, o que “favorece a criação de novas conexões neurais e o aprimoramento real das competências, tanto acadêmicas quanto esportivas”.