Cearense residente da Itália pede por repatriação e é ofendida nas redes sociais

Após apelar para as televisões brasileiras para conseguir ser repatriada, Francisca Graciane recebeu diversas ofensas de brasileiras também residentes da Itália

12:31 | Mar. 18, 2020

Por: Catalina Leite
Preocupada com a saúde do filho que tem pneumonia alérgica, Francisca tentou chamar a atenção do governo pela televisão. (foto: Arquivo pessoal)

Francisca Graciane, 36, mora em Nápoles, na Itália, há 15 anos. Ela é faxineira e tem quatro filhos de até 10 anos. A pandemia do Covid-19 assustou a cearense e a fez tomar a decisão de pedir repatriamento ao Governo brasileiro, já que uma das crianças tem pneumonia alérgica. Após tentar diversas vezes contato com o Consulado do Brasil e não ser atendida, Francisca decidiu apelar para as televisões nacionais.

Ao mostrar a situação de pânico entre os italianos, ela tentava chamar a atenção do Governo Federal, que não pensa em repatriar brasileiros. O que Francisca não imaginava é que receberia ofensas de brasileiras também residentes da Itália. 

"Fui chamada de 'nordestina passa fome', fiquei com vergonha e desisti da repatriação", conta. "Foram palavras de baixo calão referentes a mim e meus filhos", disse. Ela enviou à reportagem do O POVO prints de uma mulher desconhecida a ofendendo. Neles, a mulher acusa Francisca de pedir dinheiro para voltar ao Brasil e sugere que a faxineira "arranjou um italiano para conseguir permissão de residência". 

"Não é uma questão de dinheiro. Dinheiro para comprar as passagens eu tinha, mas a questão é que as fronteiras já estavam fechando. O Norte [da Itália] já estava fechado! E vi que o Bolsonaro repatriou os brasileiros [da China], que se uniram e pediram nesse momento de caos para retornar ao Brasil", explica a faxineira.

Como ela e um dos filhos tem pneumonia alérgica, Francisca ficou preocupada em permanecer na Itália durante a pandemia. Isso porque de 20 março a 21 de junho o país passa pela primavera, período de alergias. Com a saúde já sensibilizada, o risco dela e das crianças de contraírem o Covid-19, que atinge os pulmões, é maior.

Rotina com o coronavírus

De acordo com a faxineira, a maioria dos italianos continua trabalhando normalmente. Vestido de luva e máscara, o marido de Francisca sai de casa e evita tocar nas maçanetas. Ao retornar para casa, quem abre as portas é a cearense, enquanto o italiano vai direto tomar banho.

Os sapatos ficam fora de casa e tudo que o marido vestiu e utilizou é imediatamente limpo. É nessa vida regrada que a Itália, país com mais casos de Covid-19 fora da China, tem vivido.

Explicar para as crianças o que está acontecendo foi bem mais simples do que a mãe imaginava. Compreensivos, os filhos ainda pequenos cumprem adequadamente com os procedimentos higiênicos de lavar as mãos e os alimentos.

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Por outro lado, muitos jovens italianos desafiam as recomendações governamentais de isolamento. Muitas crianças, principais vetores da doença, continuam indo para a rua brincar. "Aqui na minha cidade tem pessoas teimosas que saem todos os dias. É normal, como se nada estivesse acontecendo", relata.