Artista plástico cearense Wilson Neto expõe obras na Macedônia

Artista cearense Wilson Neto criou obras sobre escavação de brinquedos antigos e agora expõe trabalho na Macedônia

19:37 | Mai. 19, 2024

Por: Carolina Passos
Artista cearense expôe obras na Macedônia do Norte (foto: Reprodução/ Instagram )

“Eu sempre percebi o mundo de uma maneira muito plástica e visual”, descreve o artista cearense Wilson Neto. Em suas obras, o criador busca sempre evidenciar algo que alie objetividade e subjetividade, tudo permeado pelo prazer de construir algo ligado à sua vida, ao mundo e ao seu tempo.

Wilson utiliza materiais e suportes não convencionais em suas obras, misturando elementos pictóricos e visuais com tecido, bordados, estampas e colagem, todos convergindo para formar um trabalho multicamadas, em constante expansão.

Com essas técnicas, o cearense conseguiu levar seu trabalho até Macedônia do Norte para a exposição “Arqueologia Reversa. Homo Ludens: Entre Fatos e Arquétipos”, no Museu da Cidade de Escópia.

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Aos 4 anos, Wilson se mudou de Fortaleza para Sobral com a família e lá descobriu as inúmeras possibilidades que a pintura poderia lhe proporcionar. Ela narra que seus pais sempre o incentivaram comprando mais materiais de arte do que brinquedos. Seus avós possuíam uma coleção de quadros dos artistas Leonilson e Chico da Silva, que ele garante que, de certa forma, com eles, obteve uma formação não-acadêmica.

Já na juventude sua primeira exposição foi no Beco do Cotovelo, principal calçadão da cidade de Sobral, que lhe abriu portas para outras oportunidades. No ano 2000, chegou a participar do Salão de Sobral, evento no qual ganhou uma "boa quantia em dinheiro e uma viagem para a Europa e Estados Unidos".

“Esse prêmio me fez acreditar que era possível ter uma carreira como artista. Foi onde eu pude realmente entender que a arte poderia ser uma profissão”, conta Wilson, revelando que esse momento foi o divisor de águas em sua carreira.

A obra vencedora foi nomeada de “Welcome to kitland”, uma colagem tridimensional, composta por objetos de plásticos encontrados em lojas de um real à época, que remete a flores, rosas brilhantes e teletubbies.

No júri, uma coincidência, três artistas cearenses do qual Wilson sempre admirou os trabalhos: Helio Rola, Solon Ribeiro e Roberto Galvão.

“Depois do Salão, eu tive contato com essas três pessoas em diferentes épocas da minha vida e eles tiveram uma influência muito boa. Fui aluno do Solon por alguns anos, Roberto Galvão funciona como um guru para mim. No sentido de que sempre que temos oportunidade discutimos a arte cearense, mundial e eu gosto muito de algumas opiniões dele. E o Hélio, que já era uma paixão infantil, porque eu acompanhava a coleção que meus tios tinham de obras dele, acabou virando parceiro também nas artes”, revela.

De acordo com Wilson, a inspiração é como uma alimentação, a vida vai guiando e inspirando seus interesses e curiosidade.

“Dizer especificamente de onde é a minha inspiração é complicado porque os interesses e a curiosidade que eu tenho na vida vão modificando a cada instante. No momento, por exemplo, eu estou com vários interesses na vida e isso vai acabar desembocando na arte. Eu considero o que eu faço, na verdade, não como uma invenção de uma novidade, mas como um comentário das invenções da humanidade”, explica.

Wilson continua, afirmando que o artista pode trabalhar para si mesmo como uma maneira de interpretar o mundo e tentar fazer com que tudo tenha algum tipo de sentido para ele mesmo. E que seu interesse é tentar decodificar tudo que ver através da sua própria vida.

“Existem vários tipos de artistas que trabalham sobre diferentes perspectivas. Eu particularmente gosto de fazer arte para mim mesmo e depois encontro um nexo entre todas elas. Também convido curadores, ou mesmo os compradores para estabelecer um nexo com o trabalho que eu faço”, expõe.

Exposição na Macedônia

O artista plástico Wilson Neto não sabe ao certo de quantas exposições já participou, mas garante que a mais importante de sua carreira sempre é a do momento que está vivendo. E a de agora é a “Arqueologia Reversa. Homo Ludens: Entre Fatos e Arquétipos”, que está em exposição no Museu da Cidade de Escópia, na Macedônia do Norte, com curadoria assinada pelo teuto-brasileiro Aldonso Palácio e da curadora franco-macedônia Gordana Velkov.

A mostra traz referências de brinquedos da civilização antiga da região. O interesse do artista brasileiro pelo tema se deu através de um sonho sobre a escavação de brinquedos antigos e isso o levou a aprofundar sua pesquisa por artefatos de civilizações passadas e seus arquétipos.

“Pela primeira vez em 15 séculos, dois brinquedos das centenas de brinquedos encontrados nas escavações ao redor da cidade estão participando da minha exposição. Um pequeno carrinho de boi e um chocalho em forma de pomba, esses dois objetos estavam em túmulos de crianças romanas e a partir deles eu fiz várias gravuras, desenhos e pinturas”, revela.

Muitos dos itens pesquisados pelo cearense para a exposição são encontrados em coleções de museus antropológicos e de história natural ao redor do mundo. Eles se assemelham a objetos de poder, amuletos sagrados e símbolos ritualísticos.

Conselho aos mais novos artistas

Para ele, viver de arte no Ceará tem seus prós e contras, mas o principal obstáculo é sempre o próprio artista. Wilson expõe que muitos deles acabam associando a vida das artes "a bebedeiras, farras" e trabalham quando querem e esperam a inspiração surgir para fazer a obra de sua vida.

Algo que para ele não funciona e atribui seu sucesso à disciplina que possui em trabalhar todos os dias e ser dedicado ao que se propõe a fazer.

“Não adianta ficar esperando por governo, secretaria de cultura do Ceará e de Fortaleza, Mecenas, Lei Rouanet. Esses projetos todos são muito bons, são muito interessantes, esses órgãos cuidam das artes com todas as limitações que eles têm, mas um artista não pode depender disso, ele tem que depender do seu trabalho e encontrar estratégias para poder viver dele”, opina.

Para as pessoas que sonham em viver da arte assim como ele, Wilson afirma que esse universo não é fácil, que apenas com muita dedicação, estudos e contatos com pessoas mais experientes é possível conseguir sucesso. E afirma que nenhum artista pode viver dependendo de incentivos de leis e governos para conseguir encontrar seu caminho.

“A arte pode ser extremamente generosa, como pode ser extremamente cruel. Mas eu acho que a vida tem realmente essas nuances. Cada artista tem que descobrir o seu próprio caminho. Então, se eu puder dar um conselho para um jovem artista, é persista, estude, converse com pessoas, abra sua mente, busque aprender novas técnicas e encontre a arte em diferentes âmbitos. Não fique preso unicamente a um caminho ou uma técnica. Quanto mais caminhos você desbravar, mais fácil vai ser conseguir se manter como artista no mundo extremamente competitivo e difícil que ele é”, aconselha.

Exposição “Arqueologia Reversa. Homo Ludens: Entre Fatos e Arquétipos

Onde: Museu da Cidade de Escópia, na Macedônia do Norte
Quando: até o dia 29 de maio
Mais informações: Instagram @wilsondneto