Artigo: Também morre quem atira
Desinformação é guerra. Fake news é projétil.
09:33 | Dez. 11, 2023
Desinformação é guerra. Fake news é projétil. Na guerra todos perdem, inclusive os civis da qual não participam diretamente. Na guerra é trick track boom para todo lado como diz a versão brasileira de Hey Joe, cantada pela banda O Rappa. A guerra mata o humano, destrói o humanismo, quebra a construção lenta e regular da civilidade, planta a relação de disputa em torno do básico. Semeia uma sensação difusa de que é preciso sobreviver àquele dia custe o que custar, matando a solidariedade e os valores que passam a ser vistos como ridículos. Ética, respeito e liberdade? Para quê, se hoje o que queremos é sobreviver?
E se democracia é a forma pacífica de solução dos conflitos, como disse Norberto Bobbio, na guerra não há espaço para que exista. Morre um pouco a cada vídeo, cada falsa mensagem, cada lacração ensaiada unicamente para viralizar. Mais grave quando o teatro macabro é feito nos fóruns parlamentares que foram constituídos para discutir o que interessa à sociedade e dentro dos quais deveríamos estar buscando soluções ao invés de likes – o combustível volátil de um efêmero poder
Todos nós já assistimos a pelo menos um filme de guerra. O cenário é sempre o mesmo: desolador, sem vida, sem árvores, lama, caos. A guerra pelo poder da visibilidade, não importando como as batalhas são travadas, e usando bombas de fragmentação de mentiras, levarão a esse fim. O que me faz crer que metaverso, nanotecnolo- gia, robótica, inteligência artificial ou todo e qualquer tipo de sofisticação digital não servirá ao homem se este não estiver capacitado para usar a inteligência natural.
Há desinformação no entretenimento, na política, na economia, na vacina, ora, ora. Portanto, o debate a respeito da desinformação como instrumento de manipulação requer dedicação de pesquisadores, instituições, governos, universidades, grupos como este, agências de checagem, escolas, a fim de que estratégias globais possam caminhar em direção ao que Bobbio chamou de “definição mínima de democracia” - um processo democrático que requer decisões coletivas e tomadas de forma ampla, não nos guetos digitais por meio de artifícios caluniosos.
A intensa e inevitável digitalização dentro do processo eletivo e da democracia - que Rancière chamou de “o reino dos desejos ilimitados dos indivíduos da sociedade de massa moderna”, mudou a forma como se dá a disputa pelo poder. Porém quem domina o SEO (Search Engine Optimization) não pode, por óbvio, dominar o que pensam as pessoas. Ainda tendo Bobbio como norte, um dos seus livros tem o nome de “O Futuro da Democracia”, e o subtítulo é o elucidativo “Uma defesa das regras do jogo”. Por isso, as naturais disputas pelo poder precisam ser regidas por regras que não deixem corroer os princípios sobre os quais é construída a própria sociedade. De tal forma que cada nação precisará rever com rigor sua Constituição, implementando mecanismos a fim preservar a legitimidade da escolha dos seus representantes por meio da proteção das informações circulantes na internet. Senão, não há jogo.
Importante atentar que analistas, gestores de TI, professores, cientistas, podem jactar-se de seus avanços digitais. É legítimo. Pensadores, intelectuais, cidadãos, cidadãs, podem ufanar-se de seus celulares, de seus computadores, de suas laboriosas invenções. Mas nada vai servir se o horizonte for de guerra. Se as tropas que buscam a conquista dos likes a qualquer custo, ou se os soldados que despreparados acham que há normalidade no repassar de balas para todos os lados, continuarem incapazes de filtrar o que deve ou não ser impulsionado por meio do singelo ato do compartilhamento. Porque nessa guerra, é preciso gritar alto: também morre quem atira.