O que é a Guarda Revolucionária do Irã
00:01 | Jan. 13, 2026
Criada após a Revolução Iraniana de 1979, que pôs religiosos islâmicos no poder, força militar de elite protege o regime de ameaças internas e externas e tem papel central no chamado Eixo da Resistência.A Guarda Revolucionária do Irã (IRGC, na sigla em inglês) é a força militar de elite do Irã responsável por proteger o regime de ameaças internas e externas. A força militar paralela foi criada após a Revolução Iraniana de 1979, em que islamistas derrubaram o governo apoiado pelo Ocidente, para proteger o então embrionário regime clerical xiita. Ela também formou um importante contrapeso para os militares convencionais do Irã, cujos integrantes foram vistos durante muito tempo como leais ao xá exilado. A unidade operou inicialmente como uma força doméstica, mas expandiu-se rapidamente depois que o então ditador iraquiano, Saddam Hussein, invadiu o Irã em 1980. Em reação, o aiatolá Ruhollah Khomeini deu ao grupo suas próprias forças terrestre, naval e aérea. A instituição é parte das Forças Armadas do país e está diretamente subordinada a Ali Khamenei, líder supremo do Irã. Embora o Irã nunca tenha divulgado números oficiais, uma estimativa do Instituto Internacional para Estudos Estratégicos calcula que a IRGC seja formada por 125 mil homens. Um Estado dentro do Estado A Guarda Revolucionária é considerada o pilar mais poderoso da liderança do Irã. Ela tem tropas próprias para o Exército, Marinha e Aeronáutica, unidades especiais para missões no exterior e a Basij, milícia paramilitar formada por voluntários. Soldados da Basij patrulham mesquitas e têm papel crucial na repressão violenta de civis contrários ao regime do aiatolá. A Guarda Revolucionária dispõe ainda de um exército cibernético, um centro de monitoramento e combate a crimes cibernéticos e um serviço secreto próprio, que age independente do órgão de inteligência do governo e reporta diretamente a Khamenei. Sanções internacionais Embora seja um órgão oficial do Irã, a IRGC foi designada uma organização terrorista pelos EUA em 2019, durante o primeiro mandato do presidente Donald Trump. O Canadá seguiu o exemplo em 2024, e a Austrália, em 2025 – após um ataque a uma sinagoga em Melbourne, pelo qual a Guarda Revolucionária foi responsabilizada. Na União Europeia, essa designação é limitada apenas a alguns oficiais do alto escalão da instituição. Em 2023, o Parlamento Europeu aprovou uma resolução solicitando a inclusão da Guarda Revolucionária na lista de organizações terroristas da UE. Embora a votação não seja juridicamente vinculativa, é provável que tenha um impacto significativo. A decisão final cabe aos Estados-membros. A Alemanha ainda não implementou essa medida. "A guarda foi criada como uma ferramenta para promover a jihad em todo o mundo", afirmou em 2019 à DW Paulo Casaca, fundador e diretor executivo do South Asia Democratic Forum, baseado em Bruxelas. Segundo ele, a Guarda Revolucionária "está envolvida na promoção do terrorismo há muito tempo" e é o "principal instrumento armado para os abusos do regime". Papel na economia Nas últimas décadas, a Guarda Revolucionária ampliou amplamente sua influência sobre a economia iraniana. Um exemplo disso é o Khatam-al-Anbia, conglomerado fundado no final da década de 1980 para reconstruir o Irã no pós-guerra. Controlado pela força de elite, ele é responsável por diversos projetos de infraestrutura e investimentos estratégicos. Hoje, a Guarda Revolucionária fabrica carros, constrói represas, estradas, ferrovias e até mesmo linhas de metrô. Ela também está intimamente ligada à economia de gás e petróleo do país e atua nos setores de mineração e farmacêutico. Informalmente, seus domínios se estendem até mesmo ao mercado imobiliário e ao contrabando. Não há, contudo, dados precisos sobre a participação da força militar no PIB iraniano. Papel no exterior e em conflitos fora do Irã A brigada Quds da Guarda Revolucionária é responsável por missões no exterior e tem como finalidade apoiar grupos ideologicamente próximos do Irã. No Iraque, por exemplo, essas tropas estruturaram forças xiitas; na Síria, apoiaram o ditador Bashar al-Assad; no Líbano, o Hezbollah; no Iêmen, a milícia houthi; e, na Faixa de Gaza, o grupo radical palestino Hamas. Essa aliança informal de países e milícias do Oriente Médio liderada pelo Irã é conhecida como "Eixo da Resistência" e inclui ainda grupos no Afeganistão e Paquistão. O que os une é sua oposição ao Ocidente. Elas se apresentam como a "resistência" à influência dos Estados Unidos e de seu aliado Israel na região. Irã e Israel têm travado uma guerra indireta há anos, mas em 2024 passaram a se atacar diretamente, na esteira das guerras na Faixa de Gaza e contra o Hezbollah no Líbano. Em junho passado, Israel lançou um pesado ataque contra o Irã, o pior infligido ao país desde a guerra com o Iraque de 1980, com o objetivo de sabotar o desenvolvimento de armas nucleares pela República Islâmica. Um dos mortos no ataque desta sexta é Hossein Salami, de 65 anos, chefe da Guarda Revolucionária iraniana desde 2019. Ele era um oficial experiente e integrava a organização praticamente desde a sua fundação, em 1979. Pai da Revolução Iraniana e líder supremo do Irã de 1979 até 1989, Ruhollah Khomeini fez do apoio à causa palestina e da eliminação de Israel um elemento central da política externa do país. ra/bl (DW, AP, AFP)