Marine Le Pen, da normalização da extrema direita na França à marginalização
12:29 | Jan. 13, 2026
Marine Le Pen conseguiu estabelecer a extrema direita como um ator-chave ao suavizar sua imagem sem abandonar sua plataforma, mas uma condenação surgiu no caminho que a aproximava da Presidência francesa.
A política de 57 anos voltou nesta terça-feira (13) aos tribunais com "um estado de espírito de esperança" para tentar anular em apelação a condenação a cinco anos de inelegibilidade imediata por desvio de recursos públicos europeus, imposta em março.
Até então, tudo parecia favorecer sua chegada ao Palácio do Eliseu em 2027, mais de uma década depois de herdar as rédeas do histórico partido de extrema direita de seu pai, Jean-Marie Le Pen.
Sem um candidato claro do partido governista para suceder o atual presidente de centro-direita, Emmanuel Macron, nas eleições, sua rival nos segundos turnos de 2017 e 2022 parecia estar em uma posição forte nas pesquisas.
Le Pen também viu suas ideias anti-imigração ganharem força em uma França cada vez mais de direita, mas também em um mundo onde os populistas ganham terreno, como na Itália, Hungria, Argentina e Estados Unidos.
"Sou um grande apoiador da candidatura de Marine Le Pen", disse na semana passada à emissora France 2 Steve Bannon, ex-conselheiro do presidente americano Donald Trump, para quem sua eleição na França ajudaria a "matar a UE".
Advogada de formação, com seu característico cabelo loiro, construiu sua ascensão combinando as principais preocupações dos franceses, como segurança e poder de compra, com a tradicional retórica anti-imigração de seu partido.
De forma metódica, a atual deputada francesa conseguiu se distanciar do passado racista e antissemita de seu pai, Jean-Marie Le Pen, de quem herdou a liderança da Frente Nacional (FN) em 2011, renomeada Reagrupamento Nacional (RN) em 2018.
Seus esforços em prol da normalização levaram-na inclusive a expulsá-lo do partido que ele mesmo fundou, em 2015, uma decisão pela qual ela "nunca" se perdoará, afirmou pouco depois da morte do patriarca, há um ano.
- Imagem popular -
A política, nascida em 5 de agosto de 1968 em Neuilly-sur-Seine, uma cidade rica a oeste de Paris, procurou projetar uma imagem popular nos últimos anos, com visitas a mercados, passeios de trator e entrevistas íntimas.
Nelas, costuma se apresentar também como agricultora e criadora de gatos, numa tentativa de normalizar sua imagem e enfraquecer a "frente republicana" de partidos contrários a ela no segundo turno.
Em seu reduto político de Hénin-Beaumont, na outrora próspera região mineradora do norte da França, ela se apresentou como uma "mãe de família", disposta a defender os franceses mais "vulneráveis".
Porém, ao mesmo tempo, defende reservar a assistência social para os franceses e o fim da reunificação familiar para migrantes, além de combater a "ideologia islamista" e proibir o véu em espaços públicos.
Internacionalmente, a invasão russa da Ucrânia em 2022 fez com que Le Pen se distanciasse do presidente russo, Vladimir Putin, e gradualmente abandonasse as demandas mais controversas de seu partido, como a saída da França da zona do euro.
Na última consagração de sua estratégia, Serge e Beate Klarsfeld, famosos caçadores de nazistas, consideraram em 2024 que o RN havia evoluído "positivamente" em relação aos "judeus" e ao "apoio a Israel".
- "Morte política" -
Marine Le Pen, de temperamento firme e olhos claros, apresenta-se como "mulher moderna" e solteira. Mãe de três filhos, divorciou-se duas vezes.
Apesar da inelegibilidade, não desistiu, mas, caso não consiga reverter essa "decisão política", como a define, já sinalizou que seu sucessor na eleição presidencial seria Jordan Bardella, o popular e jovem presidente do RN, de 30 anos.
A estratégia começou a ser preparada desde o primeiro julgamento, ao denunciar uma Justiça que busca sua "morte política".
"Seria muito preocupante para a democracia que a Justiça privasse os franceses de uma candidata" que "hoje aparece como favorita", disse na segunda-feira Bardella, que atualmente obtém resultados melhores que os de Le Pen nas pesquisas eleitorais.
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