Colômbia teme 'catástrofe' na América Latina após operação militar dos EUA na Venezuela
21:02 | Jan. 07, 2026
Os ataques dos Estados Unidos na Venezuela que terminaram com a captura de Nicolás Maduro podem escalar e desencadear uma "catástrofe" sem precedentes na América Latina, disse o vice-chanceler da Colômbia, Mauricio Jaramillo, em entrevista à AFP em Bogotá.
O governo colombiano (de esquerda) condena a incursão militar ordenada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em Caracas e considera um "sequestro" a detenção de Maduro, com declarações que despertaram a ira de Washington e aprofundaram ainda mais a fissura na relação entre países historicamente aliados.
"Se houver uma crise humanitária de grande magnitude, a crise, o impacto, a devastação, serão incontroláveis [...] Estamos falando de uma catástrofe que a América Latina não conhece", afirmou o vice-ministro em seu gabinete na Chancelaria, no centro histórico da capital colombiana.
O cenário preocupa o país que compartilha uma porosa fronteira de 2.200 quilômetros com a Venezuela e é o maior receptor do êxodo que fugiu da crise, com 3 milhões de imigrantes em território colombiano.
"A Colômbia é um país do Sul Global, de renda média [...] tentamos nos preparar, mas jamais estaremos totalmente preparados caso haja uma degradação decorrente da guerra", diz Jaramillo.
Desde que Trump chegou ao poder, em janeiro de 2025, as relações com a Colômbia entraram em seu momento mais baixo, com choques frequentes por temas como narcotráfico, imigração, tarifas, entre outros.
Mas os ataques de 3 de janeiro em Caracas marcaram um ponto crítico. A Chancelaria teme que o cenário se deteriore ainda mais na região, sobretudo no momento em que a América Latina está polarizada em relação aos Estados Unidos.
Enquanto Argentina, Equador e o governo eleito do Chile defendem a derrubada de Maduro, Brasil, México e Colômbia se uniram para condená-la.
"Essa divisão obviamente conspira contra uma saída regional [...] ao não termos alguns pressupostos e consensos mínimos, fica obviamente muito difícil responder de maneira regional", adverte o vice-chanceler.
- Preparados 'para uma guerra' -
Depois de derrubar Maduro, Trump ameaçou o presidente colombiano, Gustavo Petro — a quem chama de um líder do narcotráfico — com um eventual ataque semelhante.
O vice-chanceler diz que a Colômbia considera "improvável" um ataque militar por parte de Washington, mas que, diante de uma possível manobra militar dos Estados Unidos, o país exerceria "a legítima defesa".
As forças militares colombianas "sempre estão preparadas para uma guerra externa", sustenta.
Por ora, Jaramillo considera que a relação de Bogotá com o governo da nova presidente interina Delcy Rodríguez é "normal" e "fluida". Mas também indicou que será Petro quem vai decidir se haverá "reconhecimento formal" da dirigente chavista.
A Colômbia não reconheceu a questionada reeleição de Maduro no último pleito, mas afirma que as dúvidas sobre o resultado eleitoral não justificam a operação para removê-lo do poder.
"São os venezuelanos e não uma potência estrangeira que devem decidir quem é seu governo e qual é seu futuro", apontou.
- 'Preocupados' -
A Colômbia, o maior produtor de cocaína do mundo, está sob a pressão de Washington que considera insuficientes os seus esforços para deter a produção de drogas.
Trump retirou o país da lista de nações aliadas na luta contra o narcotráfico e impôs duras sanções financeiras contra Petro e seu círculo próximo.
O presidente colombiano, um ex-guerrilheiro que firmou a paz, disse estar disposto a pegar em armas para defender o país das ameaças de Trump.
Milhares marcham nesta quarta em várias cidades da Colômbia em defesa de Petro e da soberania nacional, convocados pelo governo.
"Preocupa que haja uma ingerência tão vocal, tão confessa, tão independente de toda a crítica e, sobretudo, sem contrapesos", disse Jaramillo.
Segundo o vice-chanceler, a melhor maneira para que a Colômbia enfrente essas ameaças é que trabalhe na diversificação econômica com países como a China, pois os Estados Unidos continuam sendo seu maior parceiro comercial.
"Razões para estarmos preocupados, obviamente que existem [...] por isso digo que corresponde a nós, como países do Sul Global, responder", acrescentou.
bur-lv/als/cr/rpr