Chile vota em plebiscito inédito sobre nova Constituição

11:59 | Set. 04, 2022

Por: AFP

Mais de 15 milhões de eleitores votaram neste domingo no Chile para aprovar ou rejeitar uma nova Constituição que busca mudar um modelo ultraliberal herdado da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990) para estabelecer maiores direitos sociais.

Desde que as assembleias de voto abriram cedo às 08:00 (09:00 no horário de Brasília), foram vistas longas filas de eleitores. Os centros fecharão às 18:00, hora local (19:00 em Brasília) neste domingo.

O presidente chileno, Gabriel Boric, assegurou que, seja qual for o resultado do plebiscito constitucional deste domingo, ele pedirá "unidade nacional" em um exercício com "mais democracia" para superar as fraturas sociais, disse ele ao votar sob aplausos de simpatizantes em sua cidade natal Punta Arenas, extremo astral do Chile, em frente ao Estreito de Magalhães.

A ex-presidente Michelle Bachelet, muito popular neste país, disse que se a opção Rechazo vencer, como antecipam as pesquisas, "as demandas dos chilenos não serão atendidas" e um novo processo deve ser convocado. A ex-presidente votou em Genebra, na Suíça, onde acaba de deixar o cargo de Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos.

Nas cidades do norte, sul e centro do país, muitos levantaram cedo para votar, o que é obrigatório depois de uma década. Em Quilicura, nos arredores de Santiago, a eleitora Rosa González parecia ansiosa. "Dormi pouco para esse plebiscito de tão nervosa (...) Então cheguei com muita antecedência. Melhor!", disse.

A opção "Rechazo" à nova Constituição lidera todas as pesquisas há mais de um mês, mas a campanha "Apruebo" mobilizou multidões, especialmente em Santiago, alimentando a ilusão de vitória.

Os atos de encerramento da campanha na quinta-feira na capital deste país de quase 20 milhões de habitantes, geraram duas fotos muito diferentes que contrastam com as previsões.

A festa de rua "Apruebo" reuniu entre 250.000 e 500.000 pessoas, segundo os organizadores, enquanto a cerimônia de encerramento "Rechazo" consistiu em um evento de não mais de 400 pessoas em um anfiteatro em Santiago.

"O que se vê nas pesquisas é confirmado, que a vantagem do 'Apruebo' em Santiago será muito importante sobre o 'Rechazo'", diz a socióloga Marta Lagos, fundadora do instituto Mori.

"Mas isso não significa que 'Apruebo' vai ganhar, tem uma grande desvantagem no sul e no norte do país", áreas que sofrem com a violência e a insegurança, acrescenta Lagos.

Enquanto no sul há conflitos por terras reivindicadas por grupos indígenas mapuches, no norte há um fluxo incessante de imigrantes sem documentos que vivem nas ruas e que tem gerado o surgimento de máfias de traficantes de seres humanos e crimes violentos.

"Por aqui, as pessoas vão mais pela rejeição (...) elas acreditam que é o melhor caminho, porque têm medo de mudanças. Têm que comer, têm trabalho e acham que vão perder, " disse à AFP Alfredo Tolosa, um trabalhador de 47 anos de uma empresa madeireira em Tucapel, uma cidade de 13.000 habitantes na região de Biobío (sul).

Pela primeira vez em mais de uma década, o comparecimento às urnas será obrigatório sob pena de uma multa máxima de 180.000 pesos (cerca de US$ 200). Isso, junto com o comparecimento dos jovens, pode inclinar a balança entre os mais de 15 milhões de eleitores.

Especialistas esperam a participação de mais de 11 milhões de pessoas, bem acima dos 8,3 milhões que votaram em dezembro, quando o esquerdista Gabriel Boric venceu a eleição presidencial, no que já se antecipa como uma "revolução participativa".

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