Estudante de Medicina relembra como encontrou corpo de amigo em aula

O caso de Divine acendeu na Nigéria uma discussão sobre o desaparecimento de pessoas associado à execuções sigilosas das forças policiais, segundo reportagem publicada pelo portal britânico BBC

17:26 | Ago. 03, 2021

Por: Mateus Brisa
O estudante de Medicina viveu a situação há sete anos na Universidade de Calabar, onde encontrou o corpo do amigo (foto: Arquivo pessoal)

O estudante de Medicina nigeriano Enya Egbe, de 26 anos, viveu uma situação traumatizante durante uma aula, quando foi pedido para examinar três cadáveres e um deles era de um amigo, chamado Divine. “Costumávamos ir a clubes juntos. Havia dois buracos de bala no lado direito de seu peito”, contou ele ao portal britânico BBC, em reportagem publicada nesse domingo, 1º. A situação aconteceu há sete anos na Universidade de Calabar.

“A maioria dos cadáveres que usamos na escola tinha balas. Eu me senti tão mal quando percebi que algumas das pessoas poderiam não ser criminosas de verdade”, relatou Oyifo Ana, uma colega de classe que ajudou Enya. À BBC, ela revelou que observou, durante uma manhã, uma van da polícia com cadáveres ensanguentados sendo conduzidos ao mortuário da universidade. O caso de Divine acendeu na Nigéria uma discussão sobre o desaparecimento de pessoas associado a execuções sigilosas das forças policiais.

Ao contatar os pais de Divine, Enya descobriu que a família o procurava há horas em delegacias depois que ele e três amigos foram presos por agentes de segurança voltando para casa. A família eventualmente conseguiu reivindicar o corpo do jovem. A legislação da Nigéria atualmente permite a permanência de “corpos não reivindicados” para escolas de Medicina.

Segundo uma pesquisa de 2011 da revista médica Clinical Anatomy, mais de 90% dos cadáveres usados nas escolas do país são “criminosos mortos a tiro”. Em média, a idade dos cadáveres está entre 20 e 40 anos; 95% são do sexo masculino; e três de quatro são de classes socioeconômicas inferiores.