Comunidades Criativas: mulheres aprendem a costurar e dividir técnicas e histórias de vida
Projeto desenvolvido com mulheres das comunidades do Poço da Drava e Gravioela, em Fortaleza, ensina costura, bordado e empreendedorismo
06:00 | Dez. 14, 2023
Histórias parecidas, desejos e objetivos também. Donas de casa que aprendem a costurar e bordar. A arte que atravessa gerações é compartilhada em dois dias da semana, em uma mesa enorme, com muita conversa e ensinamentos. O resultado são bolsas belíssimas feitas com uniforme usado e, sim, mais empoderamento para as mulheres das comunidades do Poço da Draga e Graviola, Praia de Iracema, em Fortaleza.
Muitos filhos, tantos outros netos, empregos temporários, viuvez, gosto pelo novo e pela oportunidade de empreender. No projeto Comunidades Criativas, um dos destaques é a sustentabilidade: uniformes não mais usados por funcionários da Enel viram bolsas cinzas estilosas e coloridas com linhas amarelas, vermelhas e cor de rosa. Modelos pensados pela artesão e facilitadora do curso, Vâni Mary Paiva.
“Elas trazem as informações. Assistem a um programa de culinária, reparam na roupa das participantes… ou um tapete que veem na Ana Maria Braga. Elas começam a visualizar o que estão fazendo”, conta Vâni. A mudança na forma de ver o mundo começa nas referências, que são trabalhadas da forma mais viável diante da realidade na qual elas estão inseridas. É uma oportunidade. “É no bordado que muitas mulheres encontram uma profissão, a coragem de sair da concha e buscar o novo fora de casa”.
Para Nádia dos Santos, 57, a oportunidade chegou após a morte do marido. “Aí eu tive que me virar. E nem é para me manter não, mas para me distrair e aprender coisas novas”, contou Nádia. Essa já é o terceiro curso que ela faz, mesmo, segundo ela, sem ter o dom da costura. “Meu sonho é pegar uma roupa e conseguir ajeitar tudo. Mas aqui é bom porque a gente vai aprendendo umas com as outras”, contou.
Quem vai costurando e ensinando é Maria Célia de Oliveira, 70, e só há seis anos ela costura de forma contínua. “Aprendi com minha mãe e minha tia, mas nunca fiz profissional”, conta. Falar sobre o que fazem no projeto, inevitavelmente, é falar sobre o filho que se separou, a neta que é uma “boneca de tão linda” e até da juventude no município de Morada Nova. “Achei que costurar seria bom para mim, porque aprender é bom”.
Potência criativa
Vira e mexe, uma das 15 participantes do projeto Comunidades Criativas pede para uma das facilitadoras fazer vídeos dos produtos ou das atividades que elas estão executando. A filmagem é para enviar aos conhecidos, “mostrar que estão produzindo”. É a potência criativa se mostrando, destaca a coordenadora do projeto e pesquisadora, Flávia Muluc. Ela trabalha junto às comunidades Poço da Draga e Graviola nove anos. Não foi o primeiro projeto em que mulheres que dão soluções para tudo nessa vida, sentam juntas para criar belezas que as fazem se orgulhar.
“A costura é algo fácil de acessar. Muita coisa das novas tecnologias, essas mulheres, entre 50 e 65 anos, já não entram porque não conseguem usar”, explica Flávia. O gosto pelo artesanato começou com a coleta de seis mil tampinhas que viraram uma imensa cortina. “Foi tão incrível que até hoje quando chegamos lá, vem criança com saco cheio de tampinha”.
A ideia de sustentabilidade na rotina dessas mulheres se contextualiza ainda nos sacos plásticos que também se tornaram bolsas. “Muitas achavam que para costurar, por exemplo, precisava de máquina. Mostramos que muitas coisas que elas podem trabalhar estão dentro da casa delas”, destaca a coordenadora do projeto. Na atividade com as sacolas plásticas, saco de feijão, colorido, mais grosso ou listrado: tudo fazia cor e sentido de acordo com o resultado buscado.
O projeto é desenvolvido através de um edital de incentivo à cultura, mas que exigia captação de matéria-prima junto à iniciativa privada. A coordenadora executiva do Comunidades Criativas, Pollyana Gualberto, explica que um relatório minucioso é preparado mostrando a evolução e os resultados do trabalho desenvolvido. “É dizer como o projeto impactou a vida dessas mulheres”.