Ibovespa tem início de semana estável apesar de tensão geopolítica
18:53 | Jan. 19, 2026
O feriado nos Estados Unidos em memória de Martin Luther King contribuiu para amortecer, no Brasil, o efeito da retomada na percepção de risco geopolítico, agora em torno da ambição do presidente americano, Donald Trump, pela Groenlândia.
Trump recorreu mais uma vez à indicação de tarifaço a países europeus como forma de pressionar para que o território semiautônomo, sob soberania da Dinamarca, passe ao controle direto dos EUA. A União Europeia, sob a liderança de Alemanha e França, promete uma retaliação comercial com efeito próximo a US$ 100 bilhões em resposta à iniciativa de Trump, a partir de 1º de fevereiro.
Na Europa, os principais índices acionários fecharam o dia com perdas acima de 1%. Por aqui, sem a referência de Nova York e com fluxo reduzido pelo feriado nos Estados Unidos, o Ibovespa não se distanciou da estabilidade ao longo da sessão, entre mínima de 164.264,75 e máxima de 165.154,76 pontos nesta segunda-feira, 19, em que encerrou em leve alta de 0,03%, aos 164.849,27 pontos. O giro ficou em R$ 12,6 bilhões na sessão, sem gatilhos domésticos que pudessem induzir os negócios.
Ao longo da semana, para além da questão geopolítica, a atenção dos mercados globais tende a se voltar para uma agenda carregada, a partir da quarta-feira, quando os olhos e ouvidos estarão concentrados no discurso de Trump em Davos, que pode trazer novas sinalizações sobre política comercial e fiscal, aponta Bruno Botelho, especialista em câmbio da ONE Investimentos. Na quinta-feira, a agenda prossegue com o PIB dos EUA, além dos pedidos semanais de seguro-desemprego e o núcleo do índice de preços PCE, métrica de inflação ao consumidor preferida do Federal Reserve.
Nesta segunda-feira, o índice da B3 contou com o suporte de Petrobras (ON +0,53%, PN +0,41%) e das ações de poucos bancos como Santander (Unit +0,69%) para suavizar o efeito negativo de Vale ON (-0,39%), principal papel do Ibovespa. Na ponta ganhadora do índice, Hapvida (+3,85%), IRB (+3,59%) e Cury (+2,94%). No lado oposto, Natura (-3,41%), CSN (-3,15%) e Raízen (-2,44%).
Em meio a esforços para adquirir a Groenlândia - que a Dinamarca já deixou claro não estar à venda -, Trump evitou comentar até onde irá para tomar o controle do território. Questionado se usaria força, respondeu apenas "sem comentários" em breve entrevista por telefone à NBC News. Quando perguntado se seguirá com o plano de tarifar nações europeias, Trump disse: "Eu vou, 100%".
Por sua vez, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, afirmou que "todos devem levar ao pé da letra o que o presidente Donald Trump diz", ao comentar a controvérsia em torno da Groenlândia. Em conversa com repórteres em Davos, Bessent disse que "é uma completa falácia" a ideia de que a postura de Trump sobre o território esteja relacionada à frustração por não ter recebido o Nobel da Paz. Mas, em carta ao primeiro-ministro da Noruega, o republicano teria afirmado "não se sentir mais obrigado a pensar apenas na paz" por não ter recebido o Prêmio Nobel, de acordo com a agência de notícias Reuters.
A diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, disse que "ainda é muito cedo" para avaliar o impacto das últimas tensões comerciais. E a China reagiu às declarações de Trump sobre a Groenlândia, pedindo que Washington abandone o que classificou como narrativa de "ameaça chinesa" para justificar interesses próprios na região.
Por fim, em outro desdobramento do dia, o chanceler alemão, Friedrich Merz, disse que tentará se reunir com Trump na próxima quarta-feira no Fórum Econômico Mundial em Davos, para evitar uma nova escalada das tensões. Ele reiterou que os países europeus irão retaliar os EUA para proteger seus interesses, caso as tarifas anunciadas por Trump entrem em vigor.
"Há muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo, com Trump voltando a bater de frente com países europeus. É uma política de choque mais uma vez, com a ameaça de imposição de tarifas, o que traz um grau maior de volatilidade para os negócios com ativos de risco", diz Ramon Coser, especialista da Valor Investimentos.
"Trump tem um histórico de usar ameaças tarifárias como tática de negociação e como instrumento contundente para impor sua vontade. Ainda assim, a Dinamarca claramente não tem interesse em vender, nem seus pares europeus parecem dispostos a ceder às exigências", diz Matthew Ryan, head de estratégia de mercado da Ebury.
Ele cita que Reino Unido, Alemanha, França, Países Baixos, Suécia, Noruega, Dinamarca e Finlândia enfrentarão uma taxa adicional dos EUA de 10% a partir de 1º de fevereiro, caso não seja alcançado um acordo sobre a Groenlândia. Tarifas adicionais que subirão para 25% se nenhum acordo for firmado até 1º de junho, acrescenta Ryan. "O rumo a partir daqui é incerto."
"Mesmo sem mercado por lá nesta segunda, os futuros de Nova York sinalizam queda. Houve pouca volatilidade aqui, com dispersão baixa também se considerarmos as ações individualmente, sem gatilhos e com baixa liquidez. Na margem, dólar se mostrou mais fraco na sessão com a intensificação da disputa geopolítica, ante o prometido efeito comercial se não houver acordo sobre a Groenlândia. O tom subiu, há mais tensão no momento", diz Nícolas Merola, analista da EQI Research.
Ainda que tenha ficado no pano de fundo da sessão, o mercado tomou nota, de forma positiva, da entrevista do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ao Uol, observa Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos. "Sobretudo por conta do apoio institucional dado pelo ministro ao Banco Central, no que tange à condução da política monetária e, principalmente, ao processo de intervenção e liquidação do Banco Master", acrescenta.