"Cybercangaço": MPCE denuncia grupo que exigiu R$ 150 mil de indústria
Grupo utilizava aplicativos de mensagem para cobrar "pedágio" de grandes empresas e ordenar a destruição de torres de Internet
21:08 | Fev. 05, 2026
O Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE) ofereceu denúncia contra 13 integrantes de duas alas rivais da facção Comando Vermelho (CV) que protagonizam uma "guerra civil" pelo controle do tráfico em São Gonçalo do Amarante e na região portuária do Pecém, no Ceará.
O POVO teve acesso ao relatório técnico, a acusação, baseada em investigação da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) e relatórios de inteligência. O material expõe um nível de sofisticação que transcende o comércio de drogas.
Segundo o documento, o grupo implementou o "Cybercangaço", uma tática de terrorismo digital e ainda utilizava o WhatsApp como ferramenta corporativa para extorquir grandes indústrias.
Um dos trechos da denúncia, detalhado no relatório técnico do MPCE, descreve a abordagem criminosa contra uma empresa de montagens.
As provas obtidas mostram que o denunciado Francisco César Costa de Oliveira, vulgo "Cambota", utilizou aplicativos de mensagem para contatar representantes da firma. Nas conversas, ele se apresentou formalmente como "liderança do Comando Vermelho em São Gonçalo do Amarante".
"Cambota" exigiu o pagamento de R$ 150.000,00 e dizia que o valor funcionava como uma "taxa de permissão" para que a indústria pudesse operar e para garantir a integridade física dos funcionários dentro do território dominado pela facção ("Tropa do R4/Venom").
O MP destaca que a extorsão migrou do pequeno comerciante para o setor industrial estruturado do Pecém. Durante a quebra do sigilo telefônico dos aparelhos apreendidos, a Polícia encontrou material probatório.
O MP aponta que os acusados usavam grupos de WhatsApp para exibir poder bélico, com fotos e vídeos ostentando fuzis e pistolas com carregadores alongados, celebravam ações com áudios comemorando a morte de rivais da ala oposta.
"Cybercangaço" tinha ordens expressas para atacar a infraestrutura da cidade
Em um dos trechos citados pela investigação, os criminosos ordenavam ataques a torres de provedores de internet para deixar a população incomunicável e dificultar o acionamento da Polícia, tática que a Inteligência da SSPDS classificou como "Cybercangaço".
Além do isolamento, o objetivo era forçar moradores a contratar apenas serviços de internet controlados ou taxados pela organização.
A denúncia narra que o "terror social" vivenciado na região é fruto de um racha interno ocorrido após outubro de 2024, com a morte do antigo líder, Hugo Ferreira de Sousa ("R10"). O vácuo de poder dividiu a facção em dois exércitos.
A tropa da Sede (R2) liderada por Francisco Antônio da Silva Moreira ("Biscuit"), que controla o centro, Taíba e Lagoinha e a tropa do Pecém (R4), liderada por Mateus Barroso Guimarães ("Venom"), que domina a área industrial e Sítios Novos.
Segundo o MP, essa disputa gerou uma "instabilidade na segurança pública local", com reflexos diretos na rotina dos moradores, que passaram a viver sob toques de recolher e tiroteios constantes.
O Ministério Público pede a condenação dos 13 denunciados nas penas da Lei de Organizações Criminosas. Diante dos prejuízos causados à sociedade, o promotor do caso requer ainda que cada réu seja condenado a pagar R$ 50.000,00 a título de reparação por danos morais coletivos, valor a ser revertido ao Fundo de Defesa dos Direitos Difusos (FDID).
Devido à gravidade dos fatos e à reincidência dos acusados, o MP informou que não ofereceu Acordo de Não Persecução Penal (ANPP).