Ceará foi o refúgio seguro de Lampião

Perseguido intensamente em Pernambuco, Alagoas e Bahia, o cangaceiro desfrutava de abrigo em território cearense. Resultado da omissão de políticos, da conivência de policiais e de rede de apoios que ia de vaqueiros a fazendeiros, passando pelo clero

20:40 | Jul. 27, 2018

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[FOTO1]Mossoró, no Rio Grande do Norte, foi a maior cidade atacada por Virgolino Ferreira da Silva. Sua ação mais ousada - e sua maior derrota. O bando de Lampião encontrou feroz resistência e, após cerca de uma hora e meia de combate, bateu em retirada. A contagem dos mortos entre os cangaceiros varia de três a seis. Na fuga, dirigiram-se ao Ceará. Em 15 de junho de 1927, chegaram a Limoeiro do Norte, no Vale do Jaguaribe, Ceará, dois dias após deixarem de Mossoró. Lampião enviou mensageiro para avisar de sua chegada. A polícia, então, deixou a cidade. O bando entrou em Limoeiro dando vivas ao governador José Moreira da Rocha e ao padre Cícero Romão Batista, de quem Virgolino era devoto. Os chefes políticos mataram um boi para recepcionar os bandidos. O bando comeu, fez orações. A contribuição em dinheiro foi acertada com os líderes locais. Após o pagamento, o bando de Lampião se retirou.
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De todos os estados nos quais esteve, o Ceará foi, de longe, o que menos sofreu com a violência imposta por Lampião. Ele dizia textualmente que preservava o território. O motivo principal era o padre Cícero. Além disso, tinha boas relações com políticos e a polícia local não costumava importuná-lo. Possuia também importantes aliados. Diante dessa equação, praticamente não há registro de episódios de violência relevantes provocados por Virgolino no Estado.
[SAIBAMAIS]
Na época do ataque a Mossoró, estava em curso em Pernambuco a maior e mais eficaz campanha jamais realizada contra o cangaço. A perseguição em Alagoas também havia se intensificado. Antes da maior cidade do interior potiguar, Lampião atacou o norte da Paraíba, onde nunca havia atuado. Buscava territórios onde tivesse circulação mais fácil. Esse foi o contexto que o levou a Mossoró, em 13 de junho de 1927. Foi a cidade mais ao norte que atacou em toda sua trajetória. Diante da resistência encontrada no Rio Grande do Norte, fugiu para o Ceará.

Visitou frequentemente o Estado quando procurava descanso ou a perseguição crescia em outros lugares. Em outubro de 1925, por exemplo, o bando foi visto em Mauriti, onde fizeram compras na feira e pagaram tudo que consumiram. Como as passagens eram pacíficas, é provável que tenha visitado o Ceará em muitas ocasiões sem que se tenha tido notícia - eram os episódios de violência que faziam com que circulassem as notícias de sua presença.
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Padre Cícero

No Ceará, em geral, isso só ocorria quando havia passagens marcantes. Caso de março de 1926, quando chegou a Juazeiro do Norte. Havia recebido convite do deputado federal cearense Floro Bartolomeu para integrar os Batalhões Patrióticos, formados para combater a Coluna Prestes. Foi recebido pelo padre Cícero, no encontro que reuniu duas das personalidades mais emblemáticas da história dos sertões. A pedido do sacerdote, Pedro de Albuquerque Uchôa, inspetor agrônomo do Ministério da Agricultura e única autoridade federal em quilômetros, assinou numa folha de papel almaço documento dando a Virgolino a patente de capitão dos Batalhões Patrióticos. Os cangaceiros desfrutaram da estada e foram alvos da curiosidade popular. Muitos familiares de Virgolino haviam se mudado para a cidade que já então era uma Meca dos sertões. Lá fizeram a última foto de família.

Ao irem embora, receberam armas, munições e a promessa de trânsito livre. Em Pernambuco, porém, a polícia os perseguiu. O status de capitão dos Batalhões não foi reconhecido. Em pouco tempo, o bando estava novamente envolvido em violência.

No ano seguinte, pouco antes do ataque a Mossoró, em maio de 1927, Lampião esteve de novo no Ceará. Foi a Aurora e, conforme noticiaram os jornais, teve encontro e tomou café com o chefe de Polícia. No mês seguinte, já ao deixar Limoeiro do Norte, Lampião tomava a direção de Aurora quando foi alvo de inesperada hostilidade de policiais cearenses. Aparentemente, tomavam as dores do ataque a Mossoró, sobretudo pelo ataque tem ocorrido tão perto e em cidade tão ligada ao Estado. Os cangaceiros ficaram acuados e quase sem comida, mas conseguiram escapar, em episódio que rendeu duas críticas aos policiais cearenses e sérios questionamentos por parte das tropas de outros estados.

Mesmo sem a repressão ter sido bem-sucedida, a inusual hostilidade em território cearense parece ter sido determinante para uma guinada na trajetória de Lampião - e dos sertões. Em 21 de agosto de 1928, numa canoa, ele cruzou o São Francisco. A região ao sul do Rio se tornaria a base de suas operações dali em diante. O cangaço na Bahia conheceria nova era. E Lampião passou a ter como refúgio preferencial outro estado: Sergipe, onde um de seus protetores seria o médico e capitão do Exército Eronides de Carvalho, com quem Virgolino se encontrou ao menos uma vez. Em meados dos anos 1930, Eronides se tornou governador.

Paradoxalmente, Lampião veio a morrer justo em Sergipe. Mas, pelas mãos da polícia alagoana.
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